top of page


Todos os artigos
Saudade cabe no dicionário?
Dois verbetes e uma investigação sobre ausência, memória, tempo, tradução e identidade “É um mal de que se gosta e um bem que se padece.” — D. Francisco Manuel de Melo, Epanáfora Amorosa (grafia atualizada) Por Glênio S Guedes (advogado) Certas palavras entram no dicionário sem oferecer grande resistência. Mesa aceita com razoável docilidade ser móvel; triângulo parece conformado com seus três lados. Saudade, não. Mal se tenta encerrá-la num verbete, ela começa a fazer o que
gleniosabbad
há 3 horas7 min de leitura
O alemão está na garrafa
Como ler um vinho em que Spätlese não quer dizer necessariamente doce e Trockenbeerenauslese não quer dizer seco “Há garrafas que pedem um saca-rolhas; as alemãs, por prudência, recomendam também um dicionário.”— Conselho ao viajante Por Glênio S Guedes (advogado) Uma garrafa alemã pode intimidar antes mesmo de ser aberta. O leitor reconhece Riesling e anima-se; encontra Spätlese e ainda persevera; chega a Trockenbeerenauslese e começa a suspeitar que, para beber vinho na Ale
gleniosabbad
há 3 horas7 min de leitura
O Lembit, esse teimoso
Ou de como um submarino deixou de lançar torpedos para começar a lançar perguntas “A História possui estranhos arquivos. Alguns têm periscópio.” — Máxima naval A um amigo almirante, homem do mar e do dever, que certamente compreenderá por que certos navios, depois de atracados, continuam navegando. Por Glênio S Guedes (advogado) Quantas Estônias cabem dentro de um submarino? A pergunta pareceria despropositada, não fosse a História especialista em alojar coisas grandes em esp
gleniosabbad
há 20 horas4 min de leitura
Existe vacina contra a estupidez?
Por uma imunologia epistemológica contra certezas, boatos e doutores de si mesmos “Qual a justificativa para um profissional que estudou seis anos para entender o funcionamento do organismo humano defender ideias e teorias sem sentido, que prejudicarão a sociedade inteira?” — Drauzio Varella, “As vacinas e a estupidez humana”, Folha de S.Paulo, 26 ago. 2026. Por Glênio S Guedes (advogado) Drauzio Varella começa por uma distinção que parece óbvia até que se olhe ao redor: igno
gleniosabbad
há 1 dia4 min de leitura
O filósofo chegou tarde?
Machado de Assis já havia desconfiado de quase tudo “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” — Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas Por Glênio S Guedes (advogado) Machado de Assis morreu em 1908, inconveniência cronológica que o impediu de ler os filósofos Karl Popper, Hans-Georg Gadamer, Michel Foucault e Paul Ricoeur, bem como o sociólogo Erving Goffman. Estes, por sua vez, tiveram a vantagem de chegar depois. Não se conclu
gleniosabbad
há 2 dias6 min de leitura
A natureza ainda ama esconder-se?
Uma visita de Gaston Bachelard ao Museu do Amanhã φύσις κρύπτεσθαι φιλεῖ Phýsis krýptesthai phileî “A natureza ama esconder-se.”— Heráclito, fr. B123 Por Glênio S Guedes (advogado) Gaston Bachelard sobe as escadas do Museu do Amanhã e, antes mesmo de encontrar uma máquina, depara com um homem que o esperava havia mais de dois milênios. É Heráclito de Éfeso. Ou, para sermos menos fantasiosos, uma frase sua: “A Natureza ama o mistério.” Bachelard provavelmente pararia. Filósofo
gleniosabbad
há 3 dias5 min de leitura
Por que Portugal fascina? Porque posso falar português e caminhar sobre Roma
De Olisipo, Ossonoba e Balsa aos nomes e povos que já estavam lá quando os romanos chegaram “Roma julgou que chegara ao princípio. A arqueologia, indiscreta, corrigiu-a.” Homenagem À cidade de Tavira e ao seu Museu Municipal, pela extraordinária exposição Balsa, Cidade Romana (2024–2025), que fez o que os melhores museus sabem fazer: não apenas guardar o passado, mas devolvê-lo aos vivos. Balsa esteve quase dois mil anos debaixo da terra; Tavira teve a elegância de apresentá-
gleniosabbad
há 5 dias8 min de leitura
De que Galeno, afinal, estamos falando?
Ecdótica, traduções e a reconstrução de um médico depois de dezoito séculos “A hermenêutica pergunta o que o texto significa; a ecdótica pergunta, antes, qual é o texto.” Por Glênio S Guedes (advogado) Em El médico de Pérgamo, romance do médico e escritor colombiano Orlando Mejía Rivera, uma breve “Nota del editor” prepara uma artimanha literária de excelente compostura. Durante as comemorações, em 2010, dos quinhentos anos do nascimento do anatomista siciliano Giovanni Filip
gleniosabbad
há 7 dias6 min de leitura
O Peru antes de Mendoza: onde começou o vinho na América do Sul?
Das primeiras videiras às uvas criollas: como o Peru se tornou o primeiro grande território vitivinícola sul-americano “A posteridade distribui as glórias com admirável segurança; às vezes esquece apenas de consultar as datas.” Ao Prof. Dr. Sergio Kahn, profissional de reconhecimento internacional, diante de quem — suspeito — até René Lefort e Pachacútec se curvariam. Cada qual, naturalmente, por suas próprias razões. Por Glênio S Guedes (advogado) Quando os espanhóis chegara
gleniosabbad
21 de ago.5 min de leitura
O Necrotério das Ilusões: Ensaio de Patologia Institucional Contemporânea
«À medida que a civilização acelera, a anatomia perde a compostura geométrica: a violência já não nos visita com a rudeza simétrica do ferro, mas com a fúria cominutiva dos motores em alta velocidade.» Por Glênio S Guedes (advogado) A cada dia aprendo mais e mais com meus estimados clientes e diletos amigos médicos. São eles que, entre uma consulta despretensiosa e uma digressão sobre as misérias do bípede sem penas, vão me provendo de preciosos instrumentos heurísticos para
gleniosabbad
21 de ago.4 min de leitura
Palavras a menos a cada dia: viraremos zumbis? Ubi sapiens?
Conveniência tecnológica, empobrecimento lexical e a crise do pensamento complexo Por Glênio S Guedes (advogado) A humanidade, em seu perpétuo afã de poupar suor, atritos e os maçaricos inevitáveis da convivência, parece ter finalmente descoberto a fórmula magistral para livrar-se do incômodo de conviver. Segundo atestam Valeria Pfeifer e Matthias Mehl em pesquisa trazida a lume pela imprensa científica, o bípede contemporâneo fala cerca de trezentos e trinta e oito vocábulos
gleniosabbad
19 de ago.4 min de leitura
Dê-me a mão: vamos aprender semiótica na Quinta da Regaleira
Ícones, índices, símbolos e outros mistérios de um jardim que pensa “As coisas mostram-se aos olhos; os signos, porém, acontecem no pensamento.” Por Glênio S Guedes (advogado) Há jardins que pedem sapatos confortáveis. A Quinta da Regaleira exige também alguma teoria dos signos. Convém não assustar ninguém: Charles Sanders Peirce cabe no bolso, desde que não tentemos levá-lo inteiro. A dificuldade talvez comece antes mesmo de Peirce: começa na palavra. Lucia Santaella, ao apr
gleniosabbad
18 de ago.8 min de leitura
Centum Cellas ou a respeitável ciência do talvez
O que uma ruína romana ensina sobre abdução, interpretação e certeza “Entre a pedra e a certeza costuma haver uma hipótese; convém não omiti-la.” Por Glênio S Guedes (advogado) Um fato não questiono : há edifícios antigos que envelhecem em paz. Perdem o telhado, cedem uma parede, recebem musgo e, chegados a certa idade, adquirem o direito à veneração sem maiores interrogatórios. Centum Cellas, em Belmonte, não teve essa fortuna. Sobreviveu bastante para ser admirada e incompl
gleniosabbad
16 de ago.5 min de leitura
Quando uma abóbada perdeu a inocência
De fornix a fornicação: pequena história de uma palavra que saiu da arquitetura e entrou na moral A Nando, amigo querido, que certa vez foi à Sorbonne estudar Direito Comparado ou algo quejando. Durante um ano, cinco meses e sete dias, conheceu mais de catorze países e nenhuma sala de aula. Preferiu comparar os costumes. A ciência perdeu algumas horas; a pesquisa de campo ganhou experiência considerável... “O arco era inocente. A etimologia chamou testemunhas.” Por Glênio S G
gleniosabbad
16 de ago.4 min de leitura
A fístula anal do Rei e a dignidade da cirurgia
Como o traseiro de Luís XIV ajudou as mãos a vencerem o latim “L'État, c'est moi.” A fístula, contudo, parecia discordar. Ao Dr. Jair e ao Dr. Leopoldo, nossos amigos cirurgiões, e, em seu nome, aos cirurgiões — porque o corpo, ao contrário da vaidade, sabe distinguir uma mão que sabe de uma cabeça que presume. Por Glênio S Guedes (advogado) Luís XIV podia governar ministros, exércitos, cortesãos e províncias; podia mandar construir Versalhes, disciplinar a nobreza e fazer de
gleniosabbad
15 de ago.5 min de leitura
E se o Bruxo do Cosme Velho decifrasse o sículo?
Uma inscrição de 2.500 anos, um vaso de vinho e a eterna ciência de não se comprometer Por Glênio S Guedes (advogado) Exercício de imaginação literária. A leitura e a tradução da Inscrição de Centuripe seguem sendo matéria de discussão entre especialistas; aqui, a arqueologia entra pela porta da frente e a ironia, como de hábito, pela janela. Dizem que a Sicília guarda ruínas. Engano respeitável, desses que merecem uma poltrona na Academia. A Sicília guarda também homens — mo
gleniosabbad
15 de ago.5 min de leitura
Homo Sapiens e o Zumbi Digital: O Risco de Perder o Paladar na Era da Sintaxe
Por Glênio S Guedes (advogado) Comecemos pelo princípio, que, nestes tempos de amnésia crônica e adoração ao instante, convém sempre resgatar. A alcunha que ostentamos com indisfarçável orgulho, sapiens, não nos foi outorgada por acaso. A raiz latina sapere transita, com invejável fluidez, entre o "ter sabedoria" e o "ter gosto". O ser humano, em sua concepção original, é a criatura que saboreia o mundo, que mastiga a realidade objetiva para dela extrair o sumo do significado
gleniosabbad
14 de ago.5 min de leitura
Quanto de qualia há numa taça de vinho?
Se eu não posso saber “como é ser um morcego”, posso realmente saber “como é, para você, beber este Barolo”? Aos nossos amigos da Serra, enófilos inveterados, com quem dividimos vinhos, palavras e memórias — embora cada taça guarde, no fundo, a solidão de seus próprios qualia... “A sensação do gosto de um vinho [...] é exemplo de qualia.” — Walter Menon, Filosofia da mente, 2016, p. 174. Por Glênio S Guedes (advogado) Dois amigos dividem uma garrafa de Barolo. O vinho é rigor
gleniosabbad
13 de ago.6 min de leitura
Literatura fermentada
Rabelais, o vinho e a arte de transformar o mundo em linguagem “A vida é o vinho do homem.” — Tratado do bom uso de vinho, atribuído a François Rabelais Glênio S Guedes (advogado) Alguns escritores constroem livros; François Rabelais prefere fermentá-los. Bíblia, medicina, direito, teologia, latim, provérbios, obscenidades, mitologia, filosofia, comida, excrementos, gigantes, monges, médicos e bêbados entram na mesma cuba. Ali se misturam, reagem, espumam. O que dela sai já n
gleniosabbad
9 de ago.4 min de leitura
O Código Penal não pune o roubo de palavras
Brillat-Savarin e a estranha riqueza das línguas que não temem mudar “Tomei emprestado e roubei, porque semelhantes empréstimos não contêm cláusula de restituição e porque o Código Penal não pune o roubo de palavras.”— Jean Anthelme Brillat-Savarin, Fisiologia do gosto, Prefácio. Por Glênio S Guedes (advogado) Há livros que nos surpreendem pelo que dizem; outros, pelo lugar em que resolvem dizê-lo. Quem abre a Fisiologia do gosto, publicada em 1825, espera encontrar um homem
gleniosabbad
9 de ago.5 min de leitura
bottom of page