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A morte da ironia: quando a certeza dispensa a inteligência
Entre o sinfronismo de Domício Proença Filho, a ironia de Machado de Assis e a estranha incapacidade contemporânea de duvidar de si mesmo. Glênio S. Guedes ( advogado) Houve um tempo em que a ignorância, surpreendida em flagrante, ainda experimentava algum constrangimento. Não que fosse menos abundante. Apenas conservava certa discrição, talvez por receio de encontrar alguém que soubesse mais. Hoje, em determinados ambientes, adquiriu desenvoltura, tribuna e plateia. Já não p
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há 6 dias6 min de leitura
O direito era alemão. E depois?
Cracóvia, Magdeburgo e o que acontece às leis quando atravessam fronteiras A uma jurista amiga, em sua primeira visita a Cracóvia, onde até as ruas têm memória jurídica. Strofa być winna taktem, nie wędzidłem. A estrofe deve ser ritmo, não rédea. — Juliusz Słowacki, Beniowski Por Glênio S Guedes (advogado) Quem chega pela primeira vez ao Rynek Główny — a grande Praça do Mercado de Cracóvia; rynek, em polonês, é a praça central de mercado — talvez não pense em direito. Não há
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3 de out.6 min de leitura
Nefertiti no Neues Museum: Anatomia de um Gesso Fraudulento
Das sutilezas pelas quais o dolo de um egiptólogo, a sonolência de um fiscal e a obstinação de um império converteram a rainha de Amarna em hóspede perpétua das margens do Spree Por Glênio S Guedes (advogado) I. Da Conveniência das Sombras e das Caixas de Madeira Quem porventura frequente os areópagos do Direito sabe perfeitamente que nada há mais elástico sob a abóbada celeste do que a boa-fé quando temperada pelo apetite das nações fortes. As leis, dizia-se outrora com um t
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30 de set.5 min de leitura
A Veneza que nunca precisou ser Veneza
Notas sobre Aveiro, seus moliceiros e o inconveniente das comparações “Se a figura repelia, a comparação acabrunhava.” — Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas Por Glênio S Guedes ( advogado) Há cidades que parecem condenadas a ser apresentadas por procuração. Budapeste é a Paris do Danúbio; Bruges, a Veneza do Norte; não faltam Suíças onde jamais se viu um suíço. Aveiro teve destino semelhante: deram-lhe Veneza. A intenção era elogiosa. Resta saber se o elogio não
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18 de set.6 min de leitura
A Chegada ao STF: quando a linguagem dos heptápodes revoga a gravidade dos fatos
Diante de contratos milionários e intimidades bancárias, o plenário sepulta a gramática universal dos homens e inaugura um dialeto circular no qual a palavra certa tem o condão de desmanchar o pecado cometido. Homenageio, com este artigo, os cientistas da linguagem — linguistas, analistas do discurso, semioticistas, semanticistas, filósofos da linguagem et alii —, os quais, decerto estarrecidos com as acrobacias semânticas emanadas do Supremo Tribunal Federal, guardam a cl
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17 de set.8 min de leitura
Como tornar a revolução desnecessária
Desigualdade, privilégios e a difícil construção de um jogo comum no Brasil A meus tios bolsonaristas, para que a revolução permaneça desnecessária, ao menos em família. Por Glênio S Guedes (advogado) Uma professora britânica desembarca no Brasil, olha em volta e se pergunta, diante de tamanha desigualdade: “por que não há uma revolução neste país?” A cena é narrada pelo economista Michael França em “Por que (não) há uma revolução no Brasil?”, coluna publicada na Folha de S.P
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5 de set.8 min de leitura
Quem ouve um livro o lê?
De Dom Casmurro aos audiolivros: o que perdemos — e o que talvez ganhemos — quando a literatura passa dos olhos aos ouvidos “O essencial é invisível aos olhos.” — Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe Por Glênio S Guedes (advogado) Quem ouviu Dom Casmurro conhece menos Dom Casmurro do que quem o percorreu visualmente? A resposta parece evidente até que se tente explicá-la. É hábito das evidências: comportam-se admiravelmente enquanto ninguém lhes pede documentos. Chama
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5 de set.4 min de leitura
A Constituição também discorda de nós
Ideologia, cognição e limites da interpretação constitucional “A Constituição jurídica logra conferir forma e modificação à realidade.” — Konrad Hesse, A força normativa da Constituição Por Glênio S Guedes (advogado) É relativamente fácil ser constitucionalista quando a Constituição concorda conosco. Ela confirma nossas convicções, protege aqueles que estimamos, limita adversários e, em dias particularmente felizes, ainda fornece um artigo para citar. O problema começa quando
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4 de set.6 min de leitura
Quando a vida real fica insustentável, o que faz a linguagem?
Carla Madeira, Humberto Maturana e o linguajar do luto “E a vida real ficou insustentável.” — Carla Madeira, em entrevista a Maria Fortuna, O Globo, 31 de agosto de 2026. Por Glênio S Guedes (advogado) Li a entrevista de Carla Madeira por uma razão e permaneci nela por outra. A escritora falava de seu novo romance, Quando, das mortes que antecederam a escrita, da literatura e do luto. Até aí, território reconhecível: escritores têm o mau hábito — ou o privilégio — de transfor
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31 de ago.6 min de leitura
Pode uma palavra evocar aquilo que não nomeia?
Da “parafantasia” de Rodrigues Lapa às redes de sentido da linguística contemporânea Por Glênio S Guedes (advogado) Conheci a Estilística da Língua Portuguesa, de M. Rodrigues Lapa, na década de 1980, quando cursava Letras. De muitas páginas lidas naquele tempo — algumas cumpriram, suponho, o destino honrado de servir a uma prova e retirar-se depois, discretamente, da memória — duas palavras recusaram-se a partir: fantasia e parafantasia. Fizeram sinapse — metaforicamente, nã
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30 de ago.6 min de leitura
Bíbulo: o homem que César eclipsou e a língua embriagou
Um cônsul derrotado, uma República em ruínas e a pequena vingança dos dicionários “César conquistou a Gália; Bíbulo conquistou uma palavra. A história, como se vê, distribui os prêmios com alguma liberdade.” Por Glênio S Guedes (advogado) Certos destinos parecem escritos por um historiador; outros, por um dramaturgo sem grande apreço pela justiça. Marco Calpúrnio Bíbulo pertence à segunda categoria. Nascido por volta de 102 a.C., no seio da aristocracia romana, percorreu com
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30 de ago.4 min de leitura
Saudade cabe no dicionário?
Dois verbetes e uma investigação sobre ausência, memória, tempo, tradução e identidade “É um mal de que se gosta e um bem que se padece.” — D. Francisco Manuel de Melo, Epanáfora Amorosa (grafia atualizada) Por Glênio S Guedes (advogado) Certas palavras entram no dicionário sem oferecer grande resistência. Mesa aceita com razoável docilidade ser móvel; triângulo parece conformado com seus três lados. Saudade, não. Mal se tenta encerrá-la num verbete, ela começa a fazer o que
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28 de ago.7 min de leitura
O alemão está na garrafa
Como ler um vinho em que Spätlese não quer dizer necessariamente doce e Trockenbeerenauslese não quer dizer seco “Há garrafas que pedem um saca-rolhas; as alemãs, por prudência, recomendam também um dicionário.” — Conselho ao viajante Por Glênio S Guedes (advogado) Uma garrafa alemã pode intimidar antes mesmo de ser aberta. O leitor reconhece Riesling e anima-se; encontra Spätlese e ainda persevera; chega a Trockenbeerenauslese e começa a suspeitar que, para beber vinho na Al
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28 de ago.9 min de leitura
O Lembit, esse teimoso
Ou de como um submarino deixou de lançar torpedos para começar a lançar perguntas “A História possui estranhos arquivos. Alguns têm periscópio.” — Máxima naval A um amigo almirante, homem do mar e do dever, que certamente compreenderá por que certos navios, depois de atracados, continuam navegando. Por Glênio S Guedes (advogado) Quantas Estônias cabem dentro de um submarino? A pergunta pareceria despropositada, não fosse a História especialista em alojar coisas grandes em esp
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27 de ago.4 min de leitura
Existe vacina contra a estupidez?
Por uma imunologia epistemológica contra certezas, boatos e doutores de si mesmos “Qual a justificativa para um profissional que estudou seis anos para entender o funcionamento do organismo humano defender ideias e teorias sem sentido, que prejudicarão a sociedade inteira?” — Drauzio Varella, “As vacinas e a estupidez humana”, Folha de S.Paulo, 26 ago. 2026. Por Glênio S Guedes (advogado) Drauzio Varella começa por uma distinção que parece óbvia até que se olhe ao redor: igno
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27 de ago.4 min de leitura
O filósofo chegou tarde?
Machado de Assis já havia desconfiado de quase tudo “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” — Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas Por Glênio S Guedes (advogado) Machado de Assis morreu em 1908, inconveniência cronológica que o impediu de ler os filósofos Karl Popper, Hans-Georg Gadamer, Michel Foucault e Paul Ricoeur, bem como o sociólogo Erving Goffman. Estes, por sua vez, tiveram a vantagem de chegar depois. Não se conclu
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26 de ago.6 min de leitura
A natureza ainda ama esconder-se?
Uma visita de Gaston Bachelard ao Museu do Amanhã φύσις κρύπτεσθαι φιλεῖ Phýsis krýptesthai phileî “A natureza ama esconder-se.”— Heráclito, fr. B123 Por Glênio S Guedes (advogado) Gaston Bachelard sobe as escadas do Museu do Amanhã e, antes mesmo de encontrar uma máquina, depara com um homem que o esperava havia mais de dois milênios. É Heráclito de Éfeso. Ou, para sermos menos fantasiosos, uma frase sua: “A Natureza ama o mistério.” Bachelard provavelmente pararia. Filósofo
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25 de ago.5 min de leitura
Por que Portugal fascina? Porque posso falar português e caminhar sobre Roma
De Olisipo, Ossonoba e Balsa aos nomes e povos que já estavam lá quando os romanos chegaram “Roma julgou que chegara ao princípio. A arqueologia, indiscreta, corrigiu-a.” Homenagem À cidade de Tavira e ao seu Museu Municipal, pela extraordinária exposição Balsa, Cidade Romana (2024–2025), que fez o que os melhores museus sabem fazer: não apenas guardar o passado, mas devolvê-lo aos vivos. Balsa esteve quase dois mil anos debaixo da terra; Tavira teve a elegância de apresentá-
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23 de ago.8 min de leitura
De que Galeno, afinal, estamos falando?
Ecdótica, traduções e a reconstrução de um médico depois de dezoito séculos “A hermenêutica pergunta o que o texto significa; a ecdótica pergunta, antes, qual é o texto.” Por Glênio S Guedes (advogado) Em El médico de Pérgamo, romance do médico e escritor colombiano Orlando Mejía Rivera, uma breve “Nota del editor” prepara uma artimanha literária de excelente compostura. Durante as comemorações, em 2010, dos quinhentos anos do nascimento do anatomista siciliano Giovanni Filip
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21 de ago.6 min de leitura
O Peru antes de Mendoza: onde começou o vinho na América do Sul?
Das primeiras videiras às uvas criollas: como o Peru se tornou o primeiro grande território vitivinícola sul-americano “A posteridade distribui as glórias com admirável segurança; às vezes esquece apenas de consultar as datas.” Ao Prof. Dr. Sergio Kahn, profissional de reconhecimento internacional, diante de quem — suspeito — até René Lefort e Pachacútec se curvariam. Cada qual, naturalmente, por suas próprias razões. Por Glênio S Guedes (advogado) Quando os espanhóis chegara
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21 de ago.5 min de leitura
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