Pensar dá trabalho, dói — polarizar dá like
- gleniosabbad
- há 7 dias
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“A convicção absoluta costuma ser inimiga da inteligência.”
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Há fenômenos que não se impõem pelo estrépito, mas pelo desgaste silencioso que produzem. A polarização é um deles. Não se trata apenas de uma intensificação dos desacordos, o que seria natural em sociedades plurais, mas de uma alteração mais profunda no modo de pensar, julgar e argumentar. Nunca foi tão abundante a opinião; nunca foi tão escasso o pensamento.
Cumpre, antes de tudo, distinguir. Divergência é categoria própria do exercício intelectual. Supõe confronto de razões, exame de fundamentos, disposição para rever posições. A polarização, ao contrário, não opera no plano do argumento, mas no da identificação. Não pergunta o que se diz, mas quem diz. Não avalia o conteúdo, mas o alinhamento. É, portanto, um mecanismo de simplificação cognitiva.
Nesse contexto, a crítica sofre uma mutação funcional. Aquilo que sempre constituiu o núcleo da atividade intelectual — o questionamento — passa a ser interpretado como hostilidade. A crítica deixa de ser entendida como instrumento de esclarecimento e converte-se em indício de traição simbólica. A consequência é previsível: o empobrecimento do debate público, com a progressiva eliminação das nuances, das reservas e das distinções finas.
Esse processo encontra apoio em um traço bem conhecido da psicologia humana: o viés de confirmação. Busca-se menos compreender o real do que preservá-lo intacto diante das próprias convicções. Lê-se para confirmar, não para aprender. Escuta-se para responder, não para entender. O pensamento deixa de ser atividade investigativa e passa a funcionar como aparato de defesa.
Forma-se, assim, um paradoxo revelador: quanto mais intensa a certeza, menor a exigência de argumentação. A dúvida, que sempre foi condição do pensamento rigoroso, passa a ser confundida com indecisão moral. O espírito crítico, por sua vez, é substituído por uma segurança verbal que dispensa exame e rejeita complexidade.
As tecnologias contemporâneas de comunicação não criaram esse estado de coisas, mas o ampliaram de modo decisivo. Ao converterem a atenção em valor mensurável, favoreceram o excesso em detrimento da ponderação. O discurso mais equilibrado é também o menos visível. A lógica do algoritmo recompensa a reação imediata, não a reflexão demorada. A polarização, nesse sentido, deixa de ser apenas uma disposição mental e passa a integrar a própria arquitetura do debate público.
O resultado é a substituição do diálogo pelo monólogo coletivo. Cada grupo fala sobretudo para si mesmo, reforçando convicções e neutralizando qualquer forma de dissenso interno. O outro não é mais interlocutor, mas obstáculo. Não se busca compreender posições divergentes, mas reduzi-las a caricaturas manejáveis. O espaço público perde, assim, sua função deliberativa.
Quando isso ocorre, compromete-se um elemento essencial da vida intelectual: a liberdade de crítica. Sem crítica, não há correção de rumos; sem dissenso qualificado, não há pensamento vivo. O consenso obtido por pressão moral ou patrulhamento simbólico não representa maturidade cultural, mas acomodação intelectual.
A polarização, portanto, não intensifica a inteligência; antes, a suspende. Oferece segurança identitária em troca da abdicação do juízo próprio. Promete clareza, mas entrega simplificação; promete engajamento, mas produz cegueira. É funcional, eficiente e sedutora — precisamente por isso, empobrecedora.
Pensar continuará dando trabalho. Exige atenção às palavras, respeito às distinções e disposição para a autocrítica. É um exercício silencioso, pouco recompensado e raramente celebrado. Mas é esse esforço — discreto e exigente — que sustenta qualquer vida intelectual digna desse nome. Likes passam. A renúncia ao pensamento permanece.


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