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Criptobiose Moral: Como Viver Sem Pensar

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    gleniosabbad
  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Microscópicos no argumento, gigantes na teimosia.


Artigo homenageando o óbvio : a Ciência!


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Comecemos pelo fim — método honesto quando o assunto é sobrevivência. Quando os fatos se despedem discretamente, quando a realidade fecha a porta sem bater, certas criaturas permanecem. Não por inteligência superior, mas por uma virtude mais simples e mais sólida: a resistência obstinada ao aprendizado.

Os naturalistas contemporâneos descrevem com legítimo assombro um animal microscópico, de oito patas e nenhuma ambição metafísica: o tardígrado. Ele suporta frio impronunciável, calor indecoroso, décadas sem água, radiação, pressão extrema e até o vácuo do espaço. Quando o ambiente se torna hostil, não protesta nem escreve manifestos. Retrai-se, desidrata, suspende a vida e espera. Um gesto elegante, quase civilizado.

Mas há, na paisagem humana, um espécime ainda mais resistente: o espécime dogmático. Este não mede milímetros, mas ocupa o debate inteiro. Não se recolhe diante da adversidade; expande-se. Onde a realidade aperta, ele alarga. Onde a complexidade surge, ele simplifica. Onde a dúvida aparece, ele a extermina com convicções prontas.

Vejamos alguns exemplares observáveis a olho nu.

O terraplanista é um clássico organismo de convicção rígida. Sobrevive ileso a imagens de satélite, fotografias da Estação Espacial e viagens aéreas intercontinentais. Para ele, a curvatura da Terra é apenas uma opinião geométrica. Seu metabolismo argumentativo é lento, mas constante: repete-se até que o interlocutor desista.

O antivacina, por sua vez, é um portador crônico de certeza. Imune a gráficos, estatísticas e consensos médicos, acredita que a ignorância seja uma forma alternativa de profilaxia. Curiosamente, rejeita a ciência em bloco, exceto quando precisa de antibióticos, tomografia ou conexão Wi-Fi.

Há também o negacionista climático, membro respeitável da fauna da opinião fossilizada. Confunde clima com sensação térmica pessoal. Se faz frio hoje, o planeta está ótimo; se faz calor, sempre fez. Séculos de medições científicas perdem para a memória da infância.

Esses seres compartilham um traço essencial: sobrevivem ao contato com os fatos. Dados ricocheteiam. Evidências confirmam apenas o que já estava decidido. Estatísticas discordantes são prontamente classificadas como “ideológicas”, como se os números tivessem filiação partidária.

O tardígrado, ameaçado, entra em criptobiose. O organismo de convicção rígida, confrontado, entra em certeza absoluta. Ambos suspendem algo vital: um, o metabolismo; o outro, o pensamento. A diferença é que o primeiro o faz em silêncio; o segundo, com entusiasmo missionário.

Dizem os cientistas que uma guerra nuclear poderia mergulhar o planeta em um inverno prolongado. Oceanos congelariam, cadeias alimentares ruiriam, a vida complexa sofreria. O tardígrado aguardaria, recolhido. Já o indivíduo de baixa plasticidade cognitiva atravessaria o inverno denunciando conspirações solares, culpando inimigos invisíveis pelo frio e garantindo, com notável segurança, que tudo isso sempre foi exagero.

Não se trata de ignorância ocasional, dessas que se resolvem com leitura e alguma humildade. Trata-se de uma ignorância ativa, aplicada com método. O vertebrado da tese imutável não desconhece os fatos por acidente; evita-os por princípio. Prefere slogans à análise, repetição ao exame, ruído ao silêncio necessário para pensar.

Enquanto o tardígrado levou milhões de anos para aprender a adaptar-se ao ambiente, o ser de metabolismo argumentativo lento descobriu algo ainda mais engenhoso: adaptar o ambiente às próprias crenças. Onde a realidade resiste, ele a nega; onde insiste, ele a acusa. Assim, o mundo passa a ter exatamente o tamanho de sua convicção.

Há quem confunda essa persistência com coragem. Engano compreensível. Coragem envolve risco; o dogmatismo evita-o. Nada é mais seguro do que uma ideia imune à prova. Nada é mais confortável do que uma convicção que dispensa exame. Vive-se, assim, numa espécie de animação retórica permanente: fala-se muito para não pensar.

Os astrônomos lembram que, dentro de bilhões de anos, o Sol se expandirá e tornará a Terra inabitável. Será o fim até dos tardígrados. É um consolo cósmico. Resta saber se, nesse instante derradeiro, não haverá ainda algum organismo de convicção rígida flutuando no vazio, convicto de que o colapso estelar foi exagerado, ideológico ou culpa de alguém.

A ciência ensina que a Terra não precisa dos humanos para continuar existindo. Mas nós, ao que tudo indica, precisamos reaprender algo elementar: pensar dói menos do que negar. Até lá, os tardígrados seguem discretos, eficientes e silenciosos. Já os praticantes da criptobiose moral continuam entre nós — vivos, falantes e absolutamente certos.

 
 
 

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