Quem ainda acredita que o eleitor decide racionalmente?
- gleniosabbad
- 18 de jan.
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“Durante muito tempo, a democracia foi o conflito racionalizado de interesses. Hoje, ela é o confronto desenfreado das paixões.”— Pierre Rosanvallon
Por Glênio S Guedes ( advogado )
1. A persistência de uma crença confortável
Há algo de intelectualmente confortável — quase reconfortante — na maneira como ainda se explica o voto democrático. Apesar da recorrência de vitórias eleitorais de líderes abertamente populistas, retoricamente agressivos e institucionalmente corrosivos, insiste-se em interpretar o comportamento do eleitor como se ele fosse, em essência, um agente racional, orientado por interesses objetivos, avaliações programáticas e cálculos prospectivos.
Essa crença, contudo, já não descreve a realidade. Ela sobrevive como mito normativo: o mito do eleitor esclarecido, herdeiro tardio do Iluminismo político, que pondera argumentos e decide após comparar alternativas. A pergunta relevante, portanto, não é por que o eleitor “erra”, mas por que ainda insistimos em explicá-lo a partir de uma racionalidade que deixou de estruturar o funcionamento efetivo da democracia.
2. Quando votar deixa de ser decidir
Durante boa parte do século XX, sobretudo no contexto das democracias sociais e do Estado de bem-estar, o voto era relativamente previsível. Ele expressava posições sociais estruturais: classe, renda, ocupação, pertencimento sindical, localização territorial. Votar era, em larga medida, uma extensão da posição ocupada na sociedade.
Esse mundo político se desfez. As grandes clivagens que organizavam o conflito — capital e trabalho, redistribuição e mercado — perderam centralidade explicativa. Em seu lugar, emergiu um eleitorado fragmentado, desancorado e simbolicamente inseguro, para o qual o voto já não opera como instrumento de escolha racional, mas como gesto expressivo.
Hoje, vota-se menos para decidir um rumo coletivo e mais para afirmar uma identidade, punir um sistema percebido como hostil ou externalizar frustrações acumuladas. O voto deixa de ser meio; torna-se mensagem.
3. O diagnóstico explícito de Rosanvallon
Esse deslocamento foi formulado de modo particularmente claro por Pierre Rosanvallon em entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo, publicada em 17 de janeiro de 2026, na qual o historiador francês analisa as transformações recentes das democracias contemporâneas. Ali, Rosanvallon afirma sem rodeios que a democracia deixou de operar primordialmente como conflito racionalizado de interesses e passou a funcionar como confronto desenfreado de paixões, sobretudo paixões negativas.
A força dessa afirmação está menos em seu tom crítico do que em suas consequências teóricas. Se a democracia, hoje, se estrutura pela lógica das paixões — e não mais pela mediação racional de interesses —, o que resta do voto racional enquanto fundamento normativo da legitimidade democrática? O voto, nesse novo regime, já não é o ponto de chegada de um processo deliberativo, mas o ápice de uma dinâmica afetiva prévia, construída por identidades, rejeições e sentimentos de pertencimento ou exclusão.
Nesse contexto, a insistência em explicar o comportamento eleitoral como cálculo racional deixa de ser apenas um equívoco analítico: ela se torna uma negação do próprio diagnóstico da época.
4. A falha silenciosa da democracia da razão
O sucesso eleitoral de democratas passionais e populistas irracionais não se explica satisfatoriamente por ignorância, manipulação ou desinformação. Essas explicações, além de redutoras, ocultam um problema mais profundo: a democracia da razão fracassou em produzir reconhecimento.
Como o próprio Rosanvallon sugere na entrevista, as instituições democráticas se concentraram excessivamente no momento eleitoral e negligenciaram as chamadas funcionalidades democráticas permanentes — vigilância, escuta, representação viva das experiências sociais. A política passou a falar sobre os cidadãos, não com eles. A racionalidade democrática, mediada por especialistas, dados e procedimentos, tornou-se experiência distante, frequentemente percebida como fria e indiferente.
Nesse vazio simbólico, a paixão entrou como substituta da razão. Não porque seja superior, mas porque é mais imediata, mais comunicável e mais próxima da experiência cotidiana.
5. Paixões negativas como cimento político
Outro ponto enfatizado por Rosanvallon é o papel central das paixões negativas na política atual. Projetos políticos positivos exigem tempo, paciência, complexidade e disposição para frustrações graduais. Já o ressentimento, a rejeição e o ódio oferecem algo politicamente mais eficaz: coesão instantânea.
Não é necessário concordar sobre o futuro; basta concordar sobre quem deve ser rejeitado. O populismo contemporâneo compreendeu isso com precisão. Ele não se organiza em torno da resolução de problemas, mas da nomeação permanente de inimigos — culturais, morais, simbólicos. A política deixa de ser arte da mediação e se converte em gestão da excitação coletiva, exatamente como descrito na entrevista à Folha.
6. O voto como punição e catarse
Há ainda um aspecto frequentemente negligenciado: muitos votos populistas são votos punitivos, ainda que autodestrutivos. Eles não expressam adesão plena, mas retaliação simbólica. O eleitor sabe que o líder é tosco, que o discurso é raso, que o risco é alto — e, ainda assim, vota.
Esse voto diz menos “acredito em você” e mais “rejeito tudo o que está aí”. É um voto que não constrói, mas desorganiza; não propõe, mas castiga. Sua racionalidade não é instrumental, mas afetiva — um ponto que reforça, mais uma vez, o diagnóstico de Rosanvallon sobre a centralidade das paixões no funcionamento atual da democracia.
7. A política como experiência afetiva contínua
Na era das redes e da comunicação permanente, a política deixou de ser episódica. Ela se tornou experiência afetiva contínua, presente no cotidiano, nos dispositivos móveis e nos ciclos incessantes de indignação. O populismo se adapta perfeitamente a esse ambiente porque governa menos por políticas públicas e mais por performances discursivas.
O eleitor já não é apenas cidadão: é público, audiência, seguidor. E a audiência não exige coerência nem resultados; exige intensidade. A racionalidade, com seu tempo longo e suas mediações, perde espaço para a excitação imediata — exatamente o cenário descrito na entrevista publicada pela Folha de S.Paulo.
8. Conclusão: o que restará do voto racional?
Se a democracia contemporânea opera, como diagnosticado por Rosanvallon na entrevista de janeiro de 2026, sob o regime das paixões, então o voto racional deixa de ser o eixo explicativo e normativo da política democrática. Ele não desaparece, mas se torna residual, episódico, insuficiente para compreender o comportamento eleitoral.
A pergunta decisiva, portanto, não é mais por que o eleitor vota “irracionalmente”, mas como reconstruir uma democracia capaz de rearticular razão e paixão sem sucumbir nem ao populismo afetivo nem à tecnocracia indiferente que o precedeu.
Enquanto essa tarefa permanecer em aberto, talvez seja ilusório continuar acreditando que o eleitor decide racionalmente — quando, na prática, ele sente, reage e se reconhece antes de decidir.


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