Platão vetado no Texas: neandertalizamos de vez — ou, pior, infraneandertalizamos?
- gleniosabbad
- 9 de jan.
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Por Glênio S Guedes ( advogado )
Há acontecimentos que funcionam como sismógrafos culturais. Eles não criam terremotos; apenas registram, com atraso mínimo, abalos profundos que já vinham se formando no subsolo da vida intelectual. A orientação administrativa para que um professor universitário retirasse textos de Platão de uma disciplina na Texas A&M University é um desses sinais. Não se trata de um conflito pontual sobre currículo nem de uma querela burocrática. Trata-se de um sintoma civilizacional. E a pergunta incômoda impõe-se desde o início: estamos neandertalizando o ensino superior — ou, à luz do que hoje sabemos sobre os neandertais, infraneandertalizando?
À primeira vista, o episódio poderia ser lido como mais um capítulo da guerra cultural contemporânea. Novas diretrizes curriculares, aprovadas sob forte pressão política, restringem o tratamento acadêmico de temas ligados a raça e gênero. O efeito colateral, no entanto, foi revelador: a exclusão de passagens platônicas — como a Escada do Amor de Diotima ou o mito narrado por Aristófanes no Banquete — por sua suposta proximidade temática com debates hoje politizados. O paradoxo é flagrante. Platão não é um panfleto contemporâneo. Ele é um dos pilares do pensamento ocidental. Vetá-lo por receio de interpretação crítica equivale a ensinar matemática proibindo o zero.
Do ponto de vista da filosofia antiga, isso é mais do que um erro pedagógico: é uma contradição performativa. A filosofia nasce como exercício de problematização, como confronto racional entre perspectivas divergentes. Não há pensamento filosófico sem desconforto intelectual. Transformar a sala de aula em um espaço asséptico, imune a tensões conceituais, não é neutralidade; é empobrecimento deliberado. Onde não há dissenso argumentado, não há formação — há apenas adestramento cognitivo.
Esse empobrecimento torna-se ainda mais visível quando confrontado com aquilo que a ciência contemporânea vem revelando sobre os neandertais. Durante muito tempo, eles funcionaram como nosso espelho negativo: a alteridade bruta, incapaz de abstração simbólica, destinada a desaparecer diante da suposta superioridade do Homo sapiens. Esse retrato, hoje sabemos, era menos científico do que ideológico. As descobertas arqueológicas das últimas décadas desmontaram esse mito com uma contundência desconcertante.
Os neandertais demonstravam capacidade de pensamento simbólico complexo. Produziam entalhes geométricos deliberados, manipulavam pigmentos com intenção estética, organizavam espaços segundo finalidades distintas e realizavam construções coletivas sem função utilitária imediata. Em cavernas como Bruniquel, estruturas de estalagmites foram cuidadosamente selecionadas, transportadas e organizadas em anéis, exigindo planejamento, coordenação social e atribuição de sentido. Em sítios como Des-Cubierta, o tratamento diferenciado de crânios de grandes animais indica práticas ritualizadas ou, no mínimo, uma relação simbólica com o mundo natural. Em suma: não se limitavam a sobreviver; significavam.
Mais ainda: os dados genéticos e anatômicos indicam que os neandertais possuíam cérebros de volume comparável ao nosso, com diferenças estruturais sutis, não hierarquicamente inferiores. Tudo aponta para uma espécie capaz de lidar com ambiguidade, simbolismo e complexidade, ainda que por caminhos distintos dos nossos. Diante disso, a ironia se impõe com força quase cruel: enquanto sociedades paleolíticas eram capazes de sustentar experiências simbólicas densas, sociedades contemporâneas optam por suprimir textos filosóficos por medo do debate.
Esse quadro não pode ser compreendido apenas como resultado de disputas ideológicas locais. Ele se insere em um contexto mais amplo, já diagnosticado por pesquisas empíricas recentes: a erosão progressiva das capacidades cognitivas básicas nas sociedades modernas. Estudos realizados em diversos países indicam que, após décadas de crescimento, o quociente médio de inteligência começou a declinar a partir do fim do século XX — fenômeno conhecido como efeito Flynn reverso. Trata-se menos de uma involução biológica do que de um empobrecimento funcional da inteligência, marcado pela redução da atenção sustentada, da leitura profunda, do vocabulário abstrato e da tolerância ao raciocínio complexo.
Em ambientes saturados por informação fragmentada, consumo acelerado de conteúdos e polarização afetiva, ideias que exigem tempo, silêncio e ambiguidade passam a ser percebidas como ameaças. Platão não é vetado por ser antigo, mas por ser exigente. Ele pressupõe leitores capazes de sustentar paradoxos, distinguir níveis de argumentação e conviver com perguntas sem resposta imediata. Quando essas capacidades se deterioram, o pensamento complexo deixa de ser desafio formativo e passa a ser risco institucional.
É nesse ponto que o episódio do Texas revela sua filiação histórica. O que ali ocorre não pode ser dissociado do legado cultural da era Donald Trump. Trata-se de um período marcado pela hostilidade sistemática à complexidade intelectual, pela desconfiança em relação às universidades, pela transformação do debate público em espetáculo de slogans e pela legitimação política da simplificação cognitiva. Não se trata apenas de conservadorismo, mas de uma adaptação deliberada da política aos limites cognitivos médios do público, que, ao invés de serem superados, passam a ser reforçados.
Nesse contexto, a universidade deixa de funcionar como instância crítica e passa a operar como espelho rebaixado da sociedade. Ao vetar Platão para evitar conflitos interpretativos, abdica de sua missão fundamental: formar sujeitos capazes de pensar contra si mesmos. O silêncio imposto em nome da neutralidade não produz consenso; produz fragilidade intelectual. E uma democracia intelectualmente frágil é sempre presa fácil da demagogia.
À luz das descobertas recentes sobre os neandertais, o contraste torna-se constrangedor. Eles lidavam com símbolos, rituais e significados não utilitários. Nós, munidos de toda a infraestrutura tecnológica da modernidade, passamos a eliminar o pensamento complexo por incapacidade de sustentá-lo. Falar em “neandertalização” já não basta — é injusto com os próprios neandertais. O que assistimos hoje é algo pior: uma infraneandertalização intelectual, na qual o problema não é a ausência de ferramentas, mas a recusa do logos.
Platão, que desconfiava da demagogia e temia sociedades incapazes de distinguir opinião de razão, provavelmente reconheceria o sintoma. O que talvez o surpreendesse — e o entristecesse — é constatar que, milênios depois, fôssemos menos capazes de pensar do que aqueles a quem, por tanto tempo, chamamos injustamente de primitivos.


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