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A Busca da Reta Razão: Breve Ensaio sobre a Certeza

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 12 de jan.
  • 3 min de leitura

O erro, meus caros, pode ser um mestre severo, mas é, não raro, o mais precioso dos pedagogos.


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Vivemos tempos de algazarra informativa. Nunca o homem teve à sua disposição tamanho cabedal de dados e, paradoxalmente, nunca se viu tão desnorteado quanto à veracidade dos fatos. Todos almejam ter razão — do latim ratio, que nos remete à medida, ao cálculo, à faculdade de julgar com acerto. Mas como distinguir a verdade lídima do mero engodo ou da teimosia estéril?

Não há, infelizmente, uma pedra filosofal que tudo resolva num ápice. Há, contudo, método. Se quisermos sanear o nosso juízo, convém submetê-lo a quatro crivos fundamentais, que aqui expomos com a simplicidade possível.


I. A Adequação do Instrumento


O primeiro erro do pensamento é o da inadequação. Tal como não se apara uma aresta de mármore com uma tesoura de costura, não se afere a verdade de todas as coisas com a mesma régua. É mister saber em que terreno pisamos:


  1. No domínio da Ciência: Aqui, impera a demonstração. Se afirmamos que a água entra em ebulição a cem graus, pouco importa a opinião da maioria. É o reino do fato, que exige prova cabal e irrefutável.

  2. No convívio Social: Por vezes, ter razão é apenas uma questão de concordância. Se seguimos a etiqueta num jantar ou as normas de cortesia, fazemo-lo não por lógica matemática, mas pelo bom-tom e pela harmonia gregária. Querer aplicar o rigor científico às sutilezas do trato humano é caminho certo para a inadaptação.

  3. Na vida Prática: Aqui, o critério é a eficácia. Se um remédio caseiro, ensinado por nossas avós, cura o mal-estar, ele encerra em si uma verdade prática, ainda que a ciência não lhe tenha esmiuçado o mecanismo. Se funciona e produz bons frutos, tem a sua razão de ser.

  4. Na Política e na Moral: Eis o terreno da deliberação. Não há verdade absoluta sobre questões de valor. Sabemos que o nosso juízo é seguro quando ele resiste ao debate, quando somos capazes de ouvir a objeção mais ferina e, com serenidade, apresentar o contra-argumento. Quem foge à discussão, meus amigos, confessa implicitamente a fragilidade da sua tese.


II. O Discernimento Gregário


Diz-se muito que é preciso "pensar pela própria cabeça". É um conselho sábio, mas que requer matizes. O homem é um animal social e, em momentos de perigo ou incerteza, imitar o semelhante é um ato de inteligência, não de estupidez. Se virmos uma multidão fugir em desabalada carreira, o bom senso manda que a acompanhemos antes de inquirir a causa.

Todavia, há que distinguir o consenso sábio do "efeito de rebanho". A multidão só é sábia quando as opiniões individuais são independentes. Se o amigo apenas repete o que ouviu do vizinho, sem reflexão própria, cria-se uma cadeia de equívocos. Desconfiem, pois, das unanimidades fáceis onde não se vislumbra a reflexão pessoal.


III. A Honestidade Intelectual


Este é, porventura, o teste mais árduo, pois obriga-nos a lutar contra o nosso próprio orgulho. Quantas vezes não defendemos uma ideia apenas porque ela nos convém, ou porque nos custa admitir o erro?

O autoengano é uma armadilha sutil. Para saber se temos razão, devemos perguntar-nos: "Teria eu a nobreza de espírito para admitir que estou errado?". O erro não deve ser visto como um estigma, mas como um tesouro pedagógico. Mudar de opinião diante da evidência não é fraqueza; é prova de robustez moral e de sanidade intelectual.


IV. A Fecundidade da Verdade


Por fim, olhemos para os frutos. A verdade é, por natureza, criadora. As falsas razões, como as teorias da conspiração que veem tramas ocultas em cada esquina, conduzem à paralisia e ao medo. Quem acredita que "tudo está dominado" nada faz, nada constrói.

A reta razão, ao contrário, impulsiona à ação. Ela esclarece para construir, ela compreende para reparar. Se a sua "verdade" lhe torna amargo e inerte, é tempo de a reexaminar. A verdade liberta e, sobretudo, a verdade opera.

Que saibamos, pois, cultivar a humildade de quem busca, o rigor de quem verifica e a coragem de quem constrói.


 
 
 

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