Protoindo-europeu: o português é língua-parente do farsi — você sabia?
- gleniosabbad
- 18 de dez. de 2025
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Por Glênio S Guedes ( advogado )
À primeira vista, a ideia soa quase como uma brincadeira erudita. O português, língua neolatina falada no Atlântico Sul, e o farsi (ou persa), idioma do planalto iraniano, separados por continentes, religiões, histórias e alfabetos, seriam parentes? A resposta, surpreendente para muitos, é sim. E a explicação não está em contatos recentes, nem em empréstimos culturais diretos, mas em uma história muito mais profunda, que começa há cerca de seis mil anos, nas estepes da Eurásia.
Essa história tem nome: protoindo-europeu.
1. O que é o protoindo-europeu?
O protoindo-europeu (PIE) não é uma língua registrada em inscrições, manuscritos ou monumentos. Trata-se de uma língua reconstruída, isto é, inferida cientificamente por linguistas a partir da comparação sistemática entre diversas línguas antigas e modernas.
Desde o final do século XVIII, estudiosos perceberam que idiomas tão distintos quanto o latim, o grego antigo, o sânscrito, as línguas germânicas, célticas e eslavas compartilhavam semelhanças regulares de vocabulário, morfologia e sintaxe. Não se tratava de coincidências isoladas, mas de padrões estáveis, governados por leis fonéticas rigorosas. O célebre exemplo é a lei de Grimm, que explica por que o p do latim (pater, pes) corresponde ao f do inglês (father, foot).
Essas regularidades permitiram aos linguistas reconstruir um sistema linguístico ancestral comum: o protoindo-europeu.
2. Onde e quando essa língua foi falada?
O recém-lançado livro Proto: How One Ancient Language Went Global, de Laura Spinney, sintetiza o estado atual do debate interdisciplinar. Hoje, o consenso mais robusto aponta para as estepes pôntico-cáspias, entre o atual sul da Ucrânia e o sul da Rússia, como o principal berço do PIE, por volta de 4500–3000 a.C.
Essa hipótese — conhecida como hipótese das estepes — não se sustenta apenas na linguística, mas também em:
arqueologia, que identifica a cultura Yamnaya, caracterizada por mobilidade pastoril, uso de carroças e cavalos;
genética, que mostra uma expansão demográfica significativa associada a populações dessas estepes;
vocabulário reconstruído, que inclui termos para cavalo, roda, carroça, gado e metais, incompatíveis com sociedades agrícolas neolíticas mais antigas.
O PIE, portanto, não foi a língua de uma civilização urbana ou estatal, mas de redes nômades altamente móveis, capazes de manter alianças sociais e circulação genética em escalas continentais.
3. Do PIE ao português… e ao farsi
É aqui que a provocação do título ganha sentido.
Do protoindo-europeu derivaram vários grandes ramos linguísticos. Entre eles:
o itálico, do qual procede o latim e, mais tarde, o português;
o indo-iraniano, do qual procede o persa antigo, ancestral do farsi moderno.
Isso significa que, em algum ponto profundo da pré-história, os ancestrais linguísticos de pai (português) e pedar (farsi), de mãe e mâdar, de novo e now, pertenciam ao mesmo sistema linguístico ancestral. Ao longo dos milênios, esse sistema se fragmentou em dialetos, depois em línguas, depois em tradições literárias e culturais radicalmente distintas.
O parentesco não é imediato nem evidente ao ouvido moderno, mas é estrutural e histórico, tal como o parentesco entre primos muito distantes.
4. Uma língua única? Um povo único?
Importa afastar dois equívocos comuns.
Primeiro: o protoindo-europeu não foi uma língua homogênea e estática. Ele já existia como um continuum dialetal, falado por grupos aparentados, em constante movimento e contato. O que reconstruímos hoje é uma espécie de “média científica” dessas variedades.
Segundo: não houve “um povo indo-europeu” no sentido simples do termo. A genética mostra populações em rede, com misturas, migrações e expansões desiguais. Língua, cultura e genes caminharam juntos, mas nunca de forma perfeitamente alinhada.
5. Por que isso importa?
Saber que o português é, em última instância, parente do farsi não é apenas uma curiosidade filológica. Isso nos obriga a repensar:
as fronteiras culturais que tomamos como naturais;
a profundidade temporal das conexões humanas;
a própria ideia de identidade linguística.
O protoindo-europeu mostra que as línguas são fósseis vivos da história humana. Elas carregam, em suas estruturas, memórias de migrações, contatos, conflitos, alianças e adaptações ocorridas muito antes da escrita, do Estado ou da religião organizada.
6. Conclusão
Quando dizemos que o português e o farsi são línguas-parentes, não estamos sugerindo proximidade cultural imediata, mas lembrando que, em algum momento remoto, seus ancestrais linguísticos foram variações de um mesmo sistema simbólico humano. O protoindo-europeu não é apenas uma abstração acadêmica: é a prova de que, muito antes de sermos europeus, asiáticos ou latino-americanos, já compartilhávamos histórias, palavras e estruturas de pensamento.
Talvez seja essa a lição mais provocadora do PIE: as línguas que hoje nos separam são, ao mesmo tempo, testemunhas de uma origem comum.


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