UM REFERENTE, DUAS DESCRIÇÕES: JESUS HISTÓRICO E CRISTO DA FÉ
- gleniosabbad
- 3 de abr.
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Pondé e Valdinei sob o crivo — simultaneamente analítico e hermeneuticamente leal — da filosofia da linguagem e da epistemologia da religião
“Non ex verbis sed ex rebus est iudicandum.”(Não pelas palavras, mas pelas coisas se deve julgar.)
Por Glênio S Guedes (advogado)
Há debates que nascem de divergências reais; outros, mais discretamente, de um uso impreciso das palavras — e, com elas, dos próprios critérios de verdade. O par de artigos recentemente publicado na imprensa brasileira realiza ambos os movimentos: toca um nervo sensível da modernidade — o atrito entre história e fé — e, ao mesmo tempo, desliza em formulações cujo alcance semântico não sustenta o peso ontológico que lhes é atribuído.
Convém, antes de qualquer juízo, restituir com sobriedade o que cada articulista efetivamente sustenta.
Em termos sintéticos, um deles afirma que o “Jesus histórico” — pregador apocalíptico, líder carismático e personagem inserido no judaísmo do século I — não se confunde com o “Cristo da fé”, figura teológica cuja densidade ontológica resulta de mediações históricas, doutrinárias e eclesiais. O outro, por sua vez, reage a essa clivagem sustentando que a ressurreição não pode ser descartada como construção tardia, defendendo sua plausibilidade histórica com base em argumentos exegéticos e sociológicos que pretendem afastar a hipótese de fraude.
A divergência é, portanto, real. Mas a sua formulação, não raro, é defeituosa.
I. O problema metodológico: um referente, duas descrições
O título que nos orienta — um referente, duas descrições — enuncia a tese metodológica fundamental: um mesmo indivíduo pode ser legitimamente descrito por vocabulários distintos, regulados por critérios de justificação heterogêneos.
Dito de outro modo: há uma diferença crucial entre aquilo de que se fala (o referente) e os modos pelos quais dele se fala (as descrições). O primeiro remete ao indivíduo histórico — Jesus de Nazaré; as segundas consistem nos conjuntos de propriedades que lhe são atribuídas, segundo práticas discursivas diversas.
A confusão emerge quando uma diferença de descrição é indevidamente convertida em diferença de identidade pessoal — isto é, quando uma distinção semântica é promovida, sem justificativa adicional, ao plano ontológico.
É precisamente aqui que o debate, tal como frequentemente formulado, começa a vacilar.
II. Pondé: a clivagem como diagnóstico
A tese segundo a qual o “Jesus histórico” e o “Cristo da fé” não seriam a mesma pessoa apresenta, sem dúvida, a virtude da concisão e da força retórica. Trata-se de formulação típica do bom ensaísmo: incisiva, elegante, com a aparência de diagnóstico final.
Todavia, sob exame mais detido, percebe-se que o argumento parece tomar como divergência ontológica aquilo que, à luz da filosofia da linguagem, pode ser compreendido como divergência de regimes descritivos.
Com efeito, nada impede — antes, é frequente — que um mesmo indivíduo seja descrito, sob critérios históricos, como pregador apocalíptico e, sob critérios teológicos, como encarnação do Verbo. A passagem de uma descrição à outra não implica, por si só, a multiplicação do referente.
Confundir tais planos equivale a exigir da teologia o tipo de verificação próprio da historiografia, ou, inversamente, a imputar à história pretensões que pertencem à fé. Em ambos os casos, incorre-se em erro de categoria.
III. Valdinei: a plausibilidade como resposta
A reação apologética, por sua vez, desloca o debate para o campo da plausibilidade histórica da ressurreição. Para tanto, mobiliza argumentos cumulativos — o chamado critério do embaraço, a contraculturalidade das narrativas e a persistência do movimento cristão — que visam reduzir a probabilidade de uma construção fraudulenta.
Trata-se de estratégia intelectualmente respeitável. Contudo, importa reconhecer o seu estatuto epistemológico: tais argumentos operam no nível da inferência à melhor explicação. Não demonstram, em sentido forte, a ocorrência do evento; limitam-se a reorganizar o espaço do plausível.
Ora, entre o improvável e o impossível há distância considerável; e entre o plausível e o demonstrado, maior ainda.
Assim, a refutação não logra eliminar as hipóteses alternativas, mas apenas as torna menos atraentes. O salto da plausibilidade à certeza permanece, em larga medida, um ato de confiança — isto é, de fé.
IV. Epistemologia da religião: gramáticas distintas de verdade
A dificuldade central do debate reside, em última análise, na ausência de ajuste epistêmico — isto é, na recusa em reconhecer que diferentes domínios do saber operam com critérios distintos de justificação.
A história trabalha com evidências documentais, reconstruções probabilísticas e inferências controladas. A teologia, por sua vez, articula um sistema de crenças cuja coerência interna, inteligibilidade e fecundidade simbólica constituem critérios próprios de racionalidade.
Não se trata de relativismo, mas de adequação metodológica.
Exigir da fé a prova empírica que se exige de um evento físico é tão impróprio quanto exigir da matemática a confirmação arqueológica de seus teoremas. Cada discurso responde a uma gramática de verdade que lhe é própria.
V. Filosofia da linguagem: o equívoco decisivo
À luz da filosofia da linguagem, a oposição entre “Jesus histórico” e “Cristo da fé” dissolve-se, em grande medida, quando se distingue com rigor entre:
o referente: o indivíduo histórico Jesus de Nazaré;
as descrições: os predicados atribuídos a esse indivíduo sob diferentes práticas discursivas.
A linguagem religiosa não se limita a descrever fatos; ela confere sentido, organiza a experiência e institui horizontes de compreensão. Já a linguagem histórica busca reconstruir eventos sob critérios de verificabilidade e controle intersubjetivo.
Quando se toma a diferença entre tais linguagens como diferença entre realidades, incorre-se no equívoco fundamental: transformar pluralidade semântica em duplicidade ontológica.
VI. Onde está a veritas?
O impasse entre o Jesus da história e o Cristo da fé não se resolve pela eliminação de um dos polos, mas pelo reconhecimento de que operam sob gramáticas distintas de verdade.
A história exige evidência; a fé, coerência e inteligibilidade. A primeira reconstrói; a segunda interpreta. Ambas, quando bem compreendidas, não se excluem — antes, se iluminam.
Confundi-las é empobrecer ambas. Separá-las absolutamente, também.
Entre a dissolução historicista e a certeza apologética, talvez caiba uma posição mais sóbria: reconhecer que falamos do mesmo referente — mas sob descrições cuja legitimidade depende menos de sua concorrência do que de sua correta compreensão.


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