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O escândalo não é Erika Hilton — é a falência das nossas categorias

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 17 de mar.
  • 7 min de leitura
“La diferencia sexual no es sólo un hecho biológico, sino una forma de interpretación cultural.”— Marta Lamas

Por Glênio S Guedes ( advogado )


Há escândalos que nascem de fatos. Outros, mais interessantes, nascem da incapacidade de compreendê-los. Este pertence, sem maiores dúvidas, à segunda espécie.

Convém dizer desde logo — não por zelo excessivo, mas por economia de mal-entendidos — que o caso em torno de Erika Hilton não é, em si, extraordinário. Extraordinária é a reação que ele provoca. Extraordinário é o desconforto que ele revela. Extraordinário, enfim, é o modo como ele expõe, sem cerimônia e sem pedir licença, a precariedade das categorias com as quais ainda insistimos em pensar o mundo.

E talvez seja isso o que mais irrita.

Durante muito tempo — e não sem certo conforto intelectual — acostumamo-nos a um modelo relativamente simples de realidade. Havia o dado natural, evidente, quase autoexplicativo. Havia a linguagem, que o nomeava. E havia o direito, que o reconhecia. Entre esses três planos, supunha-se uma harmonia discreta, quase doméstica. A natureza oferecia o conteúdo; a linguagem lhe dava forma; o direito apenas confirmava o que já estava dado.

Era um mundo tranquilo. E, como todo mundo tranquilo, profundamente ilusório.

O que hoje se apresenta como “problema” não é a emergência de algo novo, mas a revelação de que esse arranjo nunca foi tão sólido quanto imaginávamos. O que mudou não foi a realidade — foi a nossa percepção de que ela sempre foi mais complexa do que nossas fórmulas permitiam admitir.

E, diante disso, reagimos como se a culpa fosse da realidade.

Há uma expectativa silenciosa, quase obstinada, de que o mundo se comporte de maneira inteligível segundo categorias previamente estabelecidas. Espera-se que a diferença se submeta à definição, que a experiência se ajuste ao conceito, que a vida — sempre tão pouco disciplinada — aceite, com a devida cortesia, caber nas classificações que lhe foram preparadas.

Quando isso não acontece, fala-se em crise. Mas não se trata de uma crise do mundo. Trata-se, com maior precisão, de uma crise do pensamento.

O caso em questão, nesse sentido, funciona como um espelho — e, como todo bom espelho, não é exatamente agradável. Ele devolve à sociedade a imagem de sua própria dificuldade de lidar com aquilo que não se encaixa. E a reação imediata, previsível, é tentar corrigir o reflexo.

Não se pergunta: o que estamos vendo? Pergunta-se: por que isso existe?

E essa diferença de perguntas, discreta à primeira vista, diz mais do que parece.

Há um episódio, frequentemente lembrado de forma simplificada, mas raramente explorado em sua dimensão mais inquietante: o encontro entre os povos indígenas e as caravelas que surgiam no horizonte.

Não se trata aqui de romantizar o episódio, nem de ignorar suas consequências históricas — que foram tudo, menos benignas. Interessa-nos outra coisa: o momento inaugural do espanto.

Quando aquelas estruturas estranhas, de madeira e pano, começaram a desenhar-se no mar, não eram apenas corpos físicos que se aproximavam. Era uma forma de realidade que não encontrava, no repertório disponível, um nome adequado.

Não havia categoria pronta.

Não porque faltasse inteligência — essa explicação, além de falsa, costuma servir mais a quem a formula do que a quem a escuta —, mas porque a experiência excedia o vocabulário. A realidade, naquele instante, era mais complexa do que os instrumentos disponíveis para compreendê-la.

E, diante disso, o pensamento hesita.

Nomeia por aproximação, compara com o que conhece, tenta encaixar o novo no já dado. Às vezes consegue. Às vezes falha. E, quando falha, não é o mundo que se torna problemático — é o sistema de categorias que se revela insuficiente.

Talvez seja esse o ponto mais difícil de admitir: que a incompreensão não decorre de um defeito do objeto, mas de um limite do sujeito.

O que vemos hoje, em debates que se pretendem contemporâneos, não está tão distante desse episódio quanto gostaríamos de acreditar. Também nós nos deparamos com realidades que não se deixam nomear com facilidade. Também nós recorremos a categorias herdadas, esperando que elas ainda funcionem. Também nós experimentamos o desconforto de perceber que já não funcionam como antes.

E, como então, a tentação é a mesma: insistir na categoria, em vez de repensá-la.

A diferença é que agora dispomos de mais informação — o que, curiosamente, não nos tornou necessariamente mais compreensivos.

A biologia — essa que tantas vezes é convocada como instância última de certeza — longe de oferecer o repouso que se espera, contribui para aprofundar a inquietação. Ao contrário do que supõe o senso comum, ela não entrega um quadro simples e fechado, mas uma realidade marcada por variações, gradações e exceções.

Não há ali a limpidez tranquilizadora de um esquema binário absoluto, mas uma tessitura mais fina, mais irregular, mais difícil de reduzir a fórmulas. Entre os extremos que costumamos nomear com segurança, há zonas intermediárias, condições atípicas, combinações que escapam à classificação imediata. Há corpos que não se ajustam ao padrão esperado, há configurações que desafiam a expectativa, há aquilo que a própria ciência descreve — sem sobressaltos — como variação.

E talvez o detalhe mais revelador seja este: a biologia não trata essas ocorrências como erros do mundo, mas como parte dele.

O que para o olhar apressado aparece como desvio, para o olhar mais atento surge como nuance.

Mas, ao atravessar o limiar da linguagem e ingressar no domínio das categorias sociais — esse território onde tudo deve ter nome, forma e lugar —, a complexidade começa a incomodar. O contínuo é recortado. A variação é reduzida. A exceção, com frequência, é tratada como inconveniente — ou, em ocasiões mais zelosas, como algo que precisa ser corrigido.

Talvez porque as categorias, ao contrário da realidade, tenham pouca paciência com a ambiguidade.

E, então, instala-se um curioso descompasso: quanto mais a realidade se mostra rica e plural, mais se insiste em simplificá-la. Como se a tarefa do pensamento fosse reduzir o mundo ao que já sabe, e não expandir-se para compreendê-lo.

O resultado é previsível.

Diante de fenômenos que escapam à classificação imediata, não se revisam as categorias — questiona-se o fenômeno. Não se interroga o conceito — desconfia-se da realidade. Não se amplia o vocabulário — suspeita-se da experiência.

E, com isso, transforma-se em escândalo aquilo que é apenas complexidade.

Porque, no fundo, há algo mais desconcertante do que admitir que o mundo é difícil de entender: admitir que talvez nunca tenha sido tão simples quanto acreditávamos.

O direito, que por muito tempo se habituou a operar com categorias relativamente estáveis, encontra-se agora diante de um desafio que não pode evitar. Ele precisa decidir — mesmo quando a realidade não se oferece em termos claros. Precisa qualificar — mesmo quando os conceitos estão em disputa. Precisa, em suma, dizer algo — e fazê-lo com pretensão de coerência.

Mas como decidir quando as próprias categorias já não são pacíficas?

Há, nesse ponto, duas tentações.

A primeira é a da simplificação. Reduzir a complexidade ao que é manejável. Ignorar as ambiguidades. Forçar a realidade a caber nos moldes disponíveis. É uma tentação compreensível — e, não raro, eficiente no curto prazo. Mas tem um custo: o de produzir injustiças discretas, aquelas que não se anunciam, mas persistem.

A segunda é a da dissolução. Abandonar completamente as categorias, como se fosse possível viver — ou decidir — sem elas. Essa, embora intelectualmente sedutora, revela-se impraticável. O direito sem categorias é o direito sem linguagem. E o direito sem linguagem não decide — apenas hesita.

Entre essas duas posições, abre-se o espaço mais difícil — e, por isso mesmo, mais necessário: o de reconstruir as categorias à altura da complexidade do mundo.

Não se trata de negar a realidade, mas de reconhecê-la em sua densidade. Não se trata de abandonar a razão, mas de refiná-la. Não se trata de relativizar tudo, mas de compreender melhor aquilo que se pretende afirmar.

E talvez seja aqui que o caso ganha sua verdadeira importância.

Não como objeto de disputa moral ou política — embora inevitavelmente o seja —, mas como ocasião para uma reflexão mais ampla: até que ponto estamos preparados para pensar um mundo que já não corresponde às nossas expectativas de simplicidade?

A resistência que se observa não é apenas ideológica. É, antes de tudo, cognitiva. Há uma dificuldade real — quase sensível — em lidar com aquilo que não se deixa classificar com facilidade. Como se o pensamento, acostumado a operar por distinções claras, se visse subitamente diante de um terreno em que as fronteiras são menos nítidas.

E, diante disso, reage.

Reage com indignação, com ironia, com desconfiança. Reage, sobretudo, tentando restabelecer uma ordem que já não se sustenta. Porque é sempre mais confortável supor que o mundo está errado do que admitir que talvez sejam nossas categorias que precisam ser revistas.

Há, nisso, uma espécie de nostalgia silenciosa — uma saudade de um mundo em que as coisas eram mais simples, mais definidas, mais previsíveis. Um mundo em que o esforço de pensar era menor, porque as respostas pareciam já dadas.

Mas esse mundo, se é que alguma vez existiu, já não está disponível.

O que temos diante de nós é outra coisa: uma realidade em movimento, atravessada por múltiplas camadas de significado, em que o natural e o cultural, o dado e o interpretado, o biológico e o simbólico se entrelaçam de maneira cada vez mais evidente.

E isso exige mais de nós.

Exige mais cuidado conceitual. Mais prudência no julgamento. Mais abertura à complexidade.

Exige, sobretudo, a disposição de abandonar a ilusão de que compreender é o mesmo que simplificar.

Talvez seja por isso que certos casos incomodam tanto. Não pelo que são, mas pelo que revelam. Eles funcionam como pontos de ruptura, momentos em que o pensamento é obrigado a confrontar seus próprios limites.

E não há nada mais desconfortável do que perceber que aquilo que parecia sólido era, na verdade, apenas bem acomodado.

No fim das contas, o escândalo não está onde muitos insistem em localizá-lo. Não está na pessoa que desafia expectativas. Não está na experiência que escapa à classificação. Não está na realidade que se apresenta de forma menos dócil do que gostaríamos.

O escândalo está na dificuldade de reconhecer que o mundo mudou — e que, com ele, deveriam mudar também as nossas formas de compreendê-lo.

Mas isso, como se sabe, dá mais trabalho.

E trabalho — ao contrário das categorias — continua sendo uma realidade que ninguém ousa negar.

 
 
 

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