O mundo virou sistema — e Habermas desconfiava disso
- gleniosabbad
- 17 de mar.
- 5 min de leitura
Habermas, Luhmann e o nosso presente digital
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Há mortes que encerram uma vida. Outras parecem encerrar uma época.
Quando desaparecem certos pensadores — desses raros que atravessam décadas discutindo com o seu próprio tempo — não se perde apenas um professor ilustre. Perde-se algo como uma bússola moral da civilização.
A morte do filósofo alemão cuja obra acompanhou o século XX e entrou no XXI com notável lucidez tem algo desse efeito. Não é apenas a despedida de um grande teórico. É também o ocaso de uma tradição intelectual que ainda acreditava em algo que hoje soa quase ingênuo: a possibilidade de que seres humanos possam resolver seus conflitos conversando.
Dito assim, parece pouco.
Na verdade, é quase tudo.
Tive a oportunidade — rara e memorável — de assistir a algumas de suas palestras quando ainda estudava Filosofia no antigo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Era outro mundo. Ou talvez apenas pareça assim agora.
Naqueles corredores, as ideias circulavam com uma intensidade que não dependia de curtidas, métricas ou compartilhamentos. A discussão era, por assim dizer, artesanal.
O visitante alemão falava pausadamente, com a gravidade própria de quem vinha de uma cultura marcada por guerras, ruínas e reconstruções morais. Não havia nele a arrogância de certos teóricos que se apresentam como engenheiros da história. Pelo contrário: falava como alguém que procurava compreender, com prudência quase jurídica, os mecanismos delicados que tornam possível a convivência entre cidadãos livres.
Não recordo hoje cada frase — a memória, como sabemos, é seletiva —, mas recordo perfeitamente o clima de suas intervenções: uma confiança obstinada no poder da razão pública.
Era um pensamento curioso para um século que parecia ter perdido a fé na razão.
Talvez por isso sua pergunta fundamental fosse ao mesmo tempo simples e inquietante:
como sociedades livres conseguem existir entre pessoas que discordam de quase tudo?
A resposta que elaborou tornou-se o núcleo de sua filosofia: a convivência democrática depende de um processo contínuo de entendimento entre cidadãos.
Não entendimento sentimental, mas argumentativo.
As pessoas precisam poder justificar suas posições diante umas das outras.
A vida coletiva sustenta-se, assim, sobre algo muito frágil: a disposição de discutir.
Essa confiança na argumentação conduziu-o a uma ideia central: a existência de um espaço intermediário entre o Estado e a vida privada onde os cidadãos debatem os assuntos comuns.
Esse espaço — que ele chamou de esfera pública — não é um lugar físico. É um processo social.
Ele surge quando indivíduos deixam de ser espectadores da política e passam a discutir suas decisões.
Durante algum tempo, acreditou-se que esse espaço poderia tornar-se o verdadeiro coração das democracias modernas. Mas a história — sempre mais irônica do que os filósofos — reservava algumas surpresas.
Enquanto esse pensador — Habermas — elaborava uma teoria da comunicação capaz de fundamentar a democracia, outro grande teórico alemão, Luhmann, desenvolvia uma visão bastante diferente da sociedade.
Para este segundo autor, a vida social não se organiza a partir do entendimento entre indivíduos. Ela funciona como um conjunto de sistemas relativamente autônomos que operam segundo suas próprias regras.
Economia, política, direito, ciência — cada um desses domínios funcionaria como um sistema com códigos específicos e dinâmicas próprias.
A comunicação, nesse modelo, não é propriamente um diálogo entre pessoas. É um processo de circulação de mensagens dentro de estruturas complexas.
O contraste entre essas duas perspectivas não poderia ser maior.
De um lado, uma teoria fundada na ação comunicativa entre interlocutores.
De outro, uma teoria que descreve a sociedade como uma rede de sistemas autopoiéticos.
Durante décadas, esse debate permaneceu confinado às discussões da sociologia e da filosofia.
Hoje, porém, ele parece ter escapado dos livros.
Basta observar o mundo contemporâneo.
Nunca houve tanta comunicação.
E, paradoxalmente, nunca houve tanta dificuldade de entendimento.
Redes sociais conectam bilhões de pessoas em tempo real. Algoritmos selecionam conteúdos com precisão matemática. Plataformas digitais organizam a circulação de mensagens numa escala antes inimaginável.
Mas algo curioso ocorreu nesse processo.
A comunicação tornou-se abundante, enquanto o entendimento tornou-se escasso.
Em muitos casos, o debate público foi substituído por fluxos de informação que circulam independentemente de qualquer intenção deliberativa.
Mensagens propagam-se não porque sejam verdadeiras ou convincentes, mas porque ativam mecanismos algorítmicos de visibilidade.
A antiga esfera pública — aquela arena de argumentação imaginada pelos pensadores da modernidade — transformou-se, em larga medida, num ecossistema informacional governado por métricas.
O cidadão tornou-se usuário.
O debate tornou-se conteúdo.
E a política, não raras vezes, tornou-se tendência de algoritmo.
É aqui que o velho debate filosófico ganha um aspecto quase profético.
A descrição sistêmica da sociedade, que outrora parecia excessivamente abstrata, adquire hoje uma estranha concretude no universo digital.
Plataformas digitais funcionam como sistemas que selecionam, amplificam e redistribuem informação segundo critérios próprios. Algoritmos organizam fluxos comunicativos em escalas que ultrapassam qualquer controle individual.
Nesse cenário, a comunicação deixa de depender inteiramente da intenção de interlocutores humanos. Ela passa a depender também da lógica operacional das plataformas.
A sociedade aproxima-se, em certo sentido, daquilo que Luhmann descrevera décadas atrás.
O mundo virou sistema.
E talvez seja exatamente isso que Habermas desconfiava.
Sua preocupação permanente foi preservar, dentro das complexidades da modernidade, um espaço onde os cidadãos pudessem discutir racionalmente os rumos da comunidade.
Ele sabia que sociedades modernas são demasiado complexas para depender apenas da boa vontade dos indivíduos. Instituições, burocracias e sistemas são inevitáveis.
Mas insistia que esses mecanismos não poderiam substituir completamente a dimensão discursiva da política.
Quando a democracia perde a capacidade de gerar debates públicos razoáveis, algo essencial se dissolve.
As instituições continuam funcionando.
As eleições continuam ocorrendo.
Mas o fundamento comunicativo da legitimidade começa a enfraquecer.
O século XXI transformou essa preocupação numa questão central.
Vivemos numa época em que tecnologias de comunicação alcançaram um grau de sofisticação sem precedentes. Sistemas de inteligência artificial produzem textos, imagens e discursos. Plataformas digitais conectam bilhões de indivíduos. Informações circulam com velocidade vertiginosa.
Contudo, quanto mais complexa se torna a infraestrutura comunicacional, mais difícil parece tornar-se o entendimento público.
Talvez porque comunicação não seja a mesma coisa que conversa.
Informação não é argumento.
E visibilidade não é verdade.
Essa transformação ajuda a compreender por que a teoria daquele filósofo encontra hoje dificuldades evidentes.
A esfera pública fragmentou-se em bolhas informacionais. Algoritmos passaram a determinar a visibilidade dos discursos. A desinformação tornou-se um instrumento político organizado. E sistemas econômicos e tecnológicos operam em escalas que escapam frequentemente ao controle do debate democrático.
Em muitos aspectos, o presente parece confirmar as descrições sistêmicas da sociedade.
Mas a história raramente se satisfaz com vitórias teóricas tão simples.
Porque, paradoxalmente, o mundo contemporâneo também mostra o quanto ainda precisamos daquilo que Habermas defendia.
Tribunais continuam exigindo justificações públicas para decisões jurídicas. Democracias continuam procurando mecanismos de deliberação coletiva. E o próprio debate sobre inteligência artificial levanta uma questão inevitável: quem legitima decisões tomadas por sistemas tecnológicos?
Sistemas podem organizar processos.
Mas legitimidade continua sendo um fenômeno comunicativo.
Nenhum algoritmo produz, por si só, justificação pública.
Recordando hoje aquele filósofo que vimos falar no IFCS, fico com a impressão de que sua grande preocupação nunca foi apenas teórica.
Ele tentava responder a uma questão profundamente política: como preservar a liberdade numa sociedade cada vez mais complexa.
Sua resposta nunca foi triunfalista.
Era apenas uma aposta.
A aposta de que seres humanos, apesar de todos os sistemas que os cercam, ainda poderiam reconhecer-se como interlocutores.
Pode parecer uma esperança modesta.
Mas a história mostra que sociedades que abandonam completamente essa esperança acabam descobrindo — não sem algum atraso — que existem métodos muito menos civilizados para resolver desacordos.
A democracia, afinal, é apenas uma tentativa sofisticada de evitar que os conflitos humanos precisem ser resolvidos pela força.
Ela aposta em algo muito mais frágil.
A capacidade de discutir.
E, se há algo que o nosso presente digital parece demonstrar com crescente nitidez, é que preservar essa capacidade talvez seja um dos maiores desafios políticos do nosso tempo.
Talvez, no fundo, Habermas ainda apostasse nas palavras — enquanto Luhmann já intuía que o mundo se tornaria sistema.
Porque sistemas podem comunicar.
Mas apenas pessoas podem entender umas às outras.


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