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Saudade cabe no dicionário?

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  • há 4 horas
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Dois verbetes e uma investigação sobre ausência, memória, tempo, tradução e identidade

“É um mal de que se gosta e um bem que se padece.” — D. Francisco Manuel de Melo, Epanáfora Amorosa (grafia atualizada)

Por Glênio S Guedes (advogado)


Certas palavras entram no dicionário sem oferecer grande resistência. Mesa aceita com razoável docilidade ser móvel; triângulo parece conformado com seus três lados. Saudade, não. Mal se tenta encerrá-la num verbete, ela começa a fazer o que melhor sabe: trazer para dentro aquilo que ficou de fora.

Tomemos dois dicionários da mesma língua, separados pelo Atlântico. O brasileiro Houaiss define saudade como “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude”, ligado pela memória à privação da presença de alguém ou de algo, ao afastamento de um lugar ou à ausência de experiências anteriormente vividas e consideradas um “bem desejável”. O Grande Dicionário Língua Portuguesa, da Porto Editora, prefere “sentimento melancólico”, provocado pela ausência ou desaparecimento de pessoas ou coisas às quais se estava afetivamente muito ligado, pelo afastamento de um lugar ou de uma época ou pela privação de experiências agradáveis.

Parecem dizer o mesmo. Não dizem.

No Houaiss, o núcleo é a incompletude, e a memória comparece expressamente como mediadora entre o sujeito e a ausência. A melancolia, prudentemente, vem precedida de “mais ou menos”. No dicionário português, a melancolia assume posição mais categórica, enquanto ganha relevo a intensidade do vínculo afetivo.

A locução adverbial brasileira é modesta, mas trabalha muito. Entre o “melancólico” português e o “mais ou menos melancólico” brasileiro cabe boa parte do problema.

Francisco Manuel de Melo já percebera algo semelhante no século XVII. Na Epanáfora Amorosa, ao tratar literariamente da perda e dos sentimentos contraditórios que ela suscita, deixou-nos uma das mais felizes formulações da saudade: “um mal de que se gosta e um bem que se padece”. O estudo de Maria do Céu Fraga situa a reflexão na Epanáfora Terceira Amorosa, datada de 1654 e posteriormente reunida, com as demais, nas Epanáforas de vária história portuguesa, publicadas em 1660.

Talvez, portanto, os dicionários estejam certos. O inconveniente — pequeno, mas persistente — é que a saudade também está.


1. Antes do sentimento, a palavra


A etimologia ajuda, desde que não lhe atribuamos poderes divinatórios. A história lexical remete ao latim e registra, antes da consolidação da forma atual, variantes como soedade, soidade e suidade. A palavra não surgiu subitamente, já pronta e munida de passaporte português.

Mais importante: sua pré-história pertence ao universo galego-português. Formas anteriores guardavam relação mais evidente com solidão, abandono e privação, antes que o vocábulo adquirisse a extraordinária densidade afetiva que hoje reconhecemos nele.

A mais portuguesa das palavras, ao que parece, já nasceu com parentes. A pureza linguística, como tantas outras purezas, costuma conservar melhor a reputação quando não examinamos os documentos.

Isso não diminui Portugal. Apenas melhora a pergunta. Em vez de indagarmos como os portugueses inventaram a saudade, torna-se muito mais interessante investigar como uma palavra pertencente à história galego-portuguesa acabou transformada em emblema da portugalidade.


2. O que precisa faltar para haver saudade?


A etimologia conduz à solidão; a semântica contemporânea foi muito além dela.

Posso estar sozinho sem sentir saudade. Posso recordar alguém sem sentir saudade. Posso estar triste sem sentir saudade. Posso desejar um automóvel que nunca tive — talvez com lamentável intensidade — e ainda assim não sentir propriamente saudade dele.

Algo mais é necessário.

Os dois verbetes permitem decompor a experiência em alguns elementos: ausência, memória, vínculo afetivo, valorização e falta. O Houaiss oferece uma pista particularmente preciosa ao falar daquilo que é recordado como “bem desejável”. Não basta que o objeto esteja ausente; sua ausência precisa importar.

Por isso, talvez o contrário profundo da saudade não seja a presença, mas a indiferença.

Posso ter ao meu lado alguém de quem, paradoxalmente, sinto saudade: “tenho saudade do que éramos”. Posso voltar à cidade da infância e sentir ainda mais saudade dela. O espaço foi recuperado; o tempo, não.

A estrutura elementar parece ser esta: antes havia; agora não há; aquilo que houve continua valendo.

A memória realiza então uma operação extraordinária: torna presente aquilo cuja ausência sentimos. Não elimina a distância; torna-a sensível.

Há ausências que fazem questão de comparecer.

Eis o paradoxo central: o objeto precisa estar suficientemente ausente para fazer falta e suficientemente presente na consciência para continuar desejável.


3. Uma palavra com problemas de calendário


Costumamos pensar a saudade como sentimento do passado. E então alguém diz:

— Um dia vou sentir saudade disto.

Pronto. O calendário perdeu a compostura.

O presente passa a ser vivido do ponto de vista de uma ausência futura. Ainda estou aqui; aquilo ainda existe; entretanto, consigo contemplá-lo antecipadamente como algo que terá sido.

Há mais. Podemos compreender perfeitamente a frase:

— Tenho saudade da infância que não tive.

Aqui já não há propriamente recordação de uma experiência. Há imaginação, possibilidade perdida, comparação entre a vida ocorrida e aquela que poderia ter ocorrido. A memória cede parte de seu lugar à imaginação contrafactual.

Isso nos obriga a ampliar a definição inicial. Há a saudade do vivido, certamente; mas pode haver também saudade do possível, do interrompido, daquilo que não chegou a realizar-se. E há, por fim, aquela curiosa saudade antecipada, pela qual o presente começa a despedir-se de si mesmo antes de terminar.

A saudade começa, assim, a parecer menos uma emoção exclusivamente voltada para trás do que uma forma afetiva de organizar o tempo.

Passado: aquilo foi.

Presente: aquilo me falta.

Futuro: talvez volte; jamais voltará; ou, mais estranhamente, aquilo que ainda tenho um dia me faltará.


4. “Saudades!”: quando a ausência pratica um ato de presença


A própria língua cotidiana acrescenta outra surpresa. Compare-se:

Tenho saudade de você.

Estou com saudade.

Vamos matar a saudade.

Saudades!

A última forma pode encerrar uma carta ou mensagem sem simplesmente informar o estado psicológico do remetente. Dizer “Saudades!” equivale frequentemente a realizar vários atos ao mesmo tempo: lembro-me de você; sua ausência me afeta; nossa relação continua valiosa; desejo conservar ou restabelecer proximidade.

A palavra que nomeia a distância torna-se instrumento de manutenção do vínculo.

E “matar a saudade” talvez seja uma das expressões mais reveladoras do português. Mata-se, evidentemente, não o objeto amado — o que prejudicaria bastante o reencontro —, mas a falta produzida pela distância.

Nem sempre, contudo, a operação funciona.

Voltar à casa da infância não restitui a infância. Rever alguém quarenta anos depois não devolve os dois jovens que se despediram. Há, portanto, saudades reparáveis e irreparáveis. Algumas cedem ao reencontro; outras sobrevivem precisamente porque aquilo que lhes falta não está em outro lugar: está em outro tempo.

A presença física cura certas ausências. O tempo é médico menos complacente.


5. Afinal, é intraduzível?


Aqui convém retirar da saudade um privilégio que ela provavelmente nunca solicitou.

Outras línguas recortam campos afetivos semelhantes. O romeno possui dor; o alemão dispõe, entre outras possibilidades, de Sehnsucht, Heimweh, Fernweh e vermissen. A inexistência de uma correspondência lexical perfeita não significa inexistência da experiência: diferentes línguas podem distribuir entre várias palavras aquilo que outra concentra, em determinados contextos, num único vocábulo. O problema da equivalência é justamente um dos pontos discutidos no levantamento contemporâneo da Deutsche Welle.

Aliás, há uma curiosidade deliciosa: falantes de diferentes idiomas também gostam de imaginar que certas palavras de sua língua exprimem sentimentos inacessíveis aos demais. Cada povo parece disposto a reconhecer a universalidade da condição humana, salvo quando chega à sua palavra favorita.

A distinção decisiva é esta:

experiência humana não é conceito; conceito não é lexema; lexema não é história cultural.

Traduzir tampouco significa encontrar obrigatoriamente uma palavra B que reproduza, milimetricamente, todos os valores da palavra A. Se assim fosse, boa parte das línguas seria intraduzível antes do almoço.

Saudade não é intraduzível porque ninguém mais a sente; é difícil de traduzir porque as línguas recortam diferentemente os territórios da ausência, da memória, do desejo e da falta.

Isso não diminui sua singularidade cultural. Ao contrário, permite compreendê-la sem transformá-la em milagre lexical.


6. Quando uma palavra se torna pátria


É precisamente aí que o problema linguístico se transforma em problema cultural.

Em determinado momento da história intelectual portuguesa, a saudade deixou de designar apenas uma experiência individual e foi elevada à condição de categoria coletiva. No início do século XX, o Saudosismo fez dela matéria de reflexão filosófica, literária e nacional, associando-a reiteradamente a pares de contrários: lembrança e desejo, dor e alegria, vida e morte. A discussão encontrou opositores e ultrapassou a semântica para alcançar perguntas sobre tradição, modernidade e destino português — percurso reconstruído, entre outros aspectos, pela pesquisa de Alexandra Rico.

É um momento fascinante: os portugueses já não discutem apenas o que significa saudade; discutem o que significa ser português por intermédio dela.

Navegações, partidas, exílios, poesia, música e memória coletiva ampliaram extraordinariamente o valor simbólico da palavra. Mas convém não confundir história cultural com certidão de nascimento. O mar pode ter dado à saudade uma de suas mais poderosas paisagens; não precisamos fazê-lo seu etimologista.

E talvez esteja aqui o ponto mais delicado de toda a investigação.

A afirmação de que somente quem fala português consegue sentir saudade não se sustenta linguisticamente. Isso, porém, não torna irrelevante o fato de gerações de falantes terem acreditado — e continuarem acreditando — nessa singularidade. O próprio mito tornou-se parte da história cultural da palavra. O debate contemporâneo sobre a suposta intraduzibilidade registra precisamente essa tensão entre o mito linguístico e sua importância cultural.

Temos, então, uma pequena ironia final: o mito da intraduzibilidade da saudade pode ser falso e, ainda assim, ajudar a explicar o significado cultural da saudade.

Talvez sua verdadeira singularidade não esteja em portugueses, brasileiros e demais lusófonos possuírem uma emoção vedada ao restante da humanidade. Está na extraordinária densidade com que uma comunidade linguística recortou, nomeou, poetizou e transformou em signo de identidade uma experiência humana.

Os dicionários, portanto, não fracassam. Fazem exatamente o que devem: delimitam sentidos, registram usos, oferecem história. Mas entre “incompletude”, “melancolia”, “memória”, “ausência” e “bem desejável” permanece alguma coisa que nenhuma definição isolada consegue esgotar.

Francisco Manuel de Melo talvez continue levando pequena vantagem sobre os lexicógrafos: um mal de que se gosta e um bem que se padece.

Quatro séculos depois, ainda estamos explicando o paradoxo.

Talvez porque, no fundo, saudade seja isto: a forma afetiva pela qual aquilo que já não está consegue, sem pedir licença ao calendário, continuar conosco.


Referências


DEUTSCHE WELLE. A palavra “saudade” só existe no português? Saiba o que outras línguas dizem sobre esse sentimento. G1, 26 ago. 2026.

FRAGA, Maria do Céu. Um historiador «esquisito»: a Epanáfora Amorosa de D. Francisco Manuel de Melo. Península: Revista de Estudos Ibéricos, n. 6, 2009, p. 93-100.

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

MELO, D. Francisco Manuel de. Epanáforas de vária história portuguesa. Lisboa: Oficina de Henrique Valente de Oliveira, 1660.

PORTO EDITORA. Grande Dicionário Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora, 2010.

RICO, Alexandra Isabel Silva. A Saudade: Génese de uma Palavra. Dissertação (Mestrado em Literatura, área de especialização em Criações Literárias Contemporâneas) — Escola de Ciências Sociais, Universidade de Évora, Évora, 2024.


 
 
 

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