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Existe vacina contra a estupidez?

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    gleniosabbad
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por uma imunologia epistemológica contra certezas, boatos e doutores de si mesmos

“Qual a justificativa para um profissional que estudou seis anos para entender o funcionamento do organismo humano defender ideias e teorias sem sentido, que prejudicarão a sociedade inteira?” Drauzio Varella, “As vacinas e a estupidez humana”, Folha de S.Paulo, 26 ago. 2026.

Por Glênio S Guedes (advogado)


Drauzio Varella começa por uma distinção que parece óbvia até que se olhe ao redor: ignorância é uma coisa, estupidez é outra. O ignorante não sabe astronomia, mandarim ou imunologia; pode, entretanto, estudar. Para a ignorância, diz ele, existe o aprendizado. O estúpido pertence a espécie mais resistente: não sabe, não sabe que não sabe e, para tornar o quadro clinicamente interessante, costuma explicar aos outros aquilo que ignora. A dúvida, esse antigo desconforto dos espíritos civilizados, não lhe perturba o sono.

Drauzio conclui que “para a estupidez não há remédio”. Talvez tenha razão quanto ao remédio. Mas terá razão quanto à vacina?

Convém esclarecer a metáfora antes que algum zeloso leitor procure a imunização no posto de saúde. Uma vacina epistemológica não seria uma substância contra pessoas pouco inteligentes. Inteligência e estupidez, aliás, convivem com desconcertante cordialidade. Seria antes um conjunto de hábitos intelectuais capazes de preparar a mente para reconhecer erros, manipulações, falsas causalidades, certezas excessivas e argumentos sedutores antes que se instalem como convicções impermeáveis.

A própria história narrada por Drauzio oferece um extraordinário laboratório. Ele pertence à geração que conheceu sarampo, coqueluche, difteria e outras doenças hoje menos presentes na experiência cotidiana. Recorda crianças com próteses metálicas e outras encerradas em pulmões de aço porque a poliomielite lhes paralisara a musculatura respiratória. A varíola podia deixar cicatrizes, cegueira e morte. A vacinação conseguiu erradicá-la; a poliomielite desapareceu do Brasil, e o país chegou a receber, em 2016, certificado de eliminação do sarampo, posteriormente perdido após a reintrodução da doença.

Eis o paradoxo do sucesso preventivo: quanto melhor funciona a prevenção, mais fácil esquecer por que precisávamos dela. Ninguém teme muito um monstro que nunca viu. A vacina derrota a doença; a derrota apaga a memória da doença; apagada a memória, alguém pergunta para que serve a vacina. O êxito apresenta a conta vestido de fracasso. A humanidade, sempre engenhosa, consegue transformar vitória epidemiológica em argumento contra a epidemiologia.

Mas o problema de Drauzio é ainda mais perturbador. Não estamos falando apenas do leigo enganado por uma mensagem recebida no telefone. Nossa epígrafe, extraída de seu perspicaz artigo, pergunta como alguém que estudou medicina durante seis anos pode defender teorias sem fundamento capazes de prejudicar a sociedade. A pergunta merece sair do consultório e entrar numa aula de epistemologia.

Conhecer muito não significa necessariamente saber conhecer.

Podemos acumular informações sem aprender a avaliá-las; dominar uma especialidade sem perceber quando abandonamos seus métodos; possuir diplomas suficientes para revestir uma parede e continuar vulneráveis ao viés de confirmação e ao raciocínio motivado. Há mesmo uma possibilidade mais desconcertante: inteligência e cultura podem fornecer instrumentos sofisticados para racionalizar uma crença previamente desejada. Nesse caso, o erro não fica menos errado; ganha apenas um advogado mais competente.

O diploma certifica formação. Não canoniza o raciocínio.

É aqui que a metáfora da vacina cognitiva encontra interessante parentesco científico. A psicologia desenvolveu a chamada teoria da inoculação: em termos gerais, expor alguém previamente a formas enfraquecidas de argumentos enganosos e às maneiras de reconhecê-los pode aumentar sua resistência a tentativas posteriores de persuasão. Estratégias contemporâneas de prebunking aplicam princípio semelhante à desinformação. A analogia imunológica, portanto, não serve apenas para enfeitar o consultório.

Nossa primeira dose seria a humildade epistemológica: reconhecer que saber alguma coisa inclui conhecer, tanto quanto possível, os limites desse saber. Sócrates descobriu isso sem laboratório, microscópio ou revisão por pares. Dois milênios e meio depois, continuamos tentando alcançar o velho ateniense, embora agora munidos de excelentes currículos.

A segunda dose seria o falibilismo. Não significa acreditar que tudo seja duvidoso ou que todas as opiniões tenham o mesmo valor. Significa algo mais exigente: sustentar uma conclusão porque as melhores razões disponíveis a justificam e, simultaneamente, admitir que novas evidências possam obrigar-nos a revê-la. A mente racional não é aquela que nunca erra; é aquela que não concede aos próprios erros imunidade diplomática.

Daí a importância da dúvida metódica. Não a dúvida ornamental daquele que “questiona tudo” até encontrar no primeiro vídeo da internet a resposta que desejava. Duvidar racionalmente exige critérios: qual é a evidência? De onde veio? Pode ser reproduzida? Que explicação alternativa existe? O que me faria mudar de opinião?

Esta última pergunta talvez seja o melhor exame sorológico da razão. Se nenhuma evidência imaginável puder modificar minha crença, já não estou defendendo uma conclusão: estou protegendo uma fé.

Outra dose seria compreender minimamente probabilidade, causalidade e risco. O fato de alguém adoecer depois de receber uma vacina não demonstra que adoeceu por causa dela, assim como o fato de o galo cantar antes do amanhecer jamais lhe conferiu cargo no departamento de astronomia. O post hoc continua sendo uma das superstições mais longevas da humanidade; apenas ganhou Wi-Fi.

Precisamos ainda reconhecer os próprios vieses. Temos extraordinária facilidade para detectar irracionalidade no adversário e comovente dificuldade para percebê-la no espelho. Talvez por isso uma autêntica vacina epistemológica precise ser administrada primeiro em nós mesmos. Vacinar apenas o outro contra a estupidez é, com frequência, um sintoma dela.

Há, finalmente, uma dose de reforço indispensável: a disposição de dizer “não sei”. Poucas expressões parecem tão pequenas e exigem tamanha musculatura intelectual. Numa cultura que premia opiniões instantâneas sobre qualquer assunto, confessar ignorância tornou-se quase um ato de rebeldia. Espera-se que todos saibamos imediatamente sobre vírus, guerras, inteligência artificial, economia, Supremo Tribunal e escalação da seleção. O silêncio perdeu mercado.

Talvez Drauzio tenha, portanto, diagnosticado corretamente a doença e sido excessivamente pessimista quanto à profilaxia. Não existe seringa capaz de imunizar a humanidade contra o disparate. Educação tampouco garante racionalidade; universidades, como a história demonstra com alguma falta de cerimônia, também diplomam certezas.

Mas podemos ensinar hábitos que tornem nossas convicções menos hospitaleiras ao erro.

A vacina contra a estupidez, se algum dia merecer esse nome, não nos fará saber tudo. Fará coisa muito mais modesta — e talvez muito mais difícil: ensinar-nos-á a perguntar como sabemos aquilo que julgamos saber.

E terá uma vantagem extraordinária sobre as demais vacinas: antes de recomendá-la aos outros, convém tomar a nossa dose.

 
 
 

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