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O alemão está na garrafa

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
28 de ago.
9 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Como ler um vinho em que Spätlese não quer dizer necessariamente doce e Trockenbeerenauslese não quer dizer seco

“Há garrafas que pedem um saca-rolhas; as alemãs, por prudência, recomendam também um dicionário.” — Conselho ao viajante

Por Glênio S Guedes (advogado)


Uma garrafa alemã pode intimidar antes mesmo de ser aberta. O leitor reconhece Riesling e anima-se; encontra Spätlese e ainda persevera; chega a Trockenbeerenauslese e começa a suspeitar que, para beber vinho na Alemanha, deveria ter estudado filologia. Se aparecerem ainda Grosse Lage, Grosses Gewächs ou simplesmente duas letras — GG —, talvez procure o saca-rolhas apenas para ter alguma coisa familiar nas mãos.

A dificuldade, porém, é menor do que parece. O vinho alemão não fala propriamente uma língua incompreensível. Fala de várias coisas ao mesmo tempo. Uma palavra informa de onde veio; outra, com que uva foi feito; outra, em que estado essa uva chegou à vindima; outra, quanto açúcar permaneceu depois da fermentação.

O rótulo não é obscuro; é apenas excessivamente bem informado — defeito que certas pessoas também cultivam, embora com resultados menos agradáveis.

O segredo consiste em separar as perguntas. Antes de indagar “o que significa esta palavra?”, convém perguntar: “sobre que aspecto do vinho esta palavra está falando?”

Aprendamos, pois, um pouco de alemão antes de beber.


1. Três perguntas diferentes


Para ler um rótulo alemão, precisamos distinguir três planos.

O primeiro é o da origem:

De onde vieram as uvas?

O segundo é o da maturidade, concentração e condição das uvas na vindima:

Como estavam as uvas quando chegaram à adega?

É nesse plano que se encontram os tradicionais Prädikate: Kabinett, Spätlese, Auslese, Beerenauslese, Trockenbeerenauslese e Eiswein.

O terceiro é o do vinho pronto:

Depois da fermentação, ficou seco ou conservou açúcar residual?

É aqui que aparecem indicações como trocken, seco; halbtrocken, meio seco; lieblich, de doçura mais perceptível; e süß, doce em grau mais elevado.

Podemos resumir a questão em duas frases:

O Prädikat descreve como a uva chegou à adega.A indicação de doçura informa como o vinho saiu dela.

“Como a uva chegou”, entretanto, não significa apenas se estava mais ou menos madura. Pode indicar também se foi colhida mais tarde, selecionada, desidratada, atingida pela podridão nobre ou prensada ainda congelada. Os Prädikate contam não somente o grau de maturação, mas também, nas categorias superiores, a concentração e a condição da matéria-prima.

Confundir esses planos equivale a confundir a biografia da uva com o estado civil do vinho.


2. O que significa maturação nessa classificação?


Enquanto amadurece na videira, a uva acumula açúcares, transforma sua acidez, desenvolve aromas e modifica sua estrutura. Para os Prädikate, interessa especialmente a concentração do mosto antes da fermentação, tradicionalmente aferida em graus Oechsle.

O grau Oechsle compara o peso de determinado volume de mosto com o peso do mesmo volume de água. Se um litro de mosto pesa 1.090 gramas, enquanto um litro de água pesa aproximadamente 1.000, esse mosto possui, simplificadamente, 90 °Oe. A diferença decorre das substâncias dissolvidas no suco da uva, principalmente os açúcares.

O Oechsle não mede diretamente o açúcar que encontraremos na taça. Mede a concentração do mosto antes da fermentação. Durante a fermentação, as leveduras transformam boa parte daquele açúcar em álcool.

Daí a distinção fundamental:

Oechsle olha para o mosto antes da fermentação; açúcar residual olha para o vinho depois dela.

Uma uva pode, portanto, alcançar concentração suficiente para a categoria Spätlese e produzir um vinho seco, caso a fermentação consuma quase todo o açúcar.

Em fórmula breve:

Maturidade e concentração da uva não são sinônimos de doçura do vinho pronto.

3. Os seis Prädikate: o que muda de um para outro?


Os seis nomes não formam simplesmente uma escada que vai do “menos doce” ao “mais doce”. Eles registram diferentes graus de maturidade e concentração e, nas categorias superiores, formas distintas de seleção ou condições especiais das uvas.

Kabinett é o primeiro Prädikat. Refere-se a vinhos elaborados com uvas maduras, normalmente associados à delicadeza, à leveza e a graduações alcoólicas mais moderadas. Um Kabinett pode ser seco ou conservar açúcar residual.

Spätlese significa literalmente “vindima tardia”: spät, tarde; Lese, colheita ou vindima. As uvas permanecem mais tempo na videira e chegam plenamente maduras, com concentração superior à exigida para Kabinett.

A primeira diferença pode ser guardada assim:

Kabinett: uvas maduras. Spätlese: uvas plenamente maduras, colhidas mais tarde.

Mas ainda não sabemos, apenas por esses nomes, se o vinho será seco ou doce.

Em Auslese, entra em cena a seleção. O nome deriva de auslesen, escolher, separar. Selecionam-se uvas plenamente maduras e retiram-se as inadequadas; parte da matéria-prima pode também apresentar efeitos da podridão nobre.

Uma segunda fórmula ajuda:

Spätlese: colher mais tarde. Auslese: colher e selecionar.

Os vinhos tendem, na prática, a adquirir maior riqueza e concentração. Ainda assim, Auslese não significa, por definição, “vinho doce”.

Em Beerenauslese, a seleção torna-se mais rigorosa:

Beeren = bagas Auslese = seleção

Já não se trata apenas de selecionar cachos ou uvas, mas as próprias bagas, sobremaduras ou atingidas pela podridão nobre. Aqui entramos no universo dos grandes vinhos doces alemães: concentrados, complexos e sustentados por uma acidez que impede a doçura de se tornar enfadonha.

A podridão nobre é uma manifestação benéfica do fungo Botrytis cinerea. Sob condições adequadas de umidade e ventilação, ele perfura a película da uva e favorece a evaporação da água sem destruir o fruto. A baga encolhe; açúcares, ácidos e componentes aromáticos tornam-se mais concentrados. Como quase tudo na vida, até a podridão depende das circunstâncias para adquirir nobreza.

Trockenbeerenauslese leva essa concentração ao extremo:

trocken = secas ou desidratadas Beeren = bagas Auslese = seleção

A palavra significa, aproximadamente, seleção de bagas secas ou fortemente desidratadas. São uvas muito enrugadas, frequentemente atingidas pela podridão nobre, nas quais a perda de água concentrou açúcares, aromas e demais componentes.

O termo trocken não qualifica o vinho; qualifica as bagas. Por isso, uma Trockenbeerenauslese, longe de ser seca, costuma ser intensamente doce, rara e longeva.

A língua alemã não enganou ninguém. O estrangeiro é que, impaciente, abandonou a palavra antes do fim.

Finalmente, o Eiswein segue caminho diferente. Suas uvas devem congelar naturalmente na videira e ser colhidas e prensadas ainda congeladas. Parte da água permanece retida como gelo, enquanto se extrai um mosto extremamente concentrado.

Ele não constitui simplesmente “o próximo degrau” depois de Beerenauslese. Seu princípio de concentração é distinto: resulta do congelamento natural da uva, não necessariamente da podridão nobre ou da desidratação progressiva.

A sequência pode ser recordada assim:

Prädikat

O que acontece com a uva?

Estilo possível ou habitual

Kabinett

Chega madura

Pode ser seco ou apresentar doçura

Spätlese

É colhida mais tarde, plenamente madura

Pode ser seco ou apresentar doçura

Auslese

Uvas plenamente maduras são selecionadas

Pode variar, embora frequentemente seja doce

Beerenauslese

Selecionam-se bagas sobremaduras ou botritizadas

Doce

Trockenbeerenauslese

Selecionam-se bagas enrugadas e desidratadas

Intensamente doce

Eiswein

Uvas congelam na videira e são prensadas congeladas

Doce

Em termos conceituais, os Prädikate classificam a matéria-prima, não constituem uma escala direta de açúcar residual. Na prática, porém, Beerenauslese, Trockenbeerenauslese e Eiswein pertencem ao universo dos vinhos doces. A distinção teórica não deve produzir uma expectativa enológica que a garrafa dificilmente satisfaria.


4. Por que Spätlese pode ser seco?


Imaginemos dois vinhos produzidos com uvas que alcançaram os requisitos da categoria Spätlese.

No primeiro, a fermentação consome quase todo o açúcar disponível. O resultado pode ser um:

Riesling Spätlese trocken

Isto é: Riesling proveniente de uvas da categoria Spätlese, vinificado em estilo seco.

No segundo, o produtor interrompe a fermentação ou emprega técnicas que preservam parte considerável do açúcar natural. Teremos então um Spätlese com doçura perceptível.

A conclusão merece destaque:

Um Spätlese pode ser doce — e frequentemente o é —, mas não é Spätlese porque é doce.

O Prädikat conta em que estado a uva chegou à adega. Trocken informa como ficou o vinho depois que as leveduras fizeram seu trabalho, criaturas diligentes que raramente recebem o crédito devido.


5. O mensageiro que chegou tarde


A história de Spätlese conduz ao Schloss Johannisberg, no Rheingau.

Em 1775, a vindima dependia da autorização do príncipe-abade de Fulda. Um mensageiro levava amostras das uvas para que se decidisse o momento da colheita. Naquele ano, porém, seu retorno atrasou excepcionalmente — cerca de duas semanas.

A tradição ofereceu explicações pitorescas para a demora, mas sua causa exata permanece desconhecida. É preferível conservar uma boa dúvida histórica a melhorar uma história com fatos que ela não possui.

Enquanto se aguardava a autorização, as uvas continuaram amadurecendo, e a Botrytis cinerea, em sua forma benéfica, espalhou-se pelos cachos. A perda de água concentrou açúcares e componentes aromáticos. Aquilo que parecia uma colheita perdida produziu um vinho extraordinário.

Schloss Johannisberg situa nesse episódio o nascimento histórico da Spätlese.

É difícil resistir à moral: um atraso administrativo produziu um grande vinho. Convém não generalizar o método às repartições públicas.


6. A Alemanha pergunta pelo endereço


Até aqui perguntamos em que estado as uvas chegaram à adega. Precisamos agora mudar de pergunta:

De onde exatamente vieram?

É nesse segundo eixo que entram a reforma da legislação vinícola alemã e a classificação privada do VDP.

A nova orientação legal acentua a importância da procedência segundo uma máxima bastante clara:

Je enger die Herkunft, desto höher die Qualität.

Quanto mais delimitada a origem, maior a promessa de qualidade.

A Alemanha não deixou de perguntar como estavam as uvas. Passou a perguntar com maior insistência onde nasceram.

Nesse ponto aparece o VDP — Verband Deutscher Prädikatsweingüter, associação que reúne muitos dos mais prestigiosos produtores alemães. O VDP não é uma autoridade pública, nem sua classificação constitui, por si mesma, a legislação alemã. Trata-se de uma associação privada, dotada de regras próprias e mais rigorosas.

Temos, portanto, dois sistemas que dialogam, mas não se confundem: a classificação legal alemã e a classificação privada do VDP. O parentesco entre elas não autoriza casamento civil.

A pirâmide do VDP possui quatro níveis:


  • VDP.GUTSWEIN — vinho da propriedade, situado na base da classificação;

  • VDP.ORTSWEIN — vinho proveniente de bons vinhedos de determinada localidade;

  • VDP.ERSTE LAGE® — vinhedo de categoria superior;

  • VDP.GROSSE LAGE® — categoria máxima concedida aos melhores vinhedos ou parcelas.


Para quem conhece a Borgonha, a aproximação é intuitiva: Erste Lage lembra, pedagogicamente, premier cru; Grosse Lage, grand cru. A comparação diz respeito à posição na hierarquia da origem, não a uma equivalência jurídica entre os sistemas.


7. Grosse Lage é o lugar; GG é o vinho


No ápice da pirâmide encontra-se a VDP.GROSSE LAGE®. A expressão não designa inicialmente um vinho, mas um vinhedo ou parcela de excepcional qualidade, precisamente delimitado e considerado apto a expressar de modo singular sua origem.

Desse mesmo vinhedo podem nascer vinhos de estilos diferentes. Se o vinho for frutado ou nobre doce, poderá trazer um Prädikat clássico, como Spätlese ou Auslese. Se for seco e cumprir as exigências de produção e controle do VDP, receberá outra designação: VDP.GROSSES GEWÄCHS®, normalmente abreviada como GG.

A distinção pode ser guardada numa única frase:

Grosse Lage classifica o lugar; Grosses Gewächs — GG — designa o grande vinho seco produzido nesse lugar.

Portanto, todo GG provém de uma Grosse Lage, mas nem todo vinho de uma Grosse Lage é GG. O mesmo vinhedo também pode produzir vinhos com açúcar residual, identificados pelos Prädikate tradicionais.

Nos vinhos secos de elite do VDP, a procedência assume o protagonismo; não se empregam os Prädikate clássicos para indicar diferentes graus de maturidade. A garrafa passa a dizer, antes de tudo, de que lugar excepcional veio aquele vinho.

Mudou a pergunta predominante: menos “quão madura estava a uva?” e cada vez mais “de onde exatamente veio este vinho?”


8. Vamos ler uma garrafa


Imaginemos, reunindo elementos reais num rótulo exclusivamente didático e não pertencente ao VDP:

Weingut Beispiel Mosel Bernkasteler Doctor Riesling Spätlese trocken 2025

Nada de pânico.

Weingut Beispiel informa quem produziu. Weingut significa propriedade ou estabelecimento vinícola; Beispiel, no caso, é apenas nosso produtor imaginário.

Mosel indica a região vinícola.

Bernkasteler Doctor especifica a procedência. Bernkasteler significa “de Bernkastel”; Doctor é o nome de um célebre vinhedo. O alemão declina até o endereço — a gramática, quando pode, também participa da vindima.

Riesling informa a variedade da uva.

Spätlese descreve a maturidade e a concentração alcançadas pelas uvas na vindima. Sozinho, não diz que o vinho seja doce.

trocken qualifica o vinho pronto: seco.

2025 informa a safra.

Traduzamos o conjunto:

“Sou um Riesling seco da safra de 2025. Minhas uvas vieram do vinhedo Doctor, em Bernkastel, na região do Mosel, e chegaram à vindima com maturidade e concentração suficientes para a categoria Spätlese.”

A garrafa não estava fazendo mistério. Estava apresentando o currículo.

Diante de um grande vinho seco de produtor pertencente ao VDP, encontraríamos outra gramática: produtor, variedade, procedência e, eventualmente, a sigla GG. Já não procuraríamos necessariamente Spätlese trocken, pois o VDP prefere comunicar, em seus vinhos secos de categoria máxima, sobretudo a hierarquia da origem.


9. O dicionário pode voltar à estante


A aparente dificuldade do vinho alemão nasce de querermos que todas as palavras do rótulo respondam à mesma pergunta.

Não respondem.

Spätlese fala de como as uvas chegaram à vindima; trocken fala do vinho depois da fermentação; Trockenbeerenauslese fala de bagas desidratadas; Lage fala do lugar; Grosse Lage classifica um vinhedo superior; GG identifica o grande vinho seco produzido nesse lugar segundo as regras do VDP.

São informações diferentes disputando poucos centímetros de papel.

Depois que se aprende essa pequena gramática, o rótulo excessivamente complicado revela outra virtude: não dizia pouco; nós é que ainda não sabíamos lê-lo.

O verdadeiro segredo consiste em descobrir não apenas o significado de cada palavra, mas a que pergunta ela responde.

Depois disso, o dicionário pode voltar à estante.

O saca-rolhas, felizmente, não.


Bibliografia e fontes consultadas


AMARANTE, José Osvaldo Albano do. Os segredos do vinho para iniciantes e iniciados. São Paulo: Mescla Editorial/Summus Editorial, 2015. Especialmente o capítulo dedicado à Alemanha, p. 320–344.

GRIZZO, Arnaldo. “A origem do Spätlese”. Revista ADEGA, n. 190.

DEUTSCHES WEININSTITUT. Materiais institucionais sobre os Prädikate, graus Oechsle, categorias de doçura e legislação vinícola alemã.

VDP — VERBAND DEUTSCHER PRÄDIKATSWEINGÜTER. VDP.Classification. Classificação institucional: VDP.Gutswein, VDP.Ortswein, VDP.Erste Lage e VDP.Grosse Lage; regras relativas a Grosses Gewächs — GG — e aos Prädikate.

SCHLOSS JOHANNISBERG. Materiais históricos relativos à vindima de 1775 e aos 250 anos da Spätlese.


 
 
 

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