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O Lembit, esse teimoso

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

Ou de como um submarino deixou de lançar torpedos para começar a lançar perguntas

“A História possui estranhos arquivos. Alguns têm periscópio.” Máxima naval

A um amigo almirante, homem do mar e do dever, que certamente compreenderá por que certos navios, depois de atracados, continuam navegando.


Por Glênio S Guedes (advogado)


Quantas Estônias cabem dentro de um submarino? A pergunta pareceria despropositada, não fosse a História especialista em alojar coisas grandes em espaços pequenos. No Lembit, em Tallinn, couberam pelo menos um herói medieval, uma jovem república, uma ocupação soviética, uma guerra mundial, trinta e dois marinheiros, torpedos, minas e, por singular economia de espaço, uma pequena aula de linguística. Não é pouco para um casco de aço.

Para encontrá-lo, é preciso entrar no Lennusadam, extraordinário museu marítimo instalado nos antigos hangares de hidroaviões da capital estoniana. E a aula começa antes mesmo do submarino. Em estoniano, lend significa “voo”; seu genitivo é lennu. Unido a sadam, “porto”, forma Lennusadam: literalmente, algo como “porto do voo”, consagrado em inglês como Seaplane Harbour. A língua, afinal, também constrói seus submarinos.

Os hangares foram erguidos entre 1916 e 1917, quando a Estônia ainda integrava o Império Russo. Suas grandes cúpulas de concreto armado, cobrindo vastos espaços sem colunas internas, constituíam uma proeza da engenharia de então. O lugar nasceu para servir à guerra; hoje serve à memória. Certas construções precisam perder sua utilidade original para adquirir alguma sabedoria.

No centro desse cenário repousa o Lembit.

Encomendado pela República da Estônia e construído no Reino Unido pela Vickers-Armstrongs, foi lançado em 1936, juntamente com seu irmão, o Kalev. Para um Estado cuja independência mal completara duas décadas, aqueles submarinos não eram simples equipamentos militares. Eram também aço convertido em soberania.

A aquisição foi essencialmente financiada pelo Estado, mas a sociedade participou do esforço nacional de arrecadação, inclusive mediante doações de sucata metálica. Havia nisso uma pedagogia cívica quase material: cidadãos contribuíam para aquilo que deveria protegê-los. A soberania, naquele caso, aceitava até ferro-velho.

Até o nome fora convocado.

Lembit remete a Lembitu de Lehola, chefe estoniano que, no início do século XIII, combateu forças estrangeiras durante as campanhas que transformariam politicamente a região báltica. Morreu em 1217. Mais de sete séculos depois, seu nome reapareceria gravado numa máquina de guerra moderna. A tecnologia vinha da Inglaterra; a memória, da Idade Média. Nações jovens, como certas famílias antigas, sabem que uma boa genealogia ajuda.

Mas a História, essa funcionária pouco respeitosa dos planejamentos humanos, tinha outros projetos.

Em 1940, com a ocupação e posterior anexação da Estônia pela União Soviética, o submarino concebido como instrumento da soberania estoniana foi incorporado à Frota do Báltico soviética. Eis uma ironia que dispensa escritor: a arma destinada a defender a independência sobreviveu à independência que deveria defender e passou a servir ao poder que a extinguira.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Lembit combateu sob bandeira soviética, lançou torpedos e minas e sofreu ataques severos. Em setembro de 1942, depois de atacar um comboio, foi submetido a violento contra-ataque com cargas de profundidade. Seriamente danificado, conseguiu regressar. O episódio ajudaria a alimentar a reputação que lhe valeu a alcunha de “submarino imortal”.

Imortal talvez seja exagero. Teimoso parece mais exato.

Seu irmão Kalev desapareceu em 1941. O Lembit ficou. A Estônia independente desapareceu. O Lembit ficou. Décadas depois, desapareceu também a União Soviética.

E o Lembit continuava lá.

Com a restauração da independência estoniana, em 1991, houve receio de que o velho submarino seguisse para a Rússia juntamente com outros bens militares soviéticos. Não seguiu. A bandeira estoniana voltou a ser hasteada a bordo; em 1992, a embarcação passou ao Museu Marítimo e, em 1994, retornou simbolicamente à lista da Marinha estoniana como navio número 1.

Poucas biografias políticas são tão movimentadas, sobretudo entre objetos que não votam.

Em 2011, depois de cerca de 75 anos na água, o Lembit foi finalmente içado e levado para o interior do Lennusadam. Terminava sua existência flutuante. Começava, porém, outra navegação.

Hoje podemos entrar nele. Passamos por escotilhas, contornamos tubos de torpedos, observamos instrumentos, beliches e postos de trabalho, tentando imaginar trinta e dois homens vivendo naquele ventre metálico. Alguns dormiam no próprio compartimento de torpedos. A intimidade com a guerra, como se vê, chegava à hora de dormir.

É então que a História deixa de ser apenas data, tratado ou batalha. Ganha dimensões físicas: altura, largura, confinamento, ruído imaginado. Há conhecimentos que entram pelos livros; outros exigem que abaixemos a cabeça para atravessar uma escotilha.

É aqui que Krzysztof Pomian nos ajuda. O historiador chamou de semióforos objetos que, retirados de sua função prática, são preservados sobretudo por aquilo que passaram a significar. O Lembit é um caso quase didático. Já não patrulha o Báltico, não instala minas, não dispara torpedos. Militarmente, tornou-se inútil. Culturalmente, talvez nunca tenha sido tão ativo.

O submarino deixou de lançar torpedos para lançar perguntas.

Que Estônia representa? A de Lembitu medieval? A república que o encomendou? A Estônia ocupada cujo submarino combateu sob bandeira soviética? A nação restaurada que nele tornou a hastear sua bandeira? Quem fala quando o Lembit fala?

Talvez todos eles.

Um museu, afinal, não é um depósito onde objetos idosos vão esperar respeitosamente a eternidade. É uma máquina de produzir relações entre coisas visíveis e mundos invisíveis. Preserva-se um objeto porque, através dele, desejamos alcançar aquilo que já não podemos tocar: pessoas, guerras, crenças, medos, projetos, derrotas.

O Lembit foi arma, sobrevivente, patrimônio e, finalmente, signo. Carregou marinheiros e torpedos; hoje transporta memória. Recebeu bandeiras diferentes sem que ninguém lhe perguntasse a preferência — inconveniente comum aos submarinos e, não poucas vezes, aos povos.

Ao sair do Lennusadam, compreende-se que aquele velho casco ensina linguística, história, engenharia, política e patriotismo sem precisar disparar coisa alguma. Há nisso certa justiça poética.

Os impérios passaram. As bandeiras mudaram. Os marinheiros se foram.

O Lembit, esse teimoso, ficou.

 
 
 

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