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Quem ouve um livro o lê?

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
5 de set.
4 min de leitura

De Dom Casmurro aos audiolivros: o que perdemos — e o que talvez ganhemos — quando a literatura passa dos olhos aos ouvidos


“O essencial é invisível aos olhos.” — Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe

Por Glênio S Guedes (advogado)



Quem ouviu Dom Casmurro conhece menos Dom Casmurro do que quem o percorreu visualmente?


A resposta parece evidente até que se tente explicá-la. É hábito das evidências: comportam-se admiravelmente enquanto ninguém lhes pede documentos.

Chamamos leitor, desde logo, àquele que vê letras impressas, transforma sinais gráficos em palavras e palavras em sentido. Quem põe os fones de ouvido e escuta as mesmas palavras, na mesma ordem, escritas pelo mesmo Machado de Assis, terá feito outra coisa. Ouvido, certamente. Lido, talvez não. Mas, se ao final ambos compreenderam a história, perceberam a ironia do narrador, desconfiaram de Bentinho e terminaram sem saber se Capitu o traiu — ou se foi condenada por um promotor que acumulava as funções de vítima, testemunha e juiz —, convém perguntar onde exatamente reside a superioridade epistemológica dos olhos.

A questão deixou de ser mero divertimento semântico. Reportagem de Angela Klinke, publicada pelo Valor Econômico, em setembro de 2026, mostrou um paradoxo brasileiro: diminui a proporção de pessoas classificadas como leitoras, enquanto crescem as vendas de livros e novas formas de acesso à literatura. Entre elas, destaca-se o audiolivro. A velha biblioteca ganhou fones de ouvido.

Talvez tenhamos, porém, um problema anterior ao mercado editorial: o que significa ler?

Em sentido estrito, ler pressupõe decodificação de signos escritos. Nesse caso, quem ouve um audiolivro não lê, assim como quem assiste a Hamlet no teatro não lê Shakespeare. A distinção é linguisticamente defensável e intelectualmente útil. Os olhos não são ouvidos, e seria curioso precisarmos de uma tese de doutorado para demonstrá-lo.

O problema começa quando passamos do verbo ler ao verbo conhecer.

Uma obra literária não se reduz à materialidade gráfica pela qual chegamos a ela. Há palavras, sintaxe, ritmo, imagens, personagens, silêncios, ambiguidades, alusões, estruturas narrativas. O papel é suporte; a obra acontece na relação entre linguagem e consciência. E, nesse ponto, o ouvinte reaparece pela porta que a definição estrita de leitura lhe havia fechado.

A própria pesquisa cognitiva recomenda prudência. Uma metanálise de 46 estudos, envolvendo 4.687 participantes, não encontrou diferença global estatisticamente confiável entre compreensão pela leitura e pela escuta, embora tenha identificado vantagens da leitura visual em determinadas condições, especialmente quando o leitor podia controlar seu próprio ritmo e em algumas tarefas inferenciais. Não são, portanto, experiências cognitivamente idênticas. Tampouco parece razoável estabelecer entre elas uma hierarquia universal.

Dom Casmurro torna a questão ainda mais deliciosa, porque é romance construído em torno de uma voz. Bento Santiago não apenas conta fatos: seleciona-os, ordena-os, interpreta-os e tenta conquistar o leitor para sua causa. A crítica há muito observa que a ambiguidade constitui elemento estrutural da narrativa e que as reminiscências de Bentinho são também fabricação de memória.

Ora, quando alguém ouve Dom Casmurro, acontece algo peculiar: a voz metafórica do narrador adquire uma voz física.

E aí há ganho e perda.

O leitor silencioso dispõe de uma liberdade extraordinária. Pode interromper Bentinho no meio da frase, regressar três páginas, demorar-se numa palavra, desconfiar de uma vírgula. Pode reler o capítulo anterior depois de descobrir algo no seguinte. Governa o tempo da leitura.

O ouvinte entrega parte desse governo ao narrador do audiolivro. Recebe pausas, ênfases, velocidades e entonações que não estão integralmente determinadas pelo texto. Uma frase ambígua pode tornar-se irônica pela voz de quem a pronuncia. Uma hesitação pode ser introduzida onde Machado deixou apenas palavras. O intérprete, portanto, não é um tubo por onde passa intacta a literatura: ele já começou a interpretá-la por nós.

Mas seria isso necessariamente uma deficiência?

Durante milênios, histórias, poemas, mitos e epopeias chegaram aos seres humanos pelos ouvidos. A literatura não nasceu esperando que Gutenberg aparecesse. Muito antes de o leitor solitário fechar-se num quarto com seu romance, comunidades inteiras conheceram narrativas pela voz, pela memória e pela performance. Até a conhecida passagem de Santo Agostinho sobre a leitura silenciosa de Ambrósio é hoje tratada com maior cautela por estudiosos, que contestam a velha simplificação segundo a qual ler silenciosamente seria algo quase excepcional na Antiguidade tardia.

Talvez, então, estejamos confundindo uma tecnologia da literatura com a própria literatura.

Voltemos aos nossos dois machadianos. O primeiro percorreu com os olhos todas as páginas de Dom Casmurro, mas conservou apenas a pergunta escolar: “Capitu traiu ou não traiu?”. O segundo ouviu o romance e percebeu algo mais inquietante: talvez o grande enigma não seja Capitu, mas o homem que pretende convencê-lo acerca dela. A própria fortuna crítica reconhece na arquitetura narrativa e na transformação de Bentinho em Dom Casmurro um dos centros interpretativos do romance.

Qual dos dois conhece melhor o livro?

Se respondermos que é necessariamente o primeiro, teremos transformado a retina em categoria hermenêutica.

Nada disso autoriza decretar que ouvir e ler sejam a mesma coisa. Não são. A leitura visual favorece retorno, inspeção gráfica, controle do ritmo e atenção à materialidade escrita. A audição devolve ao texto prosódia, corporeidade e temporalidade. Cada modalidade revela alguma coisa e encobre outra.

Talvez, por isso, devamos preservar a diferença dos verbos sem criar uma aristocracia dos sentidos.

Quem ouviu Dom Casmurro pode, rigorosamente, não tê-lo lido. Mas pode tê-lo compreendido profundamente. E quem o leu pode não ter compreendido coisa alguma.

Machado provavelmente apreciaria a desavença. Afinal, escreveu um romance que há mais de um século é lido por milhões de olhos sem que esses olhos consigam enxergar a mesma Capitu.

Agora Bentinho chegou aos ouvidos.

E continua sem testemunhas.

 
 
 

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