A morte da ironia: quando a certeza dispensa a inteligência
Entre o sinfronismo de Domício Proença Filho, a ironia de Machado de Assis e a estranha incapacidade contemporânea de duvidar de si mesmo.
Glênio S. Guedes ( advogado)
Houve um tempo em que a ignorância, surpreendida em flagrante, ainda experimentava algum constrangimento. Não que fosse menos abundante. Apenas conservava certa discrição, talvez por receio de encontrar alguém que soubesse mais. Hoje, em determinados ambientes, adquiriu desenvoltura, tribuna e plateia. Já não precisa demonstrar coisa alguma: basta-lhe proclamar. E, se alguém lhe pede razões, responde com a indignação de quem acaba de sofrer uma ofensa pessoal.
Seria injusto atribuir semelhante transformação exclusivamente às redes sociais. A estupidez é muito anterior à eletricidade. A novidade reside, talvez, na facilidade com que uma convicção encontra milhares de outras dispostas a confirmá-la, sem que nenhuma se veja obrigada a prestar contas à realidade.
Nesse ambiente, a ironia atravessa uma crise singular. Não porque tenha desaparecido o riso. Ri-se abundantemente, sobretudo dos adversários. O que parece escassear é uma modalidade mais exigente de ironia: aquela que nos permite reconhecer o ridículo de nossas próprias certezas.
Em Estilos de época na literatura, Domício Proença Filho oferece, ainda que indiretamente, um caminho para compreender esse fenômeno. Ao examinar Cota Zero, de Carlos Drummond de Andrade, o crítico demonstra como uma composição mínima consegue ultrapassar sua circunstância imediata e alcançar experiências humanas compartilháveis.
O automóvel para. Ou teria parado a vida? A pergunta, formulada com admirável economia verbal, desloca o leitor da banalidade do trânsito para a perplexidade da existência. O significado imediato não desaparece; passa a conviver com outros, menos evidentes e talvez mais inquietantes.
Proença associa essa capacidade de comunicação entre consciências historicamente distantes ao sinfronismo: uma espécie de encontro intelectual e sensível entre pessoas que não compartilham necessariamente o mesmo tempo.
A literatura realiza, assim, uma operação extraordinária. Permite que um homem do século XXI reconheça suas próprias contradições numa personagem concebida séculos antes. Aproxima desconhecidos separados pela história, pela geografia e pela morte.
Surge, entretanto, um paradoxo desconcertante: como podemos compreender as hesitações de Hamlet, a obstinação de Antígona e as vaidades de Brás Cubas, mas encontrar tamanha dificuldade em escutar alguém que vive na mesma cidade e discorda de nossas opiniões políticas?
Talvez porque a literatura nos convide a experimentar a complexidade humana, enquanto certas formas de militância identitária nos ofereçam o conforto de suprimi-la.
Machado de Assis compreendeu, como poucos, o valor intelectual dessa distância. Suas personagens frequentemente dizem mais do que pretendem e revelam justamente aquilo que gostariam de esconder. Brás Cubas, ao explicar-se, acusa-se; ao justificar-se, compromete-se; ao ostentar lucidez, oferece ao leitor novas razões para desconfiar dele.
A ironia machadiana não consiste simplesmente em trocar uma afirmação por seu contrário. Seu refinamento está em permitir que o leitor perceba a distância entre a imagem que uma consciência constrói de si e aquilo que suas palavras efetivamente revelam.
Eis uma faculdade de extraordinária importância para a vida pública: distinguir o discurso de sua justificação, a intenção declarada de seus efeitos e, sobretudo, a convicção sincera da verdade demonstrada.
A sinceridade, convém recordar, jamais constituiu prova suficiente de coisa alguma. Alguém pode acreditar profundamente numa falsidade. A intensidade da crença não altera a natureza do objeto acreditado.
Sócrates, muitos séculos antes de Machado, já havia convertido essa dificuldade em método filosófico. Sua ironia consistia, em parte, em interrogar aqueles que se julgavam possuidores de conhecimentos definitivos, conduzindo-os ao exame das próprias contradições.
O resultado nem sempre era agradável. Descobrir que não sabemos aquilo que afirmávamos saber costuma produzir desconforto. Algumas pessoas respondem estudando; outras preferem irritar-se com quem fez a pergunta.
A história da filosofia deve muito às primeiras. A história da intolerância, provavelmente, não deve pouco às segundas.
Há, contudo, uma diferença fundamental entre convicção e dogmatismo. A primeira pode resultar de reflexão cuidadosa, experiência e exame de evidências. O segundo começa quando nenhuma evidência contrária é admitida como relevante.
O dogmático não procura saber se sua conclusão é verdadeira. Procura argumentos que lhe permitam continuar acreditando nela.
Se os fatos a confirmam, tanto melhor. Se a contradizem, tornam-se suspeitos. Se uma instituição a rejeita, a instituição estaria comprometida. Se alguém demonstra uma inconsistência, passa a integrar a conspiração. O raciocínio fecha-se sobre si mesmo com a perfeição de um círculo — e a esterilidade de uma porta trancada.
Umberto Eco investigou, sob diferentes perspectivas, os limites da interpretação e os perigos de uma leitura que encontra confirmações ilimitadas para aquilo que previamente decidiu acreditar.
Interpretar não significa atribuir arbitrariamente qualquer sentido a qualquer coisa. A linguagem comporta ambiguidades, mas não autoriza todas as conclusões. Há limites impostos pelo texto, pelo contexto e pelas evidências.
Essa distinção é especialmente relevante quando examinamos a linguagem política.
Palavras como liberdade, democracia, justiça, povo e patriotismo circulam entre grupos distintos, frequentemente investidas de significados conflitantes. A disputa por esses conceitos é legítima e acompanha a própria história das ideias políticas. O problema surge quando uma definição particular pretende monopolizar a palavra e expulsar do debate todos os demais significados possíveis.
Nesse momento, a linguagem deixa de servir prioritariamente à compreensão e passa a funcionar como instrumento de reconhecimento tribal.
Não é mais necessário examinar o argumento apresentado. Basta identificar quem o formulou.
O interlocutor deixa de ser uma consciência a compreender criticamente e transforma-se numa categoria previamente condenada. Seu raciocínio já não interessa, porque sua identidade supostamente decidiu a questão antes mesmo de ele abrir a boca.
Seria cômodo atribuir esse procedimento a uma única orientação ideológica. Mas o dogmatismo não possui nacionalidade nem depende de determinada posição no espectro político. Seus mecanismos podem manifestar-se em ambientes distintos, embora isso não signifique que todos os movimentos, discursos ou comportamentos sejam equivalentes em seus fatos e consequências.
Também seria equivocado confundir tolerância com indiferença moral. Compreender o argumento de alguém não obriga a aceitá-lo. O pluralismo democrático exige a possibilidade de divergência fundamentada, não a suspensão do juízo diante da mentira, da violência ou da violação de direitos.
É justamente por isso que a ironia reflexiva se distingue do sarcasmo, hoje tão abundante.
O sarcasmo pode servir à humilhação do adversário. A ironia intelectual, quando exercida com rigor, alcança também aquele que a pratica. A primeira frequentemente fortalece as fronteiras do grupo; a segunda pode revelar a fragilidade dessas mesmas fronteiras.
Uma multidão que ri exclusivamente dos outros talvez não tenha desenvolvido grande senso de humor. Pode ter apenas aperfeiçoado sua capacidade de desprezar.
Retornemos, então, ao sinfronismo.
A noção examinada por Domício Proença Filho sugere que a obra literária pode estabelecer uma relação entre consciências separadas pelo tempo. Não significa que toda leitura produza empatia, nem que a literatura possua virtudes políticas automáticas. Leitores cultos também podem ser intolerantes; pessoas pouco familiarizadas com os livros podem demonstrar admirável abertura intelectual.
Mas a experiência literária oferece uma possibilidade singular: habitar provisoriamente uma perspectiva que não é a nossa, reconhecer suas contradições e perceber que a existência humana raramente cabe inteira nas classificações com que pretendemos organizá-la.
Talvez resida aí uma contribuição da literatura à convivência democrática. Não ensinar-nos a concordar com todos, mas impedir que a discordância dispense o esforço de compreender.
A ironia, nesse contexto, não é ornamento estilístico nem simples recurso de entretenimento. Pode constituir uma disciplina da inteligência: a disposição de submeter as próprias convicções ao mesmo exame rigoroso que reservamos às convicções alheias.
Naturalmente, isso exige algum sacrifício. É muito mais agradável descobrir a ignorância do adversário do que suspeitar da nossa. A primeira descoberta rende aplausos; a segunda costuma exigir silêncio, leitura e reconsideração.
Talvez por isso a ironia autocrítica encontre tão poucos entusiastas entre os que se apresentam como proprietários exclusivos da verdade.
Não sabemos se estamos assistindo propriamente à morte da ironia. O mundo contemporâneo produz sarcasmo em escala industrial. O que merece investigação é o destino daquela ironia capaz de desconfiar de si mesma, de interromper o entusiasmo das certezas e de perguntar, antes da condenação definitiva, se compreendemos realmente aquilo que pretendemos julgar.
Drummond perguntou se a vida havia parado ou se fora apenas o automóvel.
Diante de certas manifestações da nossa vida pública, poderíamos formular uma dúvida semelhante: terá parado a inteligência ou apenas se tornou desnecessário utilizá-la?
A resposta, se quisermos permanecer fiéis à melhor tradição da ironia, não deverá ser procurada exclusivamente nos outros.


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