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A Veneza que nunca precisou ser Veneza

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
18 de set.
6 min de leitura

Notas sobre Aveiro, seus moliceiros e o inconveniente das comparações


“Se a figura repelia, a comparação acabrunhava.” — Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

Por Glênio S Guedes ( advogado)


Há cidades que parecem condenadas a ser apresentadas por procuração. Budapeste é a Paris do Danúbio; Bruges, a Veneza do Norte; não faltam Suíças onde jamais se viu um suíço. Aveiro teve destino semelhante: deram-lhe Veneza. A intenção era elogiosa. Resta saber se o elogio não saiu caro.

É verdade que há água. Há canais. Há barcos esguios e coloridos. A fotografia, tomada do ângulo conveniente, faz o resto. Mas basta perguntar de onde vieram aqueles barcos para que Veneza comece a retirar-se discretamente da conversa. O moliceiro não nasceu para transportar enamorados sob pontes; nasceu para trabalhar. Seu nome vem do moliço, vegetação aquática recolhida na ria e empregada, entre outros usos, na fertilização dos campos. Hoje leva visitantes; outrora transportava aquilo que a água fornecia à terra.

Talvez o primeiro inconveniente das comparações seja este: elas nos ajudam a ver depressa e, justamente por isso, às vezes nos impedem de olhar.


Duas palavras e mil anos


Para conhecer Aveiro, melhor seria começar não por Veneza, mas por um documento do ano de 959. Numa disposição testamentária de Mumadona Dias encontra-se aquela que é tida como a primeira referência escrita conhecida ao lugar:

in Alauario et salinas.

Não sabemos com segurança de onde veio o nome Aveiro. Como acontece com tantos topônimos antigos, as hipóteses etimológicas são mais numerosas que as certezas. Convém deixar alguma névoa sobre a palavra. Mas a segunda parte do documento não oferece mistério: salinas.

O nome mudou. O sal, não.

E sal, no século X, não era o pequeno gesto com que se corrige uma sopa. Era conservação, mercadoria, trabalho e riqueza. Sem frigoríficos, salgar significava prolongar a vida dos alimentos e permitir que viajassem. Em torno das marinhas de sal formou-se uma cultura própria, com seus marnotos e salineiras, instrumentos, gestos e vocabulário.

Antes das fotografias, dos hotéis, dos passeios de barco e da Arte Nova, já estavam ali a água, o homem e o sal.


A ria não é decoração


Também seria erro tomar a ria por um cenário que a natureza houvesse preparado, com admirável previdência, para os futuros cartões-postais.

Chamamos-lhe ria por tradição. Geomorfologicamente, estamos diante de um complexo sistema lagunar, formado e continuamente remodelado pela relação entre rios, sedimentos, cordões arenosos, marés e oceano. A própria paisagem, portanto, tem história.

E essa história explica a cidade.

Aveiro prosperou graças à sua relação com a laguna e com o Atlântico. Sal, pesca, navegação e comércio dependiam dela. Nos séculos XV e XVI, a vila conheceu uma fase de prosperidade, acompanhada pela consolidação de estruturas urbanas, religiosas e assistenciais. Em 1759, no reinado de D. José I e em pleno Portugal pombalino, Aveiro foi elevada a cidade.

Mas a mesma geografia que a favorecera podia contrariá-la.

O progressivo assoreamento da barra — a comunicação entre a laguna e o oceano — contribuiu para a decadência vivida nos séculos XVII e XVIII. Águas menos renovadas, dificuldades de navegação e retração das atividades econômicas mostraram que Aveiro dependia de uma porta que a natureza insistia em mudar de lugar.

Em 3 de abril de 1808, os trabalhos associados a Reinaldo Oudinot e Luís Gomes de Carvalho conseguiram abrir artificialmente a barra e estabilizar uma nova comunicação com o mar. Poucas obras de engenharia explicam tão bem o destino de uma cidade.

Em Aveiro, a geografia teve consequências.

Feche-se a passagem, e a cidade definha. Reabra-se a passagem, e ela volta a respirar.

Sua história é, nesse sentido, uma longa negociação entre aquilo que os homens construíram e aquilo que a água consentiu.


Um barco que mudou de verbo


É nessa paisagem que o moliceiro recupera sua verdadeira grandeza.

Não precisamos promovê-lo a gôndola para torná-lo interessante. O contrário talvez seja mais verdadeiro: quando descobrimos para que servia, ele se torna muito mais interessante do que a comparação permitia perceber.

Seu pouco calado e sua forma alongada pertencem à ria. O nome pertence ao moliço. E os painéis pintados na proa e na popa fizeram do barco também uma superfície narrativa, na qual trabalho, devoção, sátira e uma saudável dose de malícia popular aprenderam a viajar juntos.

Sua transformação contemporânea conta outra história. Uma embarcação de trabalho perdeu em grande parte sua função econômica original e ganhou outra, turística e patrimonial.

O objeto permaneceu; seu verbo mudou. Antes recolhia. Agora passeia.

Há certa ironia nisso. O turista sobe ao barco para conhecer Aveiro e talvez não perceba que está sentado sobre uma pequena história da transformação econômica da própria cidade.


Uma princesa entre pescadores e marnotos


Aveiro, porém, não se explica somente pela água.

No século XV, outra história se escrevia atrás dos muros do Convento de Jesus. Ali se recolheu, em 1472, Joana de Portugal, filha de D. Afonso V e irmã do futuro D. João II, escolhendo uma vida de devoção que a ligaria definitivamente ao convento e à memória da cidade.

O atual Museu de Aveiro conserva essa outra Aveiro. O túmulo de Santa Joana, o claustro, os coros, a Igreja de Jesus, a talha dourada e os azulejos falam de uma cidade religiosa, conventual e barroca que dificilmente cabe na alcunha de Veneza portuguesa.

É curioso que, a poucos passos da ria dos pescadores e dos trabalhadores do sal, se tenha construído esse universo de recolhimento, devoção e arte.

Talvez as cidades interessantes sejam justamente aquelas que resistem a uma única explicação.


Até o doce volta à água


Foi nesse universo conventual que se consolidou uma das marcas gastronômicas de Aveiro: os ovos moles.

Gema e açúcar parecem assunto menor diante de princesas, barras marítimas e séculos de história. Não são. Num doce tão pequeno cruzam-se convento, açúcar, ovos e séculos de cultura portuguesa.

Aveiro acrescentou ainda uma pequena travessura semiótica: envolveu o doce em hóstia e lhe deu formas que frequentemente evocam peixes, conchas e outros motivos marítimos.

Até quando come açúcar, Aveiro acaba voltando à água.

O mesmo acontece à mesa salgada. Enguias, peixes da ria, mariscos e bacalhau pertencem a geografias distintas, mas falam uma linguagem aquática comum.

E poucos quilômetros adiante, Ílhavo amplia extraordinariamente o mapa. Durante gerações, homens ligados à região partiram para a pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova e da Groenlândia. É um dos paradoxos mais saborosos da identidade portuguesa: transformar em alimento nacional um peixe que não vive na costa portuguesa.

A ria encontra assim o Atlântico Norte; o sal encontra o peixe; e aquilo que parecia apenas receita revela uma rede de trabalho, ausência, comércio e memória.


Palheiros que não nasceram para fotografias


Se avançarmos até a Costa Nova, encontramos outro exemplo dos perigos de confundir aparência com história.

Hoje os palheiros, com suas fachadas listradas e cores vivas, estão entre as imagens mais reproduzidas da região. Parecem ter sido concebidos para a fotografia.

Não foram.

As construções primitivas estavam ligadas à vida marítima e às necessidades dos pescadores, em terreno arenoso e difícil. Madeira, junco e outros materiais disponíveis respondiam antes à necessidade que à estética. Vieram depois as transformações, a habitação, os veraneantes, os banhos de mar e, progressivamente, a imagem colorida que hoje identifica a Costa Nova.

Mais uma vez, o pitoresco é apenas o último capítulo de uma história de trabalho.


Uma cidade que quis parecer moderna


A reabertura da comunicação com o mar não devolveu a Aveiro apenas atividade econômica. Nos séculos XIX e XX, a cidade quis também mostrar que pertencia ao seu tempo.

Daí a presença da Arte Nova, particularmente visível nas fachadas próximas aos canais: azulejos, ferro trabalhado, curvas, flores e motivos vegetais revelam uma burguesia urbana familiarizada com linguagens arquitetônicas que circulavam pela Europa.

Aqui encontramos outra espécie de navegação.

Não são mercadorias nem barcos que chegam a Aveiro, mas formas, gostos e maneiras de representar prosperidade.

E, às portas da cidade, a Bairrada recorda que a paisagem também se bebe — mas essa é outra história e merece outra garrafa.


O inconveniente das comparações


Podemos, enfim, voltar a Veneza.

A comparação não é propriamente falsa. Aveiro tem canais; tem barcos; a água participa decisivamente de sua paisagem. Para quem chega sem saber nada, “Veneza portuguesa” oferece uma imagem rápida, simpática e até útil.

O problema começa quando a imagem pretende substituir o conhecimento.

Porque Veneza nada nos diz de Alauario et salinas. Não explica o marnoto nem o moliço. Não conta por que uma barra que se fechava podia empobrecer uma cidade, nem por que foi necessário reabri-la em 1808. Não conhece Santa Joana. Nunca precisou mandar pescadores à Terra Nova para que o bacalhau chegasse à mesa portuguesa. Não explica os palheiros da Costa Nova, os ovos moles ou a Arte Nova aveirense.

A comparação é instrumento admirável da inteligência, mas possui certa indiscrição: convidada para apresentar duas pessoas, às vezes resolve permanecer para o jantar.

Aveiro pode ser visitada pelos canais. Deve ser conhecida, porém, pelas relações que a água estabeleceu com os homens: o sal que dela se retirou, o moliço que fertilizou a terra, os barcos que a percorreram, os peixes que alimentaram suas gentes, a barra que decidiu períodos de prosperidade e decadência e as construções que sucessivas gerações deixaram às suas margens.

Depois disso, chamar-lhe Veneza portuguesa já não chega a ser erro.

É apenas desnecessário.

Veneza pode ficar onde está. Aveiro também.

 
 
 

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