Quanto de qualia há numa taça de vinho?
- gleniosabbad
- 13 de ago.
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Se eu não posso saber “como é ser um morcego”, posso realmente saber “como é, para você, beber este Barolo”?
Aos nossos amigos da Serra, enófilos inveterados, com quem dividimos vinhos, palavras e memórias — embora cada taça guarde, no fundo, a solidão de seus próprios qualia...
“A sensação do gosto de um vinho [...] é exemplo de qualia.” — Walter Menon, Filosofia da mente, 2016, p. 174.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Dois amigos dividem uma garrafa de Barolo. O vinho é rigorosamente o mesmo: mesma garrafa, mesma temperatura e, concedamos ao acaso alguma disciplina, taças idênticas. Um percebe cerejas, rosas secas e algo que lhe recorda alcatrão. O outro concorda. Cerejas, rosas, alcatrão. Caso encerrado?
Talvez não. A filosofia tem o inconveniente de começar justamente quando a conversa parecia terminada.
Pois dizer que ambos encontraram cerejas no vinho não demonstra que ambos experimentaram a mesma sensação. Demonstra, quando muito, que aprenderam a chamar alguma coisa de “cereja”.
É aqui que uma palavra um tanto exótica — qualia — entra na taça.
Walter Menon, em Filosofia da mente, explica que qualia, plural de quale, termo derivado do latim qualis, dizem respeito ao modo como experimentamos nossas sensações e sentimentos. São aspectos qualitativos da experiência consciente. A dor não é apenas determinada atividade neuronal: existe o “como é” sentir a dor. O vermelho não é somente certa propriedade física da luz e seu processamento pelo sistema visual: existe o “como é” ver vermelho. E o vinho não é apenas água, etanol, ácidos, taninos e compostos voláteis: existe o “como é” beber aquele vinho.
Não se trata de expulsar a química da taça. Seria maneira bastante extravagante de homenagear o vinho começar eliminando-lhe as moléculas. Trata-se de distinguir duas perguntas.
Uma: o que há no vinho?
Outra: como é, para mim, experimentar o que há no vinho?
A primeira admite respostas objetivas. A segunda conduz à consciência.
É precisamente nesse ponto que Il piacere del vino, manual da Slow Food, encontra inesperadamente a filosofia da mente. A obra italiana propõe uma degustazione consapevole — uma degustação consciente — e situa o vinho num universo sensoriale. Degustar melhor não significa apenas acumular informações sobre castas, solos, técnicas ou denominações; exige educar os sentidos, prestar atenção ao que se percebe e aprender a reconhecer e comunicar essa percepção.
Temos, portanto, duas perspectivas que se completam. O manual ensina a prestar atenção à experiência; a filosofia pergunta que espécie de coisa é essa experiência à qual prestamos atenção.
Menon apresenta, a propósito, um célebre experimento mental de Frank Jackson. Imaginemos Mary, extraordinária neurocientista que conhece tudo quanto a ciência pode ensinar sobre a visão das cores, mas passou a vida num ambiente em preto e branco. Mary conhece comprimentos de onda, retina, nervo óptico, córtex visual, processamento cerebral. Sabe tudo sobre o vermelho — salvo, aparentemente, uma pequena coisa: nunca viu vermelho.
Um dia, Mary sai de seu mundo monocromático e vê um tomate.
Aprendeu algo?
Se respondermos afirmativamente, teremos admitido que conhecer todas as informações físicas acerca de uma experiência talvez não seja o mesmo que ter essa experiência.
Façamos Mary trocar o laboratório pela adega.
Nossa nova Mary é a maior especialista mundial em Barolo. Conhece a Nebbiolo, os solos, as exposições, as safras, os crus, a vinificação e o envelhecimento. Domina a química dos taninos e aromas. Leu milhares de notas de degustação e sabe quais processos neuronais acompanham normalmente as percepções gustativa e olfativa. Há apenas uma lacuna, algo embaraçosa, em currículo tão magnífico: Mary jamais bebeu vinho.
Servem-lhe um Barolo.
Ao prová-lo pela primeira vez, aprende alguma coisa?
Parece difícil responder que não. E aquilo que aprende não é necessariamente uma nova proposição sobre o vinho. Aprende como é prová-lo.
Eis o quale.
A distinção ajuda a compreender uma antiga dificuldade da degustação. Podemos possuir conhecimento por descrição e conhecimento por experiência direta. A ficha técnica pertence predominantemente ao primeiro domínio; levar a taça à boca inaugura o segundo.
Seria absurdo concluir que a ciência nada nos diz sobre o vinho. Diz muitíssimo. O equívoco estaria em supor que, porque descrevemos determinado processo físico, esgotamos também o modo pelo qual ele aparece à consciência.
É aqui que Thomas Nagel nos oferece um morcego.
Em seu célebre argumento, pergunta: como é ser um morcego? Podemos estudar-lhe anatomia, cérebro, comportamento e extraordinário sistema de ecolocalização. Podemos saber como emite sinais e recebe ecos. Ainda assim, conheceremos realmente como é perceber o mundo sendo um morcego?
Provavelmente não.
Daí nasce nossa pergunta enológica: se não posso saber como é ser um morcego, posso saber exatamente como é, para você, beber este Barolo?
A analogia deve ser manejada com cuidado. Outro ser humano não é um morcego — observação elementar, mas talvez prudente em tempos de classificações entusiasmadas. Compartilhamos estruturas biológicas semelhantes, linguagem, práticas sociais e repertórios sensoriais próximos. Por isso conseguimos comunicar experiências com extraordinária eficiência.
Mas comunicar não significa transferir a experiência.
Suponhamos que nós dois bebamos o mesmo vinho e escrevamos:
“cereja madura, rosa seca, especiarias, taninos firmes.”
As notas coincidem. Nossos qualia também?
Não sabemos.
O problema fica ainda mais curioso diante do chamado espectro invertido. Imagine duas pessoas que aprenderam desde crianças a chamar determinada cor de “vermelho”. Ambas param no sinal vermelho, reconhecem tomates vermelhos e dizem “vermelho” quando interrogadas. Suponhamos, entretanto, que a experiência interior de uma diante daquilo que chamamos vermelho corresponda à experiência que a outra teria diante do azul. Como descobrir?
Transponhamos a experiência para a adega. Talvez o meu “aroma de cereja” e o seu “aroma de cereja” sejam fenomenologicamente diferentes, embora tenhamos aprendido a empregar a mesma expressão nas mesmas circunstâncias.
Eis uma consequência decisiva para a velha disputa entre degustação objetiva e subjetiva.
A existência dos qualia não transforma a degustação em vale-tudo. Há propriedades do vinho, mecanismos sensoriais, padrões compartilhados e procedimentos capazes de diminuir interferências. Degustar não equivale a declarar solenemente “sinto, logo está no vinho” — máxima que faria a fortuna de certas notas de degustação e a desgraça da epistemologia.
Mas o extremo contrário também é insuficiente. Não podemos reduzir integralmente a experiência de beber vinho à composição química do líquido.
A degustação acontece na relação entre vinho e degustador.
Um aroma pode despertar uma lembrança que não pertence ao vinho como propriedade físico-química, mas pertence indiscutivelmente à experiência daquele vinho. Um cheiro remete alguém à casa dos avós; outro reconhece nele uma flor encontrada durante uma viagem; um terceiro, menos lírico ou com avós menos perfumados, limita-se a anotar “floral”.
Os três podem estar diante do mesmo estímulo. Não necessariamente diante da mesma experiência.
Compreendemos, então, melhor a importância da degustazione consapevole proposta por Il piacere del vino. Aprender a degustar não significa substituir a subjetividade pela objetividade, como se o bom degustador finalmente se libertasse da desagradável circunstância de possuir uma consciência. Significa educar a atenção, refinar discriminações e tornar comunicável a experiência.
A degustação profissional pode ser compreendida, assim, como uma espécie de tecnologia cultural de intersubjetivação do subjetivo.
A expressão parece mais complicada que a coisa.
Porque não posso entregar meus qualia ao vizinho, construímos pontes: vocabulários compartilhados, escalas, protocolos, taças padronizadas, temperaturas de serviço, degustações às cegas e comparações entre provadores. Não abolimos a subjetividade; disciplinamo-la para torná-la comunicável.
A linguagem desempenha papel decisivo. Não permite que eu entre em sua consciência, mas permite que comparemos o que acontece nas duas margens.
Isso explica também por que aprender a degustar modifica a própria degustação. O iniciante sente “um cheiro”. Depois distingue fruta. Mais tarde, fruta vermelha. Depois cereja. Talvez cereja fresca, madura ou em compota. Não necessariamente porque novas moléculas tenham, por delicadeza pedagógica, ingressado na taça, mas porque atenção, memória e conceitos passaram a organizar mais finamente a experiência.
O vinho permaneceu o mesmo; o degustador, não.
E talvez esteja aqui a ponte mais fértil entre Il piacere del vino e Filosofia da mente. A degustação consciente não consiste apenas em descobrir o que existe no vinho; consiste também em perceber o que acontece em nós quando o vinho existe para nós.
Os qualia afastam-nos, assim, de dois erros simétricos: imaginar que a degustação seja fotografia objetiva do líquido ou que seja fantasia soberana do provador. Entre a química mensurável e a experiência vivida existe um território fascinante de percepção, consciência, memória, aprendizagem e linguagem.
Podemos dividir uma garrafa. Podemos medir-lhe a acidez, identificar-lhe a casta, discutir a safra, reconhecer-lhe características, comparar descritores e, depois de alguma diplomacia, concordar até sobre sua qualidade. Podemos ambos dizer que sentimos cerejas e rosas.
Só uma coisa permanecerá sem testemunhas:
o Barolo que acontece dentro de cada um de nós.
Bibliografia
MENON, Walter. Filosofia da mente. Curitiba: InterSaberes, 2016.
SLOW FOOD. Il piacere del vino: come imparare a bere meglio. Manuale Slow Food realizzato da Paola Gho e Giovanni Ruffa. 4. ed. Bra: Slow Food Editore, 2016.


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