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Quando uma abóbada perdeu a inocência

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 16 de ago.
  • 4 min de leitura

De fornix a fornicação: pequena história de uma palavra que saiu da arquitetura e entrou na moral


A Nando, amigo querido, que certa vez foi à Sorbonne estudar Direito Comparado ou algo quejando. Durante um ano, cinco meses e sete dias, conheceu mais de catorze países e nenhuma sala de aula. Preferiu comparar os costumes. A ciência perdeu algumas horas; a pesquisa de campo ganhou experiência considerável...



“O arco era inocente. A etimologia chamou testemunhas.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


Há visitas arqueológicas das quais se regressa com fotografias, datas e a respeitável convicção de ter aprendido alguma coisa sobre os mortos. Outras, menos disciplinadas, fazem uma palavra escapar das ruínas e acompanhar-nos até casa. Foi o que aconteceu na Quinta da Fórnea, villa romana situada entre Belmonte e Caria, na Beira Interior portuguesa, ocupada entre os séculos II e IV d.C. As escavações revelaram residência, termas, lagares, celeiros e instalações destinadas à vida e à produção rural.

Fui atrás dos romanos. Voltei perseguido por uma abóbada.

A culpa, se culpa há, cabe à etimologia. Ao investigar o nome Fórnea e o vocabulário arquitetônico romano, surge uma palavra latina de aparência irrepreensível: fornix, genitivo fornicis. Significava arco, abóbada, passagem coberta. Cícero, Virgílio, Lívio e Plínio conheciam-na nesse sentido perfeitamente arquitetônico. Havia até em Roma o Fornix Fabianus, arco triunfal erguido na Via Sacra. Nada que pudesse escandalizar uma matrona.

O problema começou debaixo do arco.

Certos espaços abobadados passaram a ser associados à prostituição. A transformação não é mera anedota inventada por algum etimologista desejoso de animar o latim: os próprios textos antigos documentam fornix com o sentido de bordel ou lugar de prostituição, aparecendo assim em Horácio e Juvenal.

A língua, que possui menos pudor do que os gramáticos, fez o resto.

Temos aqui um belo caso de metonímia — do grego metōnymía, “mudança de nome”: o lugar passa a designar aquilo que nele acontece. Não é preciso que todos os arcos romanos tivessem semelhante vocação, evidentemente. Seria injustiça arquitetônica de consideráveis proporções. Basta que determinados espaços abobadados tenham adquirido associação cultural bastante forte para que a palavra começasse a carregar consigo a reputação dos seus frequentadores.

E assim ocorreu uma extraordinária peregrinação semântica:

forma arquitetônica → lugar → prática sexual → categoria moral.

Primeiro, fornix: o arco.

Depois, o espaço sob o arco.

Mais tarde, aquilo que se fazia em certos espaços dessa natureza.

Finalmente, aquilo que a moral diria sobre quem o fazia.

A pedra continuou imóvel. A palavra é que começou a frequentar más companhias.

No latim cristão, a metamorfose já se encontra consumada. Surge fornicor, verbo depoente: “fornicar”, cometer relações sexuais consideradas ilícitas. Aparecem igualmente fornicarius e fornicaria, aplicados ao fornicador e à prostituta, e fornicatio, agora carregada do sentido sexual e moral que atravessaria os séculos.

E há aqui uma pequena joia filológica.

O latim possuía duas fornicationes.

Uma fornicatio, derivada da ideia de construir em arco, significava abobadamento, construção de uma abóbada. Outra fornicatio, ligada a fornicor, significava fornicação sexual. O mesmo vocábulo podia, portanto, conduzir o romano tardio do pedreiro ao moralista com desconcertante economia lexical.

Não deixa de ser uma façanha da linguagem: poucas palavras conseguiram fazer carreira simultânea na engenharia e no pecado.

Mas é justamente aí que a curiosidade etimológica se torna história cultural.

As palavras não transportam apenas significados; carregam também as classificações que uma sociedade faz do mundo. Quando fornix deixa de nomear somente uma estrutura arquitetônica e sua família lexical passa a qualificar determinada conduta sexual, ocorreu algo mais profundo que uma alteração de dicionário. Um espaço físico converteu-se em espaço moral.

A arquitetura forneceu o substantivo; os costumes forneceram o verbo; a religião acrescentaria o juízo.

E o Direito, naturalmente, não demoraria a chegar. Porque sociedades que classificam comportamentos como moralmente lícitos ou ilícitos costumam desenvolver irresistível vontade de lhes atribuir consequências jurídicas. A tradição cristã e o direito canônico fariam da sexualidade matéria de disciplina minuciosa: matrimônio, adultério, concubinato, legitimidade da descendência e relações extramatrimoniais passariam por complexos processos de normatização. Não se deve cometer o pecado historiográfico — talvez ainda não catalogado pelos canonistas — de imaginar que todo esse universo jurídico nasceu da palavra fornix. O que ocorreu é mais interessante: a trajetória da palavra acompanhou a progressiva moralização normativa da sexualidade.

É por isso que a etimologia merece lugar ao lado da arqueologia - aliás, como sói dizer-se, o exercício da Etimologia ajuda a desfazer metáforas!

Quem visita a Quinta da Fórnea pode contemplar muros, termas, lagares, canais e compartimentos de uma exploração rural romana. Pode reconstruir a economia de uma villa, perguntar quem ali trabalhou, quem mandou, quem tomou banho no caldarium e quem carregou o cereal até o horreum. Mas, se resolver também escutar as palavras, a visita ganha uma segunda dimensão.

A ruína deixa de ser apenas espacial e torna-se linguística.

Descobrimos então que certas palavras são pequenos sítios arqueológicos. Possuem estratos. Escavamo-las e encontramos, umas sobre as outras, construções desaparecidas, práticas sociais, preconceitos, metáforas, instituições e juízos morais. Às vezes, uma sílaba preserva aquilo que uma parede perdeu.

Foi assim que uma visita a uma villa romana conduziu inesperadamente a fornix. Procurávamos compreender como os romanos construíam seus arcos e acabamos perguntando o que faziam debaixo deles.

Não é culpa da arqueologia.

Muito menos do arco.

Afinal, a pedra fez apenas o que dela se esperava: sustentou a abóbada. Foram os homens que lhe deram uma reputação.


 
 
 

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