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Quando a vida real fica insustentável, o que faz a linguagem?

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
31 de ago.
6 min de leitura

Carla Madeira, Humberto Maturana e o linguajar do luto

“E a vida real ficou insustentável.” — Carla Madeira, em entrevista a Maria Fortuna, O Globo, 31 de agosto de 2026.

Por Glênio S Guedes (advogado)


Li a entrevista de Carla Madeira por uma razão e permaneci nela por outra. A escritora falava de seu novo romance, Quando, das mortes que antecederam a escrita, da literatura e do luto. Até aí, território reconhecível: escritores têm o mau hábito — ou o privilégio — de transformar aquilo que os demais apenas sofrem em matéria de linguagem. Foi então que apareceu Humberto Maturana.

Carla dizia que “a linguagem é um recurso que ajuda a organizar o corpo”. Em seguida, atribuía ao biólogo chileno a ideia de que “a emoção é no corpo e a razão é na linguagem”. O luto, para ela, fora uma “perturbação imensa”; mas ela estava “com a escrita”, e a ludicidade de Quando a ajudara.

A passagem me deteve. Não porque Maturana tenha escrito uma teoria do luto — não escreveu —, mas porque aquela aproximação sugeria uma pergunta mais interessante do que a conhecida afirmação de que escrever consola: o que acontece à experiência de uma perda quando ela entra no linguajar?

A escolha do verbo importa. Para Maturana, linguajar não é simplesmente utilizar palavras para transmitir pensamentos previamente acondicionados dentro da cabeça. Ele insiste em que o linguajar não consiste numa operação com símbolos abstratos; a linguagem acontece num domínio de “coordenações consensuais de coordenações consensuais de ações”. E, embora se realize por meio de interações e mudanças corporais, não está localizada no corpo: o fluxo das mudanças corporais e o fluxo das coordenações de ações entrelaçam-se no próprio linguajar.

Percebe-se, então, por que a formulação de Carla Madeira é intuitivamente feliz, embora conceitualmente abreviada. Não há propriamente, de um lado, o corpo, repartição administrativa das emoções, e, do outro, a linguagem, gabinete oficial da razão. Maturana é menos burocrático.

As emoções, em sua concepção, não são meros estados interiores. Ao falar delas, referimo-nos a domínios de ações possíveis e às disposições corporais que os constituem. Maturana chega a sustentar que não há ação humana sem uma emoção que a torne possível como aquela ação.

E, no viver humano, linguajar e emocionar entrelaçam-se.

A esse entrelaçamento ele chama conversação. Nossas ações na linguagem mudam quando mudam nossas emoções; nosso emocionar, por sua vez, muda quando se transformam nossas coordenações de ações na linguagem.

É aqui que o luto adquire outra fisionomia.

Quando alguém morre, não desaparece apenas alguém. Desfaz-se também uma trama de gestos, expectativas e recorrências que constituía parcela de nosso próprio viver. Havia uma voz que respondia ao telefone. Uma cadeira ocupada. Um nome chamado. Um aniversário esperado. Certos gestos não precisavam sequer ser explicados porque a repetição lhes concedera aquela enganadora aparência de eternidade que a vida cotidiana costuma emprestar às coisas provisórias.

Então a morte, com sua conhecida falta de delicadeza, interrompe a recorrência.

A árvore do conhecimento, escrita por Maturana com Francisco Varela, oferece-nos aqui outro conceito: perturbação. Em sentido técnico, são perturbações as interações que desencadeiam mudanças de estado. O meio e a unidade podem funcionar como fontes mútuas dessas perturbações, num processo de acoplamento estrutural.

Há, contudo, um cuidado indispensável. Carla emprega “perturbação” para nomear sua experiência de luto; Maturana e Varela dão ao termo um sentido técnico em sua explicação dos sistemas vivos. Aproximá-los é hipótese deste ensaio, não equivalência estabelecida pelos autores.

Feita a ressalva, a aproximação é fecunda. Em Maturana, a estrutura do sistema participa da determinação das mudanças possíveis; não é o agente externo que especifica, como uma instrução, aquilo que deverá acontecer.

Em termos maturanianos, poderíamos condensar:

a perda perturba; não instrui.

Por isso talvez não exista gramática universal do luto. Uma mesma perda não produz em duas pessoas a mesma história. Nem sequer produz, na mesma pessoa, a mesma experiência todos os dias.

Há lutos em que a morte parece ter acontecido antes para o mundo do que para aquele que ficou. Os outros já conjugam o morto no passado; o enlutado ainda o encontra no presente. Sabe que morreu e, contudo, surpreende-se esperando uma voz, imaginando uma chegada, conservando por instantes a pessoa amada naquele curioso tempo verbal em que a razão diz “foi” e a vida íntima insiste em dizer “é”.

Há mortes que acontecem num instante; no mundo de quem fica, porém, podem levar muito tempo para terminar de acontecer.

Talvez por isso devamos ter cuidado também com o verbo aceitar. O que significa aceitar uma morte? Reconhecer intelectualmente que ocorreu? Deixar de imaginar o morto entrando pela porta? Conseguir pronunciar seu nome sem desabar? Ou aprender a viver numa configuração de relações em que aquela presença física já não poderá retornar? O verbo parece simples; o acontecimento, como de hábito, recusou-se a consultar o dicionário.

Se levarmos a concepção maturaniana ao terreno do luto — e esse passo já é nosso, não de Maturana —, poderíamos formular outra hipótese:

a morte interrompe a conversação com o outro; não interrompe instantaneamente a história de conversações que nos constituiu com ele.

É então que o linguajar adquire importância.

Não para “resolver” a morte, tarefa para a qual até hoje a sintaxe se mostrou modestamente incompetente. Tampouco necessariamente para curar o luto, como se amar alguém fosse enfermidade da qual devêssemos receber alta.

A linguagem pode fazer algo mais sutil: participar da transformação do modo como a ausência é vivida.

Maturana e Varela observam que a linguagem permite a quem opera nela descrever-se a si próprio e suas circunstâncias. Mais ainda: podemos fazer “descrições das descrições” que fazemos. É nessa recursividade que situam a reflexão e o surgimento do observador.

Posso sofrer.

Posso dizer: “estou sofrendo”.

Posso perguntar por que determinada lembrança hoje me feriu.

E posso, um dia, transformar tudo isso em narrativa.

Carla Madeira fornece uma imagem extraordinariamente adequada. Ao descrever seu processo criativo, diz sentir-se “o tempo inteiro um corpo escutando”. Talvez essa expressão esteja ainda mais próxima de Maturana do que a fórmula “emoção no corpo, razão na linguagem”.

Há uma razão textual para afirmá-lo. O próprio Maturana fala expressamente da escrita e diz que nela também há emocionar; no discurso escrito, o fluxo emocional comparece na forma da frase, na expressão e nas palavras escolhidas.

Escrever o luto, portanto, não é simplesmente passar a limpo uma ata redigida pelo sofrimento. Ao escrever, distinguimos, ordenamos, repetimos, silenciamos, nomeamos. E, porque linguajar e emocionar se entrelaçam, mudanças no modo de linguajar podem participar de mudanças na maneira como vivemos emocionalmente aquilo que narramos.

Aqui convém separar novamente Carla de Maturana. Quando ela afirma que “toda perturbação quer produzir sentido” e que o corpo busca voltar ao equilíbrio, formula uma interpretação própria. O conceito técnico maturaniano de perturbação não contém qualquer “querer”: a perturbação desencadeia mudanças; não procura sentido nem prescreve o resultado.

A distinção não diminui a intuição de Carla. Torna-a, talvez, mais interessante.

Continuar vivendo, afinal, não exige necessariamente expulsar de nós aquele que morreu. Uma pessoa pode continuar lembrando a voz, imaginando uma resposta, pensando “ela gostaria disto”, conservando histórias e rituais. A transformação do luto não precisa coincidir com o desaparecimento interior do morto.

Daí a hipótese central deste ensaio:

linguajar o luto talvez não seja aprender a deixar de falar com os mortos; seja aprender a falar com eles sabendo que estão mortos.

Não proponho essa frase como terapia, muito menos como doutrina de Maturana. É uma possibilidade de pensamento que seus conceitos nos ajudam a formular.

Talvez seja uma das estranhas potências da linguagem: ela não precisa expulsar os mortos para devolver lugar aos vivos. Pode permitir que a ausência adquira outra forma de presença — memória, narrativa, evocação, nome, silêncio. A literatura sabe disso há muito tempo; apenas costuma sabê-lo sem terminologia científica, vantagem que não deve ser inteiramente desprezada.

Voltamos, assim, à entrevista.

Quando Carla Madeira diz que “a vida real ficou insustentável”, a literatura não tornou irreal a perda. Tampouco ressuscitou aqueles que partiram. A escrita lhe ofereceu uma forma de continuar vivendo numa realidade que já não poderia ser aquela de antes.

Maturana talvez nos permita compreender por quê: não porque a linguagem seja remédio para o luto, mas porque, no viver humano, linguagem, emoção, corporalidade e relação não percorrem estradas independentes.

A dor não encontra simplesmente palavras.

Ao encontrá-las, talvez comece a tornar-se outra experiência da mesma ausência.

Não menor. Não esquecida. Não resolvida.

Outra.

Continuar vivendo talvez não exija abandonar aquele que morreu. Exija apenas — e esse “apenas” contém um mundo — encontrar outra maneira de continuar com ele.

Os mortos, evidentemente, não voltam porque acertamos a frase.

Mas nós, às vezes, voltamos.


Bibliografia


FORTUNA, Maria. “‘A vida real ficou insustentável’, diz Carla Madeira, escritora de ficção mais lida no Brasil”. O Globo, Cultura, Rio de Janeiro, 31 ago. 2026.

MATURANA R., Humberto. Cognição, ciência e vida cotidiana. Organização e tradução de Cristina Magro e Víctor Paredes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. 203 p.

MATURANA R., Humberto. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução de José Fernando Campos Fortes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. 98 p. Edição consultada: 3ª reimpressão, 2002.

MATURANA R., Humberto; VARELA G., Francisco. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Tradução de Jonas Pereira dos Santos. Campinas: Editorial Psy II, 1995.


 
 
 

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