Por que Portugal fascina? Porque posso falar português e caminhar sobre Roma
- gleniosabbad
- há 5 dias
- 8 min de leitura
De Olisipo, Ossonoba e Balsa aos nomes e povos que já estavam lá quando os romanos chegaram
“Roma julgou que chegara ao princípio. A arqueologia, indiscreta, corrigiu-a.”
Homenagem
À cidade de Tavira e ao seu Museu Municipal, pela extraordinária exposição Balsa, Cidade Romana (2024–2025), que fez o que os melhores museus sabem fazer: não apenas guardar o passado, mas devolvê-lo aos vivos. Balsa esteve quase dois mil anos debaixo da terra; Tavira teve a elegância de apresentá-la novamente à sociedade.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Há países que convidam a viajar para a frente. Portugal, não raro, convida a viajar para baixo. Em Lisboa, basta descer alguns metros para que a cidade contemporânea comece a perder a compostura cronológica e deixe aparecer Olisipo. Em Coimbra, sob edifícios posteriores, Aeminium conserva estruturas monumentais. Braga assenta sobre Bracara Augusta; Évora convive com Ebora; Beja guarda Pax Iulia. No Algarve, Faro conduz a Ossonoba e, perto de Tavira, a terra devolve Balsa aos poucos, com a parcimônia de quem sabe que esperou dois mil anos e não vê razão para apressar-se agora.
Talvez seja uma das razões pelas quais Portugal fascina: pode-se caminhar pelo século XXI falando português e, sem mudar de país, atravessar Roma Antiga.
Falaremos de Portugal porque é esse o território que escolhemos percorrer. A História, contudo, não recebeu notícia antecipada da fronteira que portugueses e espanhóis haveriam de traçar séculos depois. O fenômeno é peninsular. Do outro lado da atual divisa, a Espanha oferece a mesma vertigem estratigráfica: cidades romanas assentaram-se sobre realidades anteriores, e cidades posteriores cresceram sobre Roma. A antiga Hispania não conhecia Portugal e Espanha como Estados modernos; conheceu outras geografias, outros povos e, sob Roma, outras divisões administrativas. Usaremos, portanto, Portugal como janela, sem cometer a indelicadeza de obrigar os mortos a apresentar passaporte.
Mais curioso ainda: parte de Roma não está apenas debaixo dos pés. Está dentro da boca.
Dizemos vinho, e atrás dele está o latim vinum. Dizemos porta, e lá está porta; muro guarda murus; terra, terra; mar, mare. O português não é, evidentemente, latim com dois mil anos de uso e alguma ferrugem. É uma língua nova, formada por transformações seculares e sucessivos contatos históricos. Mas pertence à família românica, e o próprio adjetivo já denuncia o parente indiscreto. Se Roma nos deu, por uma longa genealogia linguística, o português, a “última flor do Lácio” haveria de nos dar, muitos séculos depois, Machado de Assis — o qual, com a devida vênia às demais literaturas do planeta, é um dos maiores escritores do universo. Roma talvez não previsse semelhante consequência quando espalhou o latim pela Península. Impérios raramente conhecem todos os efeitos colaterais de suas conquistas.
Há, portanto, algo deliciosamente circular em procurar Roma em Portugal: falamos dela com uma língua que descende, em grande medida, da língua que ela trouxe.
E quando pensamos ter encontrado o princípio, a arqueologia comete sua habitual indelicadeza.
Cava mais fundo.
1. Roma debaixo de Portugal
A tentação é imaginar a romanização como uma espécie de inauguração. Antes, alguns povos vagamente distribuídos pela Península; depois chegam legiões, estradas, fóruns, termas, moedas, Direito, latim e, finalmente, a civilização, devidamente carimbada.
É uma narrativa confortável. Tem apenas o defeito de não ser boa História.
Roma encontrou sociedades organizadas, assentamentos, sistemas de troca, crenças, tecnologias, línguas, identidades e redes comerciais anteriores à conquista. Encontrou também nomes.
E os nomes são criaturas particularmente teimosas.
Olisipo não parece ter sido invenção latina. Ossonoba tampouco. Balsa conserva um topônimo de origem provavelmente pré-romana, embora sua filiação linguística exata aconselhe prudência. Em Conimbriga, Miróbriga e Tongobriga, encontramos uma pista linguística especialmente eloquente: o elemento -briga, geralmente relacionado ao céltico *brigā, associado à ideia de elevação fortificada, fortaleza ou povoado.
Roma conquistou a cidade; o nome, menos impressionável, sobreviveu ao conquistador.
Convém, entretanto, não transformar etimologia em espiritismo. Encontrar um formante céltico num topônimo não autoriza a declarar “céltica” toda a população que ali viveu durante séculos. Topônimos sobrevivem a migrações, conquistas, mudanças linguísticas e reorganizações políticas. A palavra guarda memória; não fornece certidão genealógica.
Tampouco devemos cair na confortável equação Lusitânia = Portugal antigo. As fronteiras não coincidem, e parcelas do atual território português pertenceram, em diferentes momentos, a outras circunscrições romanas. Portugal ainda demoraria muitos séculos para adquirir existência política. Exigir que a Antiguidade respeitasse antecipadamente suas fronteiras seria atribuir aos romanos um talento profético que, apesar da excelente opinião que tinham de si próprios, não possuíam.
Não havia portugueses em Balsa. Tampouco espanhóis em Mérida. Havia, felizmente para eles, pessoas dispensadas da obrigação de saber em que países nasceriam seus descendentes muitos séculos depois.
2. Antes dos romanos, outros antigos
No Sul de Portugal, a situação torna-se ainda mais sedutora — e mais difícil.
Aparecem os Cónios, ou Cinetes, tradicionalmente relacionados ao Algarve e ao Baixo Alentejo; o complexo horizonte cultural associado a Tartessos; contatos fenícios; populações célticas e outras comunidades cuja identidade não cabe docilmente nas gavetas étnicas que a posteridade preparou para elas.
A chamada escrita do Sudoeste, documentada sobretudo no Sul de Portugal e no Sudoeste da Espanha, constitui uma advertência em pedra contra nossas certezas excessivas. Sabemos que aqueles sinais significavam alguma coisa para quem os escreveu. Conseguimos avançar em sua leitura e classificação; permanecem, contudo, discussões importantes acerca da língua representada e da identidade exata de seus usuários.
Há certa justiça poética nisso. Nós, que conseguimos mandar uma mensagem instantaneamente para o outro lado do planeta, ainda perguntamos a homens mortos há mais de dois milênios:
— Afinal, quem eram vocês?
E eles, inscritos em pedra, continuam respondendo numa língua que ainda não nos concedeu todas as chaves.
Quanto mais fundo descemos, mais baixo o passado fala.
3. O prato que não leu Cícero
Balsa ajuda a compreender por que essa viagem não pode depender apenas dos grandes textos.
Um dos ensinamentos mais interessantes da arqueologia daquela cidade está justamente na banalidade dos objetos recuperados.
Cerâmica.
Pratos, tigelas, ânforas, recipientes, fragmentos.
Um senador podia deixar discursos. Um escritor, livros. Um magistrado abastado podia mandar gravar o próprio nome em pedra. A imensa maioria da população não teve semelhante previdência historiográfica.
Mas quebrava pratos.
E o prato ficou.
As cerâmicas de Balsa permitem estudar cronologias, proveniências, hábitos de consumo e redes comerciais. Algumas chegaram de outras regiões; outras pertenciam a circuitos locais ou regionais. A terra sigillata — cerâmica fina de mesa cujo nome se relaciona a sigillum, “selo”, “marca” — ajuda o arqueólogo a perceber não apenas gostos, mas conexões econômicas.
O caco torna-se documento.
E corrige outro de nossos mapas mentais. Hoje olhamos para o Algarve e vemos a extremidade sudoeste da Europa. Um habitante de Balsa via, diante de si, o mar.
Nós vemos fronteira.
Ele podia ver estrada.
O Mediterrâneo e as rotas marítimas conectavam portos, produtores, comerciantes e consumidores. Balsa não precisa, portanto, ser imaginada como pequena sentinela romana abandonada no fim do mundo conhecido. Os materiais arqueológicos revelam uma cidade inserida, com intensidades variáveis ao longo do tempo, em circuitos econômicos muito mais amplos.
4. O imperador no bolso
As moedas acrescentam outra dimensão.
Passavam de mão em mão, compravam coisas, pagavam obrigações, viajavam. Uma moeda encontrada em Balsa podia ter sido cunhada longe dali e percorrido caminhos que jamais reconstruiremos integralmente.
Mas a moeda romana fazia algo mais: levava consigo o poder.
O habitante de uma cidade provincial talvez jamais visse Roma. Muito menos o imperador. Entretanto, podia carregar-lhe o rosto no bolso.
Retrato, nome, títulos, símbolos: a autoridade política transformava-se em objeto cotidiano. Roma descobrira uma modalidade admiravelmente econômica de comunicação: fazia a própria circulação monetária repetir a imagem do poder.
Os impérios posteriores apenas aperfeiçoariam a delicadeza.
5. Um médico sem nome
Balsa oferece ainda um testemunho mais íntimo.
Na necrópole da Torre d’Ares foram encontrados instrumentos médico-cirúrgicos tradicionalmente associados ao chamado “estojo do cirurgião”: sondas, espátulas-sondas, cabo de escalpelo, pinça e outros utensílios relacionados à prática médica, cirúrgica e à preparação de medicamentos.
Não sabemos o nome do profissional a quem o conjunto esteve associado. E justamente aí a arqueologia ensina uma de suas virtudes fundamentais: inferir sem inventar.
Os instrumentos permitem falar em práticas especializadas de cuidados de saúde. Permitem comparações com o instrumentarium médico greco-romano. Não permitem escrever o prontuário de pacientes que não conhecemos.
Temos a pinça.
Perdemos a mão que a segurava.
Temos o bisturi.
Ignoramos quem sentiu seu corte.
É uma forma comovente de presença pela ausência.
6. E, finalmente, os nomes
As inscrições aproximam-nos ainda mais das pessoas.
Uma pedra inscrita pode conservar antropônimos, parentescos, estatutos, funções e dedicatórias. O que a cerâmica revela anonimamente, a epigrafia às vezes devolve com nome.
Mas também aqui existe desigualdade.
Nem todos puderam mandar gravar uma inscrição. Nem todos tiveram monumentos. Nem todas as memórias receberam pedra suficiente para chegar ao século XXI.
A epigrafia é uma magnífica fonte histórica; não é um censo democrático dos mortos.
E, no entanto, aquelas letras realizam algo extraordinário. O homem ou a mulher desapareceu; a voz biológica calou-se; a sociedade que conhecia aquela pessoa extinguiu-se; Roma caiu; outras línguas ocuparam o território.
A pedra continua dizendo:
este nome existiu.
Talvez toda inscrição funerária contenha, secretamente, a mais antiga disputa humana contra o esquecimento.
7. A cidade dos mortos explica a dos vivos
As necrópoles de Balsa acrescentam outra peça.
Necrópole vem do grego nekrós, morto, e pólis, cidade: literalmente, cidade dos mortos.
Nela encontramos cremações e inumações, recipientes, objetos depositados, diferenças de tratamento funerário e mudanças ocorridas ao longo dos séculos. Não se deve concluir apressadamente que cada objeto possuía significado religioso único ou que toda transformação funerária corresponde automaticamente a uma conversão religiosa. A morte, como a vida, resiste às explicações monocausais.
Mas as necrópoles revelam algo seguro: os vivos organizavam os mortos.
Escolhiam. Preparavam. Depositavam. Recordavam. Diferenciavam.
A biologia igualava-os na morte; a sociedade, sempre diligente, tratava de introduzir novamente algumas distinções.
8. Portugal, palimpsesto
Talvez seja esta, afinal, a palavra capaz de reunir tudo: palimpsesto.
O termo vem do grego palímpsēstos: aquilo que foi raspado novamente. Designa o manuscrito cujo texto anterior foi apagado para que outro fosse escrito sobre o mesmo suporte, sem que necessariamente desaparecessem todos os vestígios da escrita precedente.
Portugal pode ser percorrido assim.
Portugal contemporâneo escreve-se sobre Portugal medieval; este, sobre realidades tardo-antigas; abaixo aparecem cidades romanas; sob algumas delas, assentamentos, nomes e populações anteriores a Roma; mais fundo, outras sociedades tornam-se progressivamente mais silenciosas.
E aqui arqueologia e filologia curiosamente se encontram. O arqueólogo escava o solo para separar camadas; o filólogo interroga o texto para reconhecer estratos, transmissões e transformações. Ambos desconfiam da última redação. Ambos sabem que aquilo que está por cima nem sempre explica aquilo que veio antes.
Mas nenhuma camada é simplesmente o rascunho imperfeito da seguinte.
Os Cônios não existiram para que chegassem os romanos. Roma não construiu Olisipo para preparar Lisboa. Os habitantes de Balsa não viveram para proporcionar material aos arqueólogos.
Cada presente acreditou, compreensivelmente, ser presente.
Nós também.
Talvez seja esse o pequeno sorriso que Portugal oferece a quem aprende a observá-lo verticalmente.
Caminho por Lisboa e encontro Olisipo. Vou a Coimbra e Aeminium espera sob a cidade. Braga deixa aparecer Bracara Augusta. Évora conserva Ebora. No Algarve, Ossonoba e Balsa obrigam o século XXI a dividir espaço com homens e mulheres que compravam cerâmica, usavam moedas, adoeciam, procuravam tratamento, enterravam seus mortos e escreviam nomes em pedra.
Então falo.
E descubro que parte dessa viagem estava também na língua com que pretendia descrevê-la.
Podemos falar português enquanto caminhamos sobre Roma e, graças a uma dessas travessuras que a História pratica sem consultar seus protagonistas, fazê-lo na língua que Camões transformou em epopeia, Vieira em arquitetura verbal e Machado de Assis em instrumento de dissecação da alma humana. O latim dos conquistadores já não existe; uma de suas descendentes, contudo, aprendeu a desconfiar até dos conquistadores.
Roma, satisfeita consigo mesma, poderia reivindicar a última palavra.
Não convém concedê-la.
Basta olhar para Olisipo, Ossonoba, Balsa, Conimbriga e para os vestígios do Sudoeste pré-romano para perceber que, quando os romanos chegaram, havia gente, memória, língua, comércio, crenças e nomes.
A arqueologia apenas teve a indiscrição de perguntar por eles.
É por isso que Portugal fascina.
Porque nele podemos viajar sem sair do lugar e mudar de civilização apenas mudando de profundidade. Podemos falar português enquanto caminhamos sobre Roma — e, quando Roma finalmente aparece sob nossos pés, descobrir, para seu provável aborrecimento imperial, que ela também chegou depois de alguém.


Comentários