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Por que ainda ler Dom Quixote num mundo governado pela IA?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 16 de mar.
  • 4 min de leitura

Cervantes na era dos algoritmos: por que ainda precisamos de Dom Quixote


“Como dizia minha avó, só duas linhagens há no mundo: as dos que têm e as dos que não têm.” — Dom Quixote, II, 20


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Há épocas em que a humanidade se julga particularmente inteligente. A nossa, naturalmente, é uma delas.

Os sinais parecem convincentes. Máquinas escrevem textos, analisam contratos, diagnosticam doenças, recomendam vinhos, sugerem livros, decidem investimentos e — não duvido — talvez um dia também opinem sobre filosofia do direito, com aquela serenidade estatística que só os algoritmos possuem.

Diante disso, uma pergunta se impõe com certa gravidade quase burocrática:


por que ainda ler Cervantes?


Se as máquinas já produzem textos, organizam bibliotecas e resumem tratados, para que retornar a um romance publicado em 1605, escrito por um soldado manco, pobre e obstinado, que resolveu contar a história de um fidalgo enlouquecido por livros de cavalaria?

A pergunta é legítima.Mas a resposta talvez seja mais perturbadora do que parece.

Pois é possível — ouso sugerir — que precisemos de Cervantes hoje mais do que nunca.


I

A nova religião: o algoritmo


O século XXI desenvolveu uma fé curiosa.

Não se trata exatamente da antiga crença no progresso, embora guarde com ela parentesco respeitável. Trata-se de algo mais técnico, mais silencioso e, portanto, mais convincente: a crença na capacidade dos algoritmos de compreender o mundo.

Os algoritmos classificam. Predizem. Calculam probabilidades.

Eles observam padrões e, a partir deles, deduzem comportamentos.

Se muitos leitores compram um livro depois de outro, o sistema conclui que ambos estão relacionados. Se milhares de pessoas escutam determinada música após certa canção, o algoritmo sugere a sequência.

Tudo muito razoável.

O problema é que, pouco a pouco, passamos a acreditar que essa forma de inteligência — eficiente, matemática e previsível — é a própria inteligência humana.

É aqui que Cervantes entra em cena.


II

Cervantes: testemunha de outra mudança de mundo


Convém recordar que Miguel de Cervantes também viveu numa época de transição profunda.

O mundo cavaleiresco — aquele das gestas heroicas, das lanças reluzentes e dos códigos de honra — estava desaparecendo. Em seu lugar surgia um universo muito mais pragmático: burocracias imperiais, contabilidade fiscal, guerras modernas e uma racionalidade administrativa que pouco tinha de épica.

Cervantes conheceu esse mundo de maneira direta.

Foi soldado na batalha de Lepanto. Foi prisioneiro em Argel durante anos. Trabalhou como cobrador de impostos. Enfrentou pobreza crônica.

Nada disso sugere a biografia de um sonhador ingênuo.

E, no entanto, foi justamente esse homem — experimentado na dureza da realidade — quem criou o personagem mais famoso da imaginação ocidental: Dom Quixote.

A ironia é evidente.

Quanto mais Cervantes conhecia o mundo real, mais compreendia que ele não bastava.


III

O homem que preferiu a imaginação


Dom Quixote é, à primeira vista, um personagem ridículo.

Ele vê gigantes onde há moinhos. Castelos onde existem estalagens. Princesas onde se encontram camponesas.

O leitor ri — e Cervantes sabia perfeitamente que riria.

Mas, como ocorre frequentemente com grandes obras, o riso não resolve o problema. Ele apenas o desloca.

Pois, se Dom Quixote está louco, há algo nele que continua profundamente admirável: a recusa em aceitar um mundo sem imaginação.

O cavaleiro da Mancha prefere reinterpretar a realidade a simplesmente obedecer-lhe.

Ele não nega os fatos; ele os reencena.

Onde o mundo vê banalidade, ele enxerga aventura.

Onde todos veem rotina, ele encontra destino.

Tal atitude pode parecer insensata — e provavelmente o é. Mas também é profundamente humana.


IV

Aquilo que os algoritmos não compreendem


Aqui reside o ponto essencial.

Os algoritmos trabalham com regularidades. Eles aprendem a partir de padrões estatísticos. São extraordinariamente competentes para reconhecer aquilo que se repete.

Dom Quixote, ao contrário, vive do que não se repete.

Ele vive do improvável.

Sua lógica não é probabilística; é poética.

Ele age não porque algo seja provável, mas porque algo merece ser vivido.

Essa diferença pode parecer pequena. Não é.

Ela separa duas formas de inteligência:

Inteligência algorítmica

Inteligência humana

calcula probabilidades

cria possibilidades

reconhece padrões

inventa significados

prevê comportamentos

imagina destinos

Os algoritmos sabem o que costumamos fazer.

Dom Quixote sabe o que poderíamos fazer.


V

A ironia cervantina


Cervantes, naturalmente, sabia que Dom Quixote não venceria os moinhos.

Ele sabia que o mundo moderno não seria governado por cavaleiros andantes.

Mas também sabia algo que talvez tenhamos esquecido: o ser humano precisa de ilusões para permanecer humano.

Não se trata de mentiras, mas de ficções necessárias.

A honra. A justiça. A dignidade.

Nenhuma dessas coisas é mensurável por algoritmos. Ainda assim, são elas que sustentam civilizações.

Cervantes compreendeu isso quatro séculos antes da inteligência artificial.


VI

A utilidade filosófica de Dom Quixote


Ler Cervantes hoje não é apenas um exercício literário.

É um exercício filosófico.

Dom Quixote nos obriga a perguntar:


  • o que é a realidade?

  • até que ponto devemos aceitá-la?

  • quando vale a pena resistir a ela?


São perguntas perigosas.

Pois uma sociedade que deixa de fazê-las torna-se muito eficiente — e muito obediente.

Talvez seja exatamente isso que Dom Quixote veio impedir.


VII

A última lição


Se Cervantes escrevesse hoje, talvez não colocasse seu cavaleiro diante de moinhos de vento.

Talvez o colocasse diante de algo mais silencioso.

Uma tela. Um algoritmo. Uma recomendação automática.

E então Dom Quixote — fiel à sua natureza — provavelmente faria o que sempre fez.

Ignoraria as probabilidades.

Montaria Rocinante.

E partiria novamente em busca de gigantes.


Conclusão


Em um mundo governado por algoritmos, Cervantes continua indispensável.

Não porque nos ensine a ignorar a realidade, mas porque nos recorda que a realidade nunca é suficiente.

Os algoritmos podem organizar o mundo.

Mas apenas a imaginação humana pode torná-lo habitável.

E é por isso que, quatro séculos depois, Dom Quixote ainda cavalga.

Talvez não pelas planícies da Mancha.

Mas certamente pela parte mais inquieta — e mais necessária — do espírito humano.


Bibliografia


CANAVAGGIO, Jean.Cervantes. Tradução de Rubia Prates Goldoni; tradução dos excertos de Cervantes por Sérgio Molina. São Paulo: Editora 34, 2005.

LODARES, Juan Ramón.Gente de Cervantes: historia humana del idioma español. Madrid: Taurus, 2001.

 
 
 

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