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Pode uma palavra evocar aquilo que não nomeia?

Foto do escritor: gleniosabbad
gleniosabbad
30 de ago.
6 min de leitura

Da “parafantasia” de Rodrigues Lapa às redes de sentido da linguística contemporânea


Por Glênio S Guedes (advogado)


Conheci a Estilística da Língua Portuguesa, de M. Rodrigues Lapa, na década de 1980, quando cursava Letras. De muitas páginas lidas naquele tempo — algumas cumpriram, suponho, o destino honrado de servir a uma prova e retirar-se depois, discretamente, da memória — duas palavras recusaram-se a partir: fantasia e parafantasia.

Fizeram sinapse — metaforicamente, não se assuste o neurologista — e nunca mais se separaram.

Havia, antes de tudo, o encanto da terminologia. Parafantasia soava, aos ouvidos de um estudante, como essas palavras que parecem explicar alguma coisa antes mesmo de termos compreendido inteiramente o que explicam. Tinha um pouco de ciência, outro tanto de literatura e aquela ousadia terminológica que permitia a certos estudiosos criar palavras sem primeiro consultar uma comissão encarregada de verificar se a novidade seria admitida no condomínio.

Mas a palavra ficou porque a ideia era boa. E, mais de quatro décadas depois, reencontrá-la suscita uma pergunta que a linguística contemporânea tornou ainda mais interessante: pode uma palavra evocar aquilo que não nomeia?


A fantasia das palavras


Lapa parte de uma observação aparentemente singela. As palavras que designam coisas podem despertar em nós representações dessas coisas. Diante de vocábulos como sino, chave, chuva, avião, gás, veludo, serpente ou limão, diferentes pessoas podem experimentar representações diferentes: umas predominantemente visuais; outras, auditivas, táteis, olfativas ou gustativas.

Sino, por exemplo, pode fazer alguém ver a torre; outro ouvir a badalada; um terceiro imaginar o movimento da corda.

É o que Lapa chama de fantasia: a capacidade de a palavra despertar representações relacionadas ao objeto a que se refere.

Há nessa explicação a marca da psicologia linguística de seu tempo, sobretudo pelo peso concedido à noção de “imagem”. Mas a intuição permanece preciosa: compreender uma palavra não consiste apenas em consultar mentalmente uma definição de dicionário.

Experimente-se limão.

Talvez surja a fruta. Talvez o gosto ácido. Talvez a boca ensaie involuntariamente aquela contração que o limão consegue produzir mesmo estando ausente — talento considerável para uma fruta. Alguém lembrará uma bebida; outro, uma sobremesa; um terceiro, o limoeiro da casa dos avós. O dicionário ainda não chegou à segunda linha e a memória já abriu a despensa inteira.

A palavra parece possuir menos a disciplina de um funcionário de arquivo do que a sociabilidade de certas visitas: chega acompanhada.


Quando aparece aquilo que não foi chamado


É nesse ponto que Lapa introduz a ideia mais curiosa: a parafantasia.

Nem sempre a palavra desperta a representação do próprio objeto designado. Pode suscitar outra coisa, ligada a ele por alguma associação. Ouvimos avião e imaginamos um selo de correio aéreo; ouvimos chave e aparece uma porta; maçã pode trazer a macieira; leite, a tigela que o contém.

Eis o pequeno mistério.

A palavra chave não tem porta entre suas acepções; pode, entretanto, evocá-la quase instantaneamente.

Quem a convidou?

A pergunta, formulada com alguma irreverência, contém um problema linguístico sério. Precisamos distinguir pelo menos três operações: significar, representar e evocar.

Se digo:

Perdi a chave de casa.

Chave designa determinado objeto.

Se, ao ouvir a frase, alguém imagina a porta de sua casa, essa porta não se converteu por isso em significado lexical de chave. Foi evocada por uma relação entre experiências e conhecimentos.

Se digo, porém:

Encontramos a chave do problema.

ocorre algo diferente. Estamos diante de uma acepção metafórica já convencionalizada pelo uso: chave designa, nesse contexto, aquilo que permite compreender, decifrar ou resolver alguma coisa. O falante não precisa reinventar a metáfora todas as manhãs.

Misturar esses fenômenos seria transformar toda associação mental em significado — e, nesse caso, cada palavra precisaria de um dicionário particular para cada falante, empreendimento que talvez entusiasmasse os lexicógrafos apenas até a hora do almoço.


Lapa depois de Lapa


A linguística posterior permite redescrever com maior precisão parte daquilo que Lapa percebeu intuitivamente.

Hoje falaríamos, conforme o fenômeno examinado, em redes semânticas, associações conceptuais, frames, metáfora, metonímia, conhecimento enciclopédico e cognição corporificada.

É necessária, contudo, uma cautela. Não se trata de descobrir retrospectivamente em Rodrigues Lapa teorias que ele não formulou. Nenhum desses conceitos contemporâneos equivale simplesmente à sua parafantasia. Trata-se, antes, de reconhecer que algumas de suas observações encontraram posteriormente instrumentos teóricos mais precisos de descrição.

Lapa fica, assim, mais moderno quando não o obrigamos a ser contemporâneo.

Tomemos uma palavra banal:

hospital.

Ela não significa médico, enfermeira, corredor, ambulância, doença, cura, espera, medo ou nascimento.

Entretanto, qualquer desses elementos pode ser ativado quando a ouvimos.

Há uma espécie de cenário organizado em torno do conceito. Em certos modelos da linguística cognitiva, falaríamos em frames: estruturas de conhecimento nas quais um conceito permite ativar outros conceitos relacionados.

O mesmo acontece com:

restaurante → garçom, mesa, cardápio, comida, conta;

tribunal → juiz, advogado, sentença, processo;

aeroporto → avião, viagem, mala, passaporte, partida.

Não carregamos apenas um catálogo de palavras. Carregamos redes de experiências e conhecimentos nas quais as palavras encontram lugar.


A palavra também passa pelo corpo


Há outro ponto em que podemos avançar além da terminologia de Lapa.

Quando ele fala em “imagens”, a expressão pode sugerir pequenas fotografias interiores. Nossa experiência lexical, porém, é muito mais ampla.

Veludo pode provocar uma antecipação tátil.

Sirene, uma experiência auditiva.

Limão, uma reação gustativa.

Perfume, uma lembrança olfativa.

Infância talvez não produza imagem alguma claramente delimitada, mas uma atmosfera afetiva.

A palavra pode articular-se, portanto, com percepção, memória, emoção, conhecimento e experiência corporal. Não precisa fabricar uma fotografia mental para produzir efeitos.

E aqui começa a parte mais delicada: duas pessoas podem compreender perfeitamente a mesma palavra e, contudo, ser conduzidas por ela a lugares diferentes.


Dez cafés, dez caminhos


Façamos um pequeno experimento imaginário. Pronuncie-se apenas:

café.

Uma pessoa pensa numa xícara.

Outra, na manhã.

Outra, no aroma.

Outra, no trabalho.

Outra, numa fazenda.

Outra, numa conversa.

E alguém talvez se lembre imediatamente da avó.

Ora, avó não figura entre as acepções de café. Nenhum dicionário razoável registrará:

café, s.m. [...] 7. avó do consulente, especialmente quando servia café às quatro da tarde.

E fará muito bem.

Mas nem todas essas relações possuem o mesmo estatuto.

Café designar uma bebida pertence ao significado linguisticamente compartilhado. Associá-lo à manhã pode decorrer de hábitos culturais amplamente partilhados. Fazê-lo trazer à memória uma determinada avó pertence à história autobiográfica de um falante.

Temos, portanto, uma gradação importante:

significado linguístico → associação cultural → associação autobiográfica.

As fronteiras nem sempre serão absolutamente nítidas, mas a distinção impede que coloquemos no mesmo saco — esse recipiente conceitual onde tantas teorias encontraram morte prematura — aquilo que pertence à língua, aquilo que pertence a uma cultura e aquilo que pertence à memória individual.

Chegamos, assim, ao ponto em que a antiga parafantasia de Lapa toca um problema muito maior: quanto daquilo que uma palavra provoca pertence à língua e quanto pertence à experiência de quem a recebe?


O escritor escreve menos do que o leitor lê


Para a estilística, a consequência é extraordinária.

Um escritor escolhe uma palavra, mas não controla inteiramente aquilo que ela fará na consciência do leitor.

Machado escreve janela. A língua fornece determinada significação; o contexto seleciona possibilidades; a construção literária orienta nossa leitura. Mas cada leitor chega ao texto carregando também suas próprias janelas.

Isso não significa, naturalmente, que qualquer interpretação seja admissível. O texto impõe restrições, a língua estabelece convenções, o contexto elimina possibilidades e os gêneros criam expectativas. A liberdade interpretativa não é uma república sem Constituição.

Existe, contudo, uma margem inevitável na qual o texto encontra a biografia cognitiva de quem o lê.

É justamente nessa fronteira que evocação e interpretação se aproximam sem se confundirem.

Talvez pudéssemos formular assim:

A língua fornece possibilidades; o contexto seleciona; a experiência reverbera.

E estilo também é saber explorar essa reverberação.

O grande escritor não precisa descrever tudo. Às vezes escolhe precisamente a palavra capaz de fazer o leitor completar aquilo que não foi escrito. Uma campainha pode trazer uma visita; um lenço, uma despedida; uma cadeira vazia, alguém que já não está. O objeto nomeado permanece diante de nós, mas o texto trabalha também com seus ausentes.

Talvez aí resida parte do poder da literatura: fazer comparecer sem nomear.


A vida clandestina das palavras


Volto, então, à década de 1980.

É curioso perceber que a melhor demonstração que hoje encontro da ideia de Rodrigues Lapa talvez não esteja entre os exemplos reunidos em sua Estilística da Língua Portuguesa.

Está na própria palavra parafantasia.

Durante mais de quarenta anos ela permaneceu em algum lugar da memória, associada a fantasia, ao livro de Lapa, aos estudos de Letras e à surpresa juvenil diante de uma palavra que parecia ter sido inventada especialmente para explicar uma propriedade extraordinária das próprias palavras.

Bastou reencontrá-la.

E vieram as outras.

Lapa queria mostrar que uma palavra pode despertar representações que não correspondem diretamente àquilo que ela nomeia. Décadas depois, seu próprio termo realizou a experiência: parafantasia não significa anos 1980; não significa curso de Letras; não significa juventude; tampouco significa um livro reaberto tantos anos depois.

E, no entanto, trouxe tudo isso consigo.

Talvez seja essa a lição mais bonita escondida naquele velho capítulo de estilística: as palavras têm uma vida pública, registrada nos dicionários, e outra, clandestina, construída nos encontros que tiveram conosco.

A primeira permite que nos compreendamos.

A segunda ajuda a explicar por que, dizendo as mesmas palavras, jamais dizemos — nem ouvimos — exatamente as mesmas coisas.

Certas palavras nomeiam uma coisa. Outras, sem nomeá-las, devolvem-nos muitas.


 
 
 

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