Palavras a menos a cada dia: viraremos zumbis? Ubi sapiens?
- gleniosabbad
- 19 de ago.
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Conveniência tecnológica, empobrecimento lexical e a crise do pensamento complexo
Por Glênio S Guedes (advogado)
A humanidade, em seu perpétuo afã de poupar suor, atritos e os maçaricos inevitáveis da convivência, parece ter finalmente descoberto a fórmula magistral para livrar-se do incômodo de conviver. Segundo atestam Valeria Pfeifer e Matthias Mehl em pesquisa trazida a lume pela imprensa científica, o bípede contemporâneo fala cerca de trezentos e trinta e oito vocábulos a menos por dia a cada ano transcorrido desde 2005. Ao cabo de pouco mais de uma década e meia, essa sangria discreta culminou em uma queda vertiginosa de quase trinta por cento no acervo verbal cotidiano — de uma média outrora farta de quase dezesseis mil palavras diárias para minguados doze mil termos no cômputo mais recente. Celebre-se o triunfo do progresso: suprimiu-se o vizinho intempestivo no balcão da padaria, baniu-se o gracejo ingênuo do funcionário do caixa e erradicou-se o desconforto dos olhares furtivos no elevador, tudo em favor de um totem de autoatendimento assepticamente polido e de um par de toques em telas de cristal líquido.
Essa marcha resoluta em direção ao mutismo atende, nos dias correntes, pelo rótulo garrido de me-maxxing, a engenhosa obsessão por extrair de cada fração de segundo o sumo da utilidade pessoal. Na lógica inflexível da conveniência mercantilizada, a espera tornou-se o mais infame dos pecados capitais e a conversa miúda, um desperdício intolerável de patrimônio temporal. Se o tempo é a moeda soberana da modernidade, qualquer segundo gasto a contemplar o tempo chuvoso com um estranho assemelha-se a uma dilapidação criminosa da própria fortuna cronológica. O sujeito apressado regozija-se ao receber o almoço ensacado à porta ou ao passar as compras pelo leitor de código de barras sem emitir um único som gutural; economizou, com efeito, dois minutos e meio de existência, que prontamente reinvestirá na contemplação hipnótica de pequenos retalhos de vídeo gerados por algoritmos benevolentes.
Ocorre que, nessa contabilidade de feirante das horas, trocou-se a imperfeição síncrona do diálogo vivo pelo sossego covarde das mensagens assíncronas. A conversa presencial, artefato vetusto que a modernidade tenta desinfectar, impõe exigências tirânicas: reclama a presença do corpo, a agilidade do raciocínio em ato, a modulação instantânea do tom de voz e uma certa dose de coragem para suportar a resposta inesperada do semelhante. A tela, em contrapartida, oferece o conforto de um purgatório asséptico, onde uma interpelação incômoda pode repousar esquecida por horas a fio sob o pretexto de ocupação inadiável, permitindo que a criatura calcule, revise e simule uma polidez que não sente antes de redigir um monossílabo seguro. Não se conversa mais; transmitem-se despachos protocolares.
A consequência de tal assepsia social manifesta-se no empobrecimento impiedoso do tecido urbano e do próprio espírito. Conforme adverte a geógrafa Jessica Finlay, assiste-se à morte lenta dos chamados "terceiros lugares" — aqueles territórios neutros e despretensiosos onde as pessoas outrora aprendiam a arte da vizinhança e expandiam seu "portfólio relacional". O supermercado, a quitanda e a praça deixaram de ser cenários para o cultivo da "ciência dos pequenos encontros" e converteram-se em esteiras de trânsito rápido, projetadas para o indivíduo entrar, pagar sem falar com ninguém e retirar-se velozmente antes que a presença alheia ameace sua bolha de serenidade atomizada.
Contudo, a linguagem humana é uma deusa caprichosa que não tolera a negligência continuada; ela não se vinga com algazarras ruidosas, mas com a dessecação gradual do intelecto. Ao amputar as microinterações cotidianas que funcionavam como a ginástica elementar do vocabulário ativo, o indivíduo opera uma mutilação voluntária da própria capacidade expressiva. A palavra que não se pronuncia acaba esquecida, e o conceito que não encontra signo verbal definha no recôndito da mente. Menos vocábulos mobilizados resultam, forçosamente, em um instrumental mais tosco para recortar e nomear as vicissitudes da existência: as antíteses delicadas, as dores complexas, as ironias sutis e as modulações éticas cedem lugar a categorias rasas, pautadas por um vocabulário binário e funcional de comandos pré-programados.
É nesse terreno esterilizado que se instaura o império nefasto do pensamento mosaico. Privada da cadência longa da prosa viva, da paciência do argumento encadeado e da tessitura dialógica da fala, a mente humana deixa de estruturar raciocínios contínuos e articulados para converter-se em um depósito caótico de fragmentos justapostos. O mosaico mental acolhe a manchete apressada, a notificação súbita e o clichê pré-fabricado, mas recusa-se terminantemente ao trabalho árduo da imaginação sintética. Ora, a imaginação genuína necessita da palavra viva para fecundar ideias e do tempo desocupado para amadurecê-las; quando todo intervalo de ócio é rotulado de "tempo desperdiçado" e toda interação é reduzida a um comando mecânico, o devaneio reflexivo é sumariamente degolado no altar da produtividade estéril.
A criatura resultante desse prodígio civilizatório caminha com passos céleres, fones de ouvido herméticos e agenda impecavelmente otimizada, nutrindo a doce ilusão de ter subjugado o tempo, embora já não guarde em si repertório linguístico bastante para discernir o que fazer da própria consciência. O zumbi hodierno não rasteja pelas brumas de cemitérios góticos em busca de carnes perecíveis; desliza lépido pelos corredores funcionais da cidade contemporânea, engravatado ou despojado, perfeitamente alimentado por aplicativos e regiamente atendido por máquinas. Não grita, não divaga, não se espanta nem se demora em contemplações inúteis. É o autômato perfeito: um ser cuja mudez crônica é celebrada como eficiência, cuja solidão custa bilhões aos cofres públicos e cujo pensamento, outrora capaz de erguer catedrais metafóricas, contenta-se hoje em clicar docilmente no botão que confirma a próxima entrega sem o risco de ter de dizer "bom dia".
Ubi sapiens?!...


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