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O Peru antes de Mendoza: onde começou o vinho na América do Sul?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 21 de ago.
  • 5 min de leitura

Das primeiras videiras às uvas criollas: como o Peru se tornou o primeiro grande território vitivinícola sul-americano

“A posteridade distribui as glórias com admirável segurança; às vezes esquece apenas de consultar as datas.”

Ao Prof. Dr. Sergio Kahn, profissional de reconhecimento internacional, diante de quem — suspeito — até René Lefort e Pachacútec se curvariam. Cada qual, naturalmente, por suas próprias razões.


Por Glênio S Guedes (advogado)


Quando os espanhóis chegaram ao Peru, a videira já atravessara o Atlântico, passara pelo Caribe e alcançara o México. Não foi, portanto, no Peru que começou a vitivinicultura das Américas.

Resolvido o assunto, cuidemos do que realmente interessa: foi no Peru que a vitivinicultura primeiro se estabeleceu e se desenvolveu de maneira significativa na América do Sul.

Muito antes de Mendoza transformar o Malbec quase numa nacionalidade, a videira já lançava raízes no antigo território inca.


A vinha chega depois da espada


A conquista espanhola trouxe soldados, instituições, trigo, animais domésticos, religião e videiras. Estas últimas tinham, aliás, poderoso aliado: a celebração eucarística necessitava de vinho.

O altar pedia vinho. O comércio, pouco dado à ascese, percebeu que seria desperdício produzi-lo somente para o altar.

No artigo “Os vinhos do Peru — Parte 1”, publicado no Vinotícias por Márcio Oliveira, atribui-se a Francisco de Carabantes a importação das primeiras videiras e menciona-se Bartolomé de Terrazas entre os pioneiros dos primeiros plantios de maior dimensão.

As datas variam conforme se esteja falando da chegada das mudas, do plantio, da primeira vindima ou da vinificação. Convém não exigir do século XVI a gentileza burocrática do século XXI.

O essencial é mais seguro: em meados daquele século, a vinha já estava estabelecida no Peru e rapidamente deixava de ser experiência agrícola para tornar-se atividade econômica.

O mesmo artigo associa Marcahuasi, na região de Cusco, às primeiras experiências de vinificação e descreve o posterior deslocamento do centro vitícola para a costa, sobretudo para Ica, seguindo-se a expansão por Arequipa, Moquegua e Tacna.

E que cenário curioso encontrou a videira: deserto, dunas, precipitação escassa, Andes de um lado, Pacífico do outro.

O deserto, evidentemente, não havia sido informado de que não deveria produzir vinho.


Quando a vinha virou vitivinicultura


A primazia peruana torna-se realmente interessante quando abandonamos a pergunta “quem plantou primeiro?” e fazemos outra:

onde a vinha primeiro se transformou numa cultura produtiva sul-americana?

No Peru, extraordinariamente cedo.

Segundo Márcio Oliveira, no Vinotícias, por volta de 1560 já se comercializavam “vinhos locais”, seguindo-se uma expansão que faria do Peru importante produtor colonial.

A vinha já significava produtores, técnicas, vinificação, transporte, comércio e consumidores. Em outras palavras, havia vitivinicultura.

O êxito acabaria esbarrando nos interesses econômicos metropolitanos. O mesmo artigo relata restrições impostas pela Coroa espanhola à produção peruana e associa esse contexto ao crescimento da aguardente vínica. Não é necessário adotar sem ressalvas uma causalidade tão linear; processos econômicos raramente obedecem à simplicidade de uma receita culinária.

O fato historicamente relevante é que o pisco se tornaria a grande expressão peruana da uva e, paradoxalmente, ajudaria a conservar variedades antigas que hoje retornam às mãos dos produtores de vinho.

O destilado que eclipsou o vinho terminou preservando parte de sua memória.


As uvas começam a contar a história


É aqui que a história peruana fica ainda mais fascinante.

Quando se consulta o material institucional da Bodega Murga, localizada no Vale de Pisco, somos informados de que a Negra Criolla, anteriormente chamada Negra Corriente, procede da espanhola Listán Prieto — denominada pela própria bodega também Listán Prieta. Citando o pesquisador Guillermo Toro-Lira, a Murga afirma que ela teria sido a primeira cepa trazida pelos espanhóis ao Peru e aquela com que se teria produzido o primeiro vinho no território.

O condicional importa.

A videira, infelizmente, não assinou o livro de visitas.

Mas a Negra Criolla interessa independentemente da disputa pela primeira muda. Ela funciona como um documento vegetal da colonização: videiras europeias atravessaram o oceano, viajaram pela América, receberam novos nomes, adaptaram-se e começaram a cruzar-se.

E a Espanha, depois de trazer suas uvas, assistiu involuntariamente ao nascimento de uvas americanas.

A própria Bodega Murga apresenta a Quebranta como resultante da combinação entre Negra Criolla e Mollar, ambas de ascendência espanhola. A genealogia merece, naturalmente, confirmação genética independente; mas o fenômeno histórico é extraordinário.

Os ancestrais vieram da Europa.

Algumas descendentes nasceram na América.

O artigo de Márcio Oliveira identifica, entre as chamadas uvas patrimoniais peruanas, Quebranta, Mollar, Negra Criolla, Torontel, Moscatel Negro del Perú, Albilla e Italia.

E os nomes guardam suas próprias armadilhas.

No material da Bodega Murga, por exemplo, a Italia é identificada como Moscatel de Alexandria, amplamente cultivada na costa sul peruana.

A uva, ao que parece, viaja com mais facilidade que o passaporte — e troca de nome sem consultar o cartório.


As uvas que estavam lá antes de sabermos quem eram


A genética acrescentou recentemente outro capítulo.

Na matéria “Novas seis variedades viníferas são identificadas no Peru”, Paula Daidone relata pesquisas realizadas pelo Instituto de Biotecnología da Universidad Nacional Agraria La Molina, no Peru, e pelo Instituto de Investigaciones Agropecuarias, no Chile. Testes de DNA identificaram, em Caravelí, seis variedades: Jaén, Cantarilla, Ceniza ou Mulata, Negra de Caravelí, Loca e Moscatel Negra Rubío.

Segundo a matéria, Jaén e Cantarilla são cruzamentos naturais envolvendo Negra Criolla e uma variante local do Moscatel de Alexandria e apresentaram interesse particular para vinificação por seus níveis de acidez tartárica. As outras quatro foram descritas como mutações relacionadas à Negra Criolla e ainda exigem investigação mais aprofundada quanto à maturação e às características organolépticas.

Não são necessariamente uvas que acabaram de nascer.

São uvas que estavam lá antes de sabermos exatamente quem eram.


Antes de Mendoza


Depois, o mapa mudaria.

Chile e Argentina desenvolveriam grandes indústrias vitivinícolas. Mendoza faria do Malbec uma celebridade mundial. O Peru seguiria trajetória diferente, e o pisco ocuparia grande parte do espaço cultural que o vinho tivera.

A posteridade realizou então uma de suas pequenas travessuras: confundiu precedência histórica com fama posterior.

Hoje pensamos em vinho sul-americano e Mendoza chega imediatamente à conversa. Ica precisa ser apresentada.

Mas foi no Peru que a vinha primeiro criou raízes suficientemente profundas para constituir uma cultura vitivinícola significativa na América do Sul. E talvez sua contribuição mais fascinante esteja justamente nas videiras que atravessaram os séculos.

Negra Criolla. Mollar. Quebranta. Albilla. Italia. Torontel. E agora Jaén, Cantarilla e outras variedades cuja identidade a genética começa a esclarecer.

O Peru não precisa proclamar que inventou o vinho americano.

Possui história melhor.

Recebeu videiras europeias, transformou-as em cultura sul-americana e assistiu ao nascimento de novas variedades deste lado do Atlântico.

Depois veio Mendoza.

Depois veio o Malbec.

E, como frequentemente acontece nas famílias antigas, o descendente tornou-se tão famoso que quase ninguém perguntou quem já estava sentado à mesa.

O Peru estava.

E algumas de suas uvas ainda estão.


 
 
 

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