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O Necrotério das Ilusões: Ensaio de Patologia Institucional Contemporânea

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 21 de ago.
  • 4 min de leitura
«À medida que a civilização acelera, a anatomia perde a compostura geométrica: a violência já não nos visita com a rudeza simétrica do ferro, mas com a fúria cominutiva dos motores em alta velocidade.»

Por Glênio S Guedes (advogado)


A cada dia aprendo mais e mais com meus estimados clientes e diletos amigos médicos. São eles que, entre uma consulta despretensiosa e uma digressão sobre as misérias do bípede sem penas, vão me provendo de preciosos instrumentos heurísticos para melhor dissecar o cadáver político contemporâneo — não apenas este nosso, tropical e claudicante, mas o próprio espécime planetário, estendido sobre o mármore da história com a mesma docilidade com que os mortos recebem a calmaria do necrotério. Confesso que a medicina, longe de curar a minha desilusão, refinou-lhe o método e a lâmina. Quando contemplo os solenes estadistas de hoje, os profetas das esquerdas redentoras e os arautos das direitas impolutas, já não vejo homens de tribuna: vejo corpos de prova prestes a experimentar as leis inflexíveis da mecânica óssea e as dosagens letais do éter ideológico.


I. Da Mecânica das Rupturas e Outros Traumas de Ocasião


Houve outrora um ilustre cirurgião francês chamado René Le Fort que, impaciente com a opacidade dos vivos, resolveu desvendar a fragilidade da face humana aplicando porretes, prensas mecânicas e impactos calculados sobre crânios inanimados em seu laboratório. Descobriu ele que a ossatura do semblante não se desfaz ao acaso; cede antes por linhas predestinadas de fraqueza, como se a própria natureza já houvesse desenhado a rota exata da nossa ruína fisionômica.


Pois bem. A política dos nossos dias nada mais é do que a reedição desse venerável experimento, operada não em cadáveres de morgue, mas no próprio tecido das repúblicas:


  • O Trauma Alveolar Subalterno: Ocorre naqueles espasmos rotineiros de parlamento em que o impacto da demagogia descola apenas a arcada dentária da nação. É o entrevero miúdo, a troca de favores de corredor, a CPI de auditório. Os parlamentares vociferam, mordem o ar, exibem os caninos aos seus respectivos rebanhos nas redes eletrônicas, mas a estrutura superior permanece intacta. Trata-se de uma fratura rasa: mastiga-se muito mal a realidade, range-se a dentadura em discursos inflamados, porém o crânio do poder continua ali, sereno e inabalável, desfrutando do seu orçamento sem que um único nervo nobre seja perturbado.


  • A Pirâmide Ideológica: Quando a pancada atinge o centro da face, separando o nariz e as órbitas da base craniana, entramos no terreno dileto dos extremismos contemporâneos. A fratura assume a forma de um triângulo perfeito de conveniências. O cidadão perde simultaneamente o olfato para os descalabros dos seus pares e a acuidade visual para as virtudes do adversário. A visão torna-se monocromática e binária; enxerga-se conspiração em cada esquina e redenção em qualquer vigarista que empunhe a bandeira correta. O rosto da pátria fica afundado no centro, mas as partes laterais juram que o perfil jamais esteve tão altivo e altaneiro.


  • A Disjunção Crânio-Social: É o trauma de altíssima energia, reservado aos grandes caudilhos messiânicos e aos revolucionários de ocasião. Toda a face do Estado é arrancada da sua caixa craniana. A constituição flutua solta no vazio, sem conexão com o cérebro das leis, sustentada apenas por finos ligamentos de propaganda. O governante julga emitir ordens racionais, mas o rosto que o regime exibe ao mundo já não responde a impulso neural algum; mexe-se apenas pelo empurrão do ar e pelo peso da própria inércia.


II. O Inventário Pré-Operatório: As Categorias ASA 1 a 6


Para além da violência mecânica dos ossos esfacelados, a anestesiologia legou-nos um sistema rigoroso de aferição — a clássica escala da American Society of Anesthesiologists, concebida para quantificar o risco de o paciente expirar antes mesmo da primeira incisão:


  • ASA 1 (A Higidez Quimérica): O organismo perfeitamente são, isento de vícios e plenamente funcional. Na ordem pública, trata-se de uma entidade puramente mitológica, preservada apenas nos preâmbulos constitucionais e nas redações de bacharéis noviços.


  • ASA 2 (A Debilidade Compensada): Moléstia sistêmica leve que não impede a lida diária. É a democracia de compadrio, que convive em paz com sua dose habitual de nepotismo e inflação sazonal, tomando placebos a cada quatro anos com a firme convicção de que goza de saúde exemplar.


  • ASA 3 (O Populismo Crônico): Enfermidade grave com limitação funcional manifesta. O paciente público gasta o dobro do que arrecada, culpa o imperialismo estrangeiro ou o complô interno por suas dores viscerais, mas insiste em marchar em praça pública com as coronárias fiscais obstruídas.


  • ASA 4 (A Toxemia Institucional): Doença severa e descompensada que impõe risco constante de colapso. O tecido republicano entrou em tal paroxismo de polarização que qualquer sussurro ministerial desata palpitações nas bolsas de valores e convulsões nas altas cortes.


  • ASA 5 (A Agonia do Regime): O Estado moribundo, estendido na maca com as cavidades abertas. Opera-se de afogadilho não com esperança de cura, mas apenas para evitar o escândalo da certidão de óbito diante dos credores internacionais.


  • ASA 6 (O Espólio Mecanizado): Morte encefálica confirmada da inteligência cívica. O corpo da nação permanece aquecido unicamente por respiradores mecânicos de cargos em comissão e emendas secretas, com o propósito precípuo de permitir que as oligarquias dominantes façam a captação e o transplante das últimas verbas antes do sepultamento.


  • O Carimbo da Emergência (E): O aditivo predileto dos déspotas, aposto a qualquer classe para dispensar o diagnóstico prévio e cortar as liberdades do contribuinte a sangue-frio, sob o pretexto de salvar o que já está morto.


III. A Consolidação do Ridículo


Os cirurgiões improvisados da praça pública — devotos das seitas partidárias que se acotovelam para ditar a regeneração da pátria — disputam com ferocidade o direito de aplicar a placa de fixação na face partida da sociedade. Fingem ignorar que foram os seus próprios martelos de intolerância que provocaram o estilhaçamento geral.


Resta ao observador desenganado sentar-se na galeria mais alta do anfiteatro anatômico. Munido da mais refinada indiferença e da lâmina da galhofa, contempla o espetáculo dos viventes discutindo a cor do curativo, enquanto a civilização estala e desaba pelas mesmíssimas fraquezas que a vaidade humana jamais consentiu em suturar.

Desconjuntamos! A ossatura cedeu, a simetria desfez-se em pó e a fisionomia da pátria pende solta no vazio, divorciada da razão. Diante de tão esplêndido estrago, apaguemos as luzes do anfiteatro: a operação foi perfeita, mas o homem quebrou.

 
 
 

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