O filósofo chegou tarde?
- gleniosabbad
- há 2 dias
- 6 min de leitura
Machado de Assis já havia desconfiado de quase tudo
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” — Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
Por Glênio S Guedes (advogado)
Machado de Assis morreu em 1908, inconveniência cronológica que o impediu de ler os filósofos Karl Popper, Hans-Georg Gadamer, Michel Foucault e Paul Ricoeur, bem como o sociólogo Erving Goffman. Estes, por sua vez, tiveram a vantagem de chegar depois. Não se conclua daí, naturalmente, que Machado lhes tenha escrito os livros. Seria exigir demais de um homem que já tivera o trabalho de escrever os seus.
A pergunta, contudo, permanece: terá Machado antecipado algumas das grandes questões da filosofia e das ciências humanas do século XX?
A resposta pede cautela. Machado não formulou a falseabilidade popperiana, não concebeu a hermenêutica filosófica de Gadamer, não escreveu uma genealogia foucaultiana das instituições disciplinares nem elaborou a teoria ricoeuriana da identidade narrativa. Tampouco inventou a sociologia dramatúrgica de Goffman. Atribuir-lhe retrospectivamente tais sistemas seria tão lisonjeiro quanto inexato — espécie de homenagem em que o homenageado recebe flores e perde a identidade.
O que Machado fez foi talvez mais interessante: dramatizou, pela literatura, problemas que pensadores posteriores converteriam em conceitos. A filosofia demonstrou, distinguiu, sistematizou; Machado pôs as ideias para conversar, desejar, enlouquecer, herdar fortunas, fundar hospícios, desconfiar de esposas e morrer sem ter vivido muito bem. Cada ofício com sua ferramenta.
Algumas batatas para Popper
Em Quincas Borba, o Humanitismo oferece uma explicação universal da existência. Duas tribos famintas disputam um campo de batatas insuficiente para ambas; vence a mais forte, alimenta-se e sobrevive. “Ao vencedor, as batatas.”
A teoria explica a vitória, a derrota, a guerra, a fome e até a morte. Nada parece capaz de contradizê-la, porque qualquer acontecimento confirma, por vias mais ou menos digestivas, a majestade de Humanitas. Eis sua força retórica e sua indigência epistemológica: uma teoria que explica tudo corre o risco de não explicar coisa alguma.
Décadas depois, Karl Popper colocaria no centro da filosofia da ciência o problema da falseabilidade. Uma teoria científica deve expor-se à possibilidade de entrar em conflito com alguma observação concebível; se todos os resultados imagináveis puderem ser acomodados em seu interior, teremos talvez uma doutrina, uma metafísica ou um engenhoso cofre de convicções — ciência, não necessariamente.
O Humanitismo, é claro, não constitui propriamente uma teoria empírico-científica. É uma filosofia fictícia, paródica e totalizante. A aproximação com Popper não pretende, portanto, submetê-lo a testes de laboratório, entre lâminas e tubérculos. Machado construiu um sistema interpretativo capaz de absorver qualquer fato sem jamais se deixar contradizer por ele. Popper ofereceria um critério de demarcação; Machado ofereceu batatas. Não se despreze o tubérculo: certas ideias entram mais facilmente na história quando acompanhadas de molho.
Gadamer encontra Bentinho
Se Quincas Borba suscita uma questão epistemológica, Dom Casmurro constitui um laboratório hermenêutico.
A pergunta mais repetida — Capitu traiu Bentinho? — talvez seja menos importante do que outra: como sabemos aquilo que julgamos saber sobre Capitu?
Não temos acesso direto aos acontecimentos. Temos Bento Santiago, já envelhecido, reconstruindo o passado por meio da memória, do ciúme, da linguagem e do propósito confessado de “atar as duas pontas da vida”. Entre Capitu e o leitor interpõe-se um homem que seleciona, interpreta e narra; e que pretende recompor a antiga casa como se paredes semelhantes garantissem uma verdade semelhante. A arquitetura, como certos depoimentos, pode ser fiel nos detalhes e fraudulenta no conjunto.
Hans-Georg Gadamer mostraria, em Verdade e método, que ninguém compreende a partir de lugar nenhum. Toda interpretação ocorre dentro de um horizonte historicamente constituído, formado por tradições, expectativas, perguntas e preconceitos — palavra que, em sua hermenêutica, não designa apenas juízos irracionais, mas as pré-compreensões com as quais nos aproximamos do mundo.
Isso não significa que o intérprete esteja encarcerado em sua subjetividade. O horizonte condiciona a compreensão, mas pode ser interrogado e transformado no encontro com aquilo que se procura compreender. Interpretar é também expor os próprios preconceitos ao risco do diálogo.
Bentinho interpreta Capitu a partir de seu horizonte. Nós interpretamos Bentinho a partir do nosso. E Machado, suprema descortesia, não nos concede um tribunal exterior à narrativa, guarnecido por câmeras, perícia técnica e uma Capitu disponível para contraditar o marido.
O romance não demonstra a hermenêutica gadameriana. Mostra, entretanto, que o acontecimento não chega intacto ao leitor: passa pela memória, pela perspectiva e pela forma narrativa. Quem acredita estar julgando Capitu talvez esteja apenas ouvindo a sustentação oral de Bento Santiago — advogado, parte interessada e relator de si mesmo.
Bacamarte abre a porta para Foucault
Em O Alienista, Simão Bacamarte pretende estabelecer cientificamente a fronteira entre razão e loucura. O projeto começa com a serenidade dos empreendimentos destinados ao bem comum e termina internando quase toda Itaguaí. Quando a quantidade de loucos se torna inconvenientemente majoritária, Bacamarte revê a teoria: anormais talvez sejam os equilibrados. A ciência progride; os habitantes entram e saem da Casa Verde conforme a hipótese da semana.
Seria simplista considerar a novela apenas uma sátira à medicina. Seu problema mais profundo está na relação entre saber, classificação, instituição e coerção. Bacamarte não se limita a formular conceitos: possui autoridade para transformar diagnósticos em confinamento.
Foucault examinaria, em História da loucura na Idade Clássica, a constituição histórica das divisões entre razão e desrazão; e, mais tarde, em Vigiar e punir, os mecanismos de exame, normalização e poder disciplinar. O exame não apenas descobre uma verdade supostamente escondida no indivíduo: ajuda a constituí-lo como “caso”, objeto simultâneo de conhecimento, correção e controle.
O Alienista não é uma História da loucura em miniatura, nem Bacamarte um diretor de estabelecimento foucaultiano extraviado no Brasil oitocentista. Há, porém, uma inquietação comum: quem pode definir o normal — e o que acontece com aqueles que ficam do lado errado da definição?
Machado percebeu que classificar nunca é operação inteiramente inocente quando o classificador guarda a chave da porta.
Uma farda à espera de Goffman
Em “O espelho”, o alferes Jacobina sustenta que cada pessoa possui duas almas: uma interior e outra exterior. Sua identidade modifica-se quando recebe a patente e passa a ser tratado como “senhor alferes”. A farda, o reconhecimento alheio e o lugar social não apenas ornamentam um eu previamente completo; participam de sua constituição.
Quando fica sozinho e privado dos olhares que confirmavam sua posição, Jacobina quase desaparece diante do espelho. Só volta a reconhecer-se ao vestir a farda.
Muito depois, o sociólogo Erving Goffman analisaria, em A representação do eu na vida cotidiana, a vida social mediante as metáforas do palco, da representação e dos papéis desempenhados perante os outros. Não significa que Machado tenha redigido antecipadamente a sociologia dramatúrgica. Significa que percebeu, com sua implacável delicadeza, que a máscara não se limita a esconder o rosto: às vezes, ajuda a fabricá-lo.
Retirem-se a farda, o título, a profissão, a reputação e o olhar dos demais; veremos então quanto sobra do indivíduo — experiência que quase todos defendem em teoria e poucos se dispõem a realizar depois de impresso o cartão de visitas.
Ricoeur e as pontas da vida
Machado também desconfiou da memória. Em seus romances, recordar raramente equivale a retirar do arquivo uma reprodução intacta do passado. A lembrança seleciona, organiza, omite, acentua e procura dar coerência tardia àquilo que, enquanto vivido, talvez não a possuísse.
Paul Ricoeur investigaria, em Tempo e narrativa e O si-mesmo como outro, como o sujeito compreende a própria identidade ao configurar narrativamente sua vida. Em A memória, a história, o esquecimento, examinaria mais diretamente a recordação, suas fragilidades, seus usos e sua pretensão de fidelidade ao passado.
Brás Cubas escreve depois de morto; Bentinho narra depois de envelhecido. Ambos usufruem aquela distância que favorece a lucidez e também a fraude. O defunto declara-se franco porque já não precisa agradar aos vivos. A vantagem parece considerável, embora não nos seja possível interrogar a morte acerca de seus métodos de verificação.
A literatura estava pensando
Machado antecipou esses pensadores?
Se “antecipar” significar formular antes deles suas teorias, a resposta é não. A aproximação apagaria diferenças históricas, metodológicas e conceituais. Transformaria romances em tratados disfarçados e personagens em exemplos obedientes de teorias futuras. Machado não merece semelhante castigo pedagógico.
Se, porém, a palavra designar a percepção literária de problemas que depois receberiam elaboração sistemática, a resposta será afirmativa. Machado investigou a invulnerabilidade dos sistemas, a dependência interpretativa da verdade narrada, a produção institucional da normalidade, a constituição social da identidade e a reconstrução narrativa da memória.
Talvez, contudo, ainda estejamos fazendo a pergunta errada.
Ao indagar se Machado “se antecipou” à filosofia, pressupomos discretamente que pensar seja prerrogativa do conceito e que a literatura somente alcance dignidade intelectual quando recebe, no futuro, a confirmação de algum filósofo. Seria como elogiar Capitu por ter sido compreendida por Gadamer ou conceder cidadania epistemológica às batatas porque Popper apareceu.
A literatura não precisa esperar a filosofia para pensar. Ela pensa de outro modo: cria situações nas quais uma ideia adquire corpo, voz, interesse, vaidade e consequências. O conceito pergunta o que é a interpretação; Machado entrega-nos Bentinho. A teoria examina a normalização; Machado abre a Casa Verde. A sociologia investiga os papéis sociais; Jacobina veste a farda. A epistemologia desconfia das explicações universais; Quincas Borba distribui as batatas.
O filósofo, portanto, talvez não tenha chegado tarde. Fomos nós que demoramos a perceber que Machado já estava pensando — e que, enquanto pensava, teve ainda a cortesia de nos fazer rir. Cortesia relativa, naturalmente: quase sempre descobrimos, depois da risada, que o objeto do gracejo éramos nós.


Comentários