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O Deus do Vinho em Os Lusíadas: as artimanhas de Baco na maior epopeia da língua portuguesa

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 15 de mar.
  • 4 min de leitura
“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,Que outro valor mais alto se alevanta.”— Os Lusíadas, Canto I

Por Glênio S Guedes ( advogado )


I — Um deus de taça na mão e sobrancelha franzida


Convém começar com uma pequena surpresa literária. Em Os Lusíadas, a maior epopeia da língua portuguesa, repleta de mares bravios, gigantes, ninfas e máquinas do mundo, o grande antagonista da viagem portuguesa não é Marte, deus da guerra, nem Netuno, senhor dos oceanos.

É Baco.

Sim, o deus do vinho. 🍷

À primeira vista, a escolha parece capricho poético. Mas Camões, convém lembrar, não era homem de improvisos intelectuais. Seu verso é trabalhado como lavoura antiga: cada palavra nasce de um cálculo de tradição, retórica e erudição.

Logo no início da obra, quando o poeta convoca as forças míticas do Olimpo, já percebemos que há uma disputa celestial em curso. Enquanto Vênus se mostra favorável aos portugueses, Baco se inquieta — e inquieta-se não pouco.

O motivo é revelado com franqueza quase psicológica: ciúme histórico.

Segundo o imaginário clássico que Camões mobiliza, Baco teria sido o grande conquistador do Oriente. Fora ele, na tradição antiga, quem primeiro avançara até a Índia. Ora, se os portugueses chegassem ali por mar, fariam o que nem os heróis da Antiguidade haviam feito.

Em linguagem moderna: Baco teme perder prestígio.

E o poeta o diz sem rodeios.

“Baco, que em ver que os fortes Lusitanos
À Índia navegavam, se indigna,
Temendo que seus feitos soberanos
Fiquem na memória humana em ruína.”

O deus do vinho revela, assim, um traço muito humano: a inveja histórica.

É uma pequena lição de psicologia universal. Se até os deuses padecem desse mal, imagine-se o que acontece nas academias e nos ministérios.


II — O concílio dos deuses e a política do Olimpo


O primeiro grande momento dessa intriga ocorre no célebre Concílio dos Deuses.

Camões, seguindo a tradição épica de Homero e Virgílio, imagina Júpiter reunindo as divindades para decidir o destino da viagem portuguesa.

Ali, Baco levanta-se e apresenta seu argumento — não com taça na mão, como talvez esperassem os amantes de vinho, mas com a seriedade de um diplomata preocupado.

Ele sustenta que a chegada dos portugueses ao Oriente trará desordem e ruptura.

Na verdade, porém, o que teme é outra coisa: a perda de sua própria glória.

Vênus, por sua vez, intervém em defesa dos navegadores. E o argumento que usa é deliciosamente político: os portugueses são descendentes dos romanos, povo caro à deusa.

Temos então uma cena que poderia perfeitamente figurar num tratado de ciência política: deuses debatendo interesses, genealogias e prestígio simbólico.

O poeta, naturalmente, narra tudo em decassílabos impecáveis.


III — Baco, estrategista da sabotagem


Derrotado no concílio olímpico, Baco decide agir por conta própria.

E aqui começa uma sequência de artimanhas dignas de um manual de sabotagem diplomática.

O deus assume diferentes disfarces e tenta impedir a expedição portuguesa. Entre suas manobras:


  • provoca tempestades

  • incita inimigos

  • inspira desconfiança entre governantes orientais.


Em determinado momento, disfarça-se de muçulmano para convencer os governantes de Calicute de que os portugueses são perigosos.

A cena revela algo extraordinário: Camões transforma o mito em geopolítica poética.

O deus do vinho torna-se uma metáfora das resistências comerciais e culturais que Portugal encontrou no Índico.


IV — O deus do vinho e o drama do prestígio


Mas por que Camões escolhe justamente Baco?

A pergunta merece pausa.

Baco não é apenas o deus da embriaguez. Na tradição antiga, ele é também:


  • explorador

  • conquistador do Oriente

  • fundador de cultos.


Ao fazer dele o inimigo da viagem portuguesa, Camões cria um contraste simbólico poderoso.

A nova expansão marítima ultrapassa as conquistas míticas do passado.

Em outras palavras:os navegadores superam os heróis antigos.

Daí a famosa declaração programática da epopeia:

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

Não é pouca coisa. Camões anuncia, com discreta ousadia, que os feitos portugueses rivalizam com os de Homero e Virgílio.


V — Uma inveja divina bastante humana


Baco aparece, assim, como um personagem quase literariamente moderno.

Ele é:


  • ressentido

  • intrigante

  • persistente.


E talvez seja essa a razão pela qual o leitor contemporâneo simpatize um pouco com ele — ainda que torça pelos navegadores.

Porque Baco age exatamente como certos personagens da vida intelectual: quando não conseguem impedir uma realização histórica, tentam ao menos atrapalhá-la discretamente.

Machado de Assis certamente teria gostado dessa figura.

Imaginemos o cronista carioca comentando o caso: um deus do vinho que, em vez de brindar à aventura portuguesa, decide boicotá-la.

Talvez dissesse algo assim:

— O problema de Baco não era o vinho. Era a comparação.


VI — O triunfo final dos navegadores


Apesar das intrigas, a viagem portuguesa segue adiante.

A epopeia culmina com episódios grandiosos, como a Ilha dos Amores e a Máquina do Mundo, onde o poeta revela aos navegadores os segredos do cosmos.

Nesse momento, as artimanhas de Baco já não podem deter a marcha da história.

Camões celebra então os portugueses com versos que se tornaram símbolo da língua e da memória coletiva:

“Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana.”

A viagem triunfa — e com ela a própria ideia de expansão humana do conhecimento.


VII — Um brinde final (que Baco talvez recusasse)


No fim das contas, a presença de Baco em Os Lusíadas cumpre uma função literária brilhante.

Ele representa:


  • o passado mítico

  • a resistência à novidade

  • o ciúme das antigas glórias.


Os portugueses, por sua vez, simbolizam algo novo: a coragem de explorar o desconhecido.

Camões, com sua ironia renascentista, sugere que toda grande conquista desperta dois tipos de reação:

admiração — e inveja.

Os deuses não escapam à regra.

Assim, ao terminar a leitura da epopeia, talvez seja justo erguer uma taça imaginária — não apenas aos navegadores portugueses, mas também ao próprio Baco.

Porque sem sua inveja divina, a epopeia perderia parte de seu sabor.

E como sabem os amantes de vinho, certas notas amargas são precisamente o que tornam um grande vinho memorável. 🍷

 
 
 

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