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Literatura fermentada

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 9 de ago.
  • 4 min de leitura

Rabelais, o vinho e a arte de transformar o mundo em linguagem

“A vida é o vinho do homem.” Tratado do bom uso de vinho, atribuído a François Rabelais

Glênio S Guedes (advogado)


Alguns escritores constroem livros; François Rabelais prefere fermentá-los. Bíblia, medicina, direito, teologia, latim, provérbios, obscenidades, mitologia, filosofia, comida, excrementos, gigantes, monges, médicos e bêbados entram na mesma cuba. Ali se misturam, reagem, espumam. O que dela sai já não pertence inteiramente a nenhum desses mundos.

Talvez por isso o vinho seja muito mais que uma bebida em Rabelais. É quase uma teoria da literatura.

O curioso Tratado do bom uso de vinho torna essa hipótese especialmente sedutora, embora sua atribuição a Rabelais permaneça incerta. A obra chegou até nós por uma versão tcheca publicada em 1622, muitas décadas depois da morte do escritor, e pode muito bem constituir uma imitação de seu estilo. Pouco importa, para o argumento destas páginas, resolver uma autoria que a filologia prudentemente mantém entre interrogações. Se o texto não saiu da pena de Rabelais, saiu de algo talvez mais interessante para nós: da posteridade de sua linguagem.

Ali estão seus procedimentos, personagens, referências e, sobretudo, aquela extraordinária disposição para submeter as coisas mais graves ao teste da gargalhada.

Comecemos por Noé.

Segundo o Gênesis, depois do Dilúvio, Noé plantou uma vinha, bebeu de seu vinho e embriagou-se. Para o moralista, o episódio oferece matéria para uma advertência; para o espírito rabelaisiano, oferece matéria-prima. As águas recuam, a terra reaparece, planta-se a videira e o homem torna a beber. A civilização, aparentemente, recomeça pela agricultura, mas não demora a descobrir a adega.

Rabelais trata a tradição de modo semelhante: não como monumento diante do qual se deve permanecer de chapéu na mão, mas como matéria suscetível de nova fermentação.

Aristóteles, Hipócrates, as Escrituras, a medicina medieval, a sabedoria proverbial e a cultura popular são convocados incessantemente. O detalhe delicioso está em que a erudição não elimina o disparate; frequentemente lhe empresta diploma.

No Tratado, acumulam-se autoridades e raciocínios para demonstrar as virtudes do vinho e os perigos da água. Desfilam referências bíblicas, médicas e clássicas; doenças que o vinho supostamente curaria; inconvenientes provocados pela água; e até o casamento é chamado à causa, pois o vinho teria virtudes que, por delicadeza para com certos leitores e respeito pela botânica, poderíamos denominar fecundantes.

A técnica é admirável: primeiro vem a conclusão; depois, convocam-se as autoridades necessárias para prová-la. Método que, ao que parece, não morreu no Renascimento.

Seria pobre, contudo, enxergar aí apenas uma coleção de piadas sobre bêbados. O procedimento toca um dos nervos da escrita rabelaisiana: a mistura dos registros.

O sublime encosta no escatológico. Cristo encontra a taberna. Hipócrates divide espaço com o provérbio. A oração pode terminar numa garrafa, e uma discussão sobre medicina desembocar numa pilhéria corporal. Aquilo que a cultura oficial cuidadosamente separava — alto e baixo, espírito e ventre, sagrado e profano, erudito e popular — Rabelais põe novamente à mesa.

É nesse ponto que a fermentação deixa de ser metáfora decorativa e se torna chave interpretativa.

Fermentar não significa simplesmente misturar. A fermentação exige transformação — e exige tempo. Substâncias convivem, reagem umas sobre as outras e produzem algo que nenhuma delas continha isoladamente daquela maneira. Também a literatura rabelaisiana fermenta o tempo: recebe materiais acumulados durante séculos — Bíblia, Antiguidade clássica, medicina hipocrática, tradições medievais, escolástica, cultura popular — e os põe em contato dentro de uma língua nova.

O passado não é conservado em formol. É posto para fermentar.

Uma passagem bíblica entra na cuba e reaparece como comicidade. Um conceito médico encontra um provérbio obsceno. Uma palavra latina esbarra numa expressão popular. Uma autoridade venerável é citada para fundamentar uma conclusão desavergonhadamente absurda. Nada permanece inteiramente puro — felizmente, pois a pureza, quando aplicada com demasiado entusiasmo à literatura e às sociedades, costuma produzir resultados pouco recomendáveis.

Também as palavras parecem beber.

A enumeração cresce até o excesso; a hipérbole perde a compostura; os nomes proliferam; as listas parecem incapazes de terminar. No Tratado, Pantagruel teria ficado linguisticamente incapacitado depois de absorver 184.646 garrafas de vinho d’Anjou. A cifra é evidentemente absurda. E justamente por isso é exata — exata segundo a matemática do grotesco.

Rabelais não diz “muito” quando pode dizer cento e oitenta e quatro mil seiscentas e quarenta e seis.

Sua literatura pratica uma estética da abundância.

Isso ajuda a compreender também o corpo rabelaisiano. Bocas, gargantas, ventres, apetites, sede, digestão, sexo, doença, urina e excrementos ocupam a cena porque o homem de Rabelais não é uma inteligência que teve o infortúnio administrativo de receber um corpo. Ele pensa corporalmente.

E bebe socialmente.

A garrafa chama outra pessoa. Surgem companheiros, tabernas, brindes, canções e conversas. O vinho circula como circula a palavra: passa de mão em mão e de boca em boca. Beber e narrar pertencem, nesse sentido, à mesma economia da convivialidade.

Talvez esteja aí uma diferença instrutiva entre Rabelais e certa cultura contemporânea do vinho. Transformamos a bebida, algumas vezes, num exame. É preciso identificar cassis, grafite, couro, bosque úmido, tabaco, violeta e, se o nariz estiver particularmente inspirado, talvez o suspiro do viticultor numa terça-feira de outubro. Rabelais provavelmente beberia antes que terminássemos a ficha de degustação.

Nada disso torna inútil o vocabulário da análise sensorial; torna apenas risível a ocasião em que o vocabulário, embriagado de si mesmo, passa a acreditar que é mais importante que o vinho.

Porque vinho também é acontecimento humano.

Sua grandeza não reside somente no líquido, mas no mundo que se forma em torno da taça. O vinho rabelaisiano representa aquilo que põe as coisas em movimento: transforma uva em bebida, estranhos em convivas, tradição em paródia e palavras herdadas em palavras novas.

Assim ganha profundidade a sentença: “A vida é o vinho do homem”. Para além de qualquer apologia etílica, ela sugere transformação, circulação, prazer, encontro e criação.

Rabelais fez com a cultura o que o vinhateiro faz com a vindima.

Colheu-a.

Esmagou-a.

Misturou-a.

Deixou-a fermentar.

Cinco séculos depois, abrimos a garrafa. O espantoso não é que o vinho tenha sobrevivido.

É que ainda espume.

 
 
 

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