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Homo Sapiens e o Zumbi Digital: O Risco de Perder o Paladar na Era da Sintaxe

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 14 de ago.
  • 5 min de leitura

Por Glênio S Guedes (advogado)


Comecemos pelo princípio, que, nestes tempos de amnésia crônica e adoração ao instante, convém sempre resgatar. A alcunha que ostentamos com indisfarçável orgulho, sapiens, não nos foi outorgada por acaso. A raiz latina sapere transita, com invejável fluidez, entre o "ter sabedoria" e o "ter gosto". O ser humano, em sua concepção original, é a criatura que saboreia o mundo, que mastiga a realidade objetiva para dela extrair o sumo do significado. Eis a semântica em seu estado puro. Contudo, em um capricho da história que faria sorrir os céticos mais empedernidos, a espécie que se define pelo primor do discernimento parece, hoje, obstinada em terceirizar o próprio paladar.


No proscênio desta era de maravilhas — ou de emburrecimento voluntário, a depender da lente da conveniência —, ergue-se o formidável e pálido construto da Inteligência Artificial Generativa (IAG). Como adverte a pesquisadora Lucia Santaella, em seu artigo fundacional sobre a ética tecnológica, sofremos coletivamente de uma "mania do presentismo", agindo como se essa tecnologia houvesse brotado de um vácuo no tempo e no espaço. Cegos pelo ineditismo, ignoramos que a IAG é o cume provisório de uma longa marcha científica, que transitou da IA simbólica (baseada em lógicas e representações abstratas) para o conexionismo das redes neurais, culminando no triunfo do aprendizado profundo. Não há mágica; há, isto sim, o cômputo inexorável de oceanos de dados.  


Ocorre que a IAG chegou não com a ferocidade impiedosa dos tiranos da ficção científica, mas travestida de uma companheira disponível e solícita, pronta para a realização das mais variadas tarefas. Ela comanda os códigos com tamanha destreza que penetra, inclusive, em atividades outrora concebidas como o reduto inexpugnável da criatividade humana. Os grandes modelos de linguagem (LLMs) que operam "por baixo do capô" desses sistemas foram treinados para prever a probabilidade da próxima palavra na sequência, simulando a nossa linguagem de forma acachapante.  


Entretanto, é forçoso reconhecer que a fronteira já foi transposta. Deixamos para trás a figura inofensiva do "papagaio estocástico" — aquele que apenas prevê palavras — e adentramos a fase da IA Agêntica. A máquina atual arquiteta cadeias de pensamento, utiliza ferramentas externas, corrige as próprias falhas e executa fluxos completos de trabalho.


A despeito dessa impressionante autonomia, repousa sob as engrenagens de silício aquilo que o filósofo australiano David Chalmers argutamente batizou, nos idos da década de 1990, de "zumbi filosófico". O conceito de Chalmers descreve um ente fisicamente e comportamentalmente idêntico a nós, capaz de emular reações e discursos complexos, mas absolutamente oco por dentro, desprovido de qualquer experiência subjetiva ou consciência. A máquina agêntica é, na exata medida deste conceito, uma virtuose da sintaxe. Ela enfileira tokens e orquestra algoritmos com precisão de ourives; falta-lhe, porém, o lastro da semântica. Para a máquina, a palavra "dor" não dói, assim como "êxtase" não eleva. Trata-se de um espelho sofisticado, perfeitamente polido, mas trágica e irrefutavelmente cego.


Diante dessa premissa, cabe a provocação que desnuda o nosso aparente declínio cognitivo: se a raiz de nossa essência é o sapere, acaso os exímios enófilos cogitariam delegar a uma IA agêntica o inebriante deleite de degustar um vinho de safra excepcional, pedindo à máquina que lhes resuma as notas de carvalho e o retrogosto? Ou os amantes da literatura passariam a uma rede neural a incumbência de ler, decifrar e saborear a fina ironia das páginas de Machado de Assis, contentando-se com um relatório estatístico sobre a traição de Capitu?


A hipótese, de tão esdrúxula, beira o escárnio. Contudo, é precisamente essa abdicação de foro íntimo que testemunhamos, em escritórios e academias, quando delegamos o pensamento crítico, a deliberação moral e o planejamento estratégico aos cuidados de um algoritmo destituído de alma.


A urgência de mantermos o nosso sapere vivo torna-se ainda mais dramática diante das recentes conquistas da biotecnologia. Ao utilizar a Inteligência Artificial como um formidável acelerador, capaz de realizar triagens virtuais de trilhões de moléculas em poucos meses, a ciência já inicia ensaios clínicos para reverter o envelhecimento humano, vislumbrando um futuro em que populações poderão viver até 150 anos. A máquina, o nosso fabuloso zumbi de silício, está prestes a nos conceder a expansão da longevidade biológica. Contudo, como alertam filósofos e economistas sobre o risco de a juventude se tornar um artigo de luxo acessível apenas à elite, o dilema moral continua intocado pelas redes neurais. Sem o balizamento de um manual ético, conforme defende Santaella para refrear as externalidades negativas da IA, a mesma tecnologia que cura corre o risco de apartar brutalmente a sociedade. Afinal, de que valerá a máquina nos presentear com um século e meio de existência se abdicarmos da capacidade de pensar, de julgar e de dar sentido a esse tempo estendido?  


Por um excesso de vaidade antropocêntrica, concedemos a esse zumbi vítreo atributos que ele não possui e intenções que ele não abriga. Avaliando a IA com noções demasiado humanas, alimentamos fantasias atemorizantes de que nosso potencial estaria sendo usurpado e de que caminhamos para o extermínio. A ironia fina, contudo, é que a usurpação da nossa espécie não se dará por uma insurreição bélica de cabos e servidores. O perigo real não reside no pretenso fato de a máquina começar a pensar, mas na conveniência preguiçosa de o humano parar de fazê-lo. Assim, sem disparar um único tiro, o zumbi digital pode muito bem vencer a guerra: não por superioridade de sua consciência, mas por um vexatório W.O. cognitivo da nossa parte.  Enfim, por segnícia intelectual ! (observação : essa palavra - que, a propósito, é belíssima -, o autor do presente texto aprendeu jogando Academia, jogo a ser desfrutado com outros sapiens, não com máquinas...)


A rendição não é um destino selado, desde que não sucumbamos ao instinto medíocre da censura. No delicado campo da educação e nas dinâmicas corporativas, proibir o uso de tais sistemas figura entre os piores caminhos possíveis, pois a sanção apenas incentiva o uso oculto e subverte qualquer tentativa de regulamentação sadia. Ignorar a tecnologia e suas implicações significa, no rigor do termo, alienar-se de um problema prático que exige encaminhamentos urgentes.  


A resposta para esse impasse histórico repousa no domínio ético e na compreensão técnica profunda. Ferramentas algorítmicas trazem consigo o dilema formidável de poderem ser usadas para fraudar ou para um uso honesto, o que por si só atesta que é imprescindível a formulação e adoção de um manual ético. A questão mandatória para o nosso tempo não é o temor paralisante, mas sim a disposição para informar-se, experimentar, conhecer e avaliar para agir melhor.  


Cumpre-nos aceitar, sem lamúrias, que a máquina continuará a calcular, com frieza inalcançável e autonomia crescente, a probabilidade da próxima ação. A nós, mortais imperfeitos e detentores do sapere, cabe a inalienável responsabilidade de decidir o que essas ações significam, com que ética serão guiadas e qual impacto terão no tecido social e biológico. Se o Homo sapiens há de sobreviver à majestade engenhosa de sua própria invenção, deverá fazê-lo recordando-se de sua vocação primeira: o inegociável dever de saborear o conhecimento, legando ao zumbi apenas as tarefas sintáticas deste mundo.


Referências Bibliográficas


  • CHALMERS, David J. The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory. Oxford: Oxford University Press, 1996.


  • MONROY GARZÓN, Martha Luz. "Revolução da longevidade: começam os primeiros ensaios clínicos para reverter o envelhecimento em humanos". El Tiempo / O Globo, Saúde, 13 ago. 2026.  


  • SANTAELLA, Lucia. "Por que é imprescindível um manual ético para a Inteligência Artificial Generativa?". Revista TECCOGS: Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, São Paulo, n. 29, p. 7-24, 2024.  

 
 
 

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