E se perguntássemos a Camões por que ainda devemos lê-lo?
- gleniosabbad
- 15 de mar.
- 4 min de leitura
Uma entrevista impossível com o poeta que viu mais mundo que muitos historiadores.
“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram.”
— Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto I
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Uma entrevista impossível com Camões
Se o leitor me permitir uma pequena indiscrição metodológica, devo confessar que entrevistar poetas mortos exige certos recursos que os manuais de jornalismo não costumam ensinar. Ainda assim, depois de algumas diligências — das quais me abstenho de dar maiores detalhes, por respeito às autoridades metafísicas competentes — consegui localizar Luís de Camões.
Encontrei-o numa espécie de promontório tranquilo, olhando o horizonte com a familiar familiaridade de quem já descreveu mares e tempestades com mais precisão do que muitos cronistas.
Parecia de bom humor.
Aproximei-me.
— Senhor Camões, agradeço-lhe a gentileza desta conversa.
Ele sorriu com uma serenidade algo irônica.
— Meu caro, depois de quatro séculos a ser interrogado por estudantes, professores e examinadores, creio que uma entrevista já não pode causar grande estrago.
Comecemos.
Camões ainda serve para alguma coisa?
— Senhor Camões, permito-me começar com uma pergunta algo direta: ainda serve para alguma coisa ler Os Lusíadas no século XXI?
Camões inclinou ligeiramente a cabeça, como quem pondera se a pergunta é ingénua ou apenas honesta.
— Depende do leitor.
— Como assim?
— Se o leitor procura apenas distração rápida, temo que o poema lhe pareça longo. Dez cantos, mais de mil estrofes e quase nove mil versos pedem um pouco mais de paciência do que a maioria dos espíritos modernos costuma conceder às coisas.
Fez uma pausa breve.
— Mas se procura compreender como um povo imagina a si mesmo no momento em que descobre o mundo, então talvez o livro ainda tenha alguma utilidade.
— Utilidade literária?
— Utilidade humana.
Um poema que é várias histórias ao mesmo tempo
Perguntei-lhe então se Os Lusíadas não seria, afinal, apenas a narrativa da viagem de Vasco da Gama.
Camões riu — com aquela espécie de indulgência que os autores antigos reservam aos leitores apressados.
— Apenas a viagem? Meu caro, escrevi ali quatro histórias ao mesmo tempo.
— Quatro?
— Sim. Há a viagem, naturalmente — que é o fio visível da narrativa. Mas há também a história de Portugal, que se conta dentro da viagem. Há ainda a fábula dos deuses, que explica, à maneira poética, aquilo que os homens não compreendem. E finalmente há as reflexões do próprio poeta, que de vez em quando interrompe tudo para dizer o que pensa do mundo.
— Ou seja, o poema tem vários planos.
— Exatamente. A viagem é apenas o navio. O resto é o oceano.
O Adamastor e o medo do desconhecido
Perguntei-lhe então sobre um episódio que continua fascinando leitores há séculos.
— E o Adamastor?
Camões pareceu divertir-se.
— Ah, o gigante.
— Ele representa o medo do desconhecido?
— Entre outras coisas. Os navegadores temiam o Cabo das Tormentas. Eu apenas lhe dei voz e figura.
— Uma figura bastante assustadora.
— O medo costuma ser.
Depois acrescentou, com naturalidade:
— A poesia tem essa vantagem: permite transformar um cabo geográfico num personagem trágico.
Os deuses pagãos numa epopeia cristã
Outra curiosidade inevitável:
— Por que o senhor colocou deuses gregos numa história de navegadores portugueses?
Camões respondeu sem hesitar.
— Porque os deuses são úteis.
— Úteis?
— Muito. Permitem representar as forças invisíveis que interferem na vida humana: o acaso, a ambição, a inveja, a fortuna. Quando escrevi que Baco conspirava contra os portugueses, não quis dizer que um deus literalmente conspirava. Quis dizer apenas que o mundo raramente facilita a vida de quem tenta atravessar oceanos.
Glória e crítica
Arrisquei então uma pergunta que costuma dividir leitores modernos.
— Alguns dizem que Os Lusíadas é apenas um poema de exaltação nacional.
Camões ergueu ligeiramente uma sobrancelha.
— Apenas?
— É o que dizem.
— Curioso. Os mesmos leitores que encontram muita glória no poema raramente percebem quanta crítica ali coloquei.
— Refere-se ao Velho do Restelo?
— Entre outros. Aquele velho diz coisas que nenhum cortesão diria diante de um rei.
— Então o poema não é propaganda imperial?
— Se fosse propaganda, teria envelhecido muito mal. A propaganda vive enquanto dura o poder que a sustenta. A poesia, às vezes, sobrevive ao próprio império.
A língua como herança
Perguntei-lhe então algo que interessaria especialmente aos leitores lusófonos.
— Por que um falante de português deveria ler Camões?
Camões respondeu com simplicidade.
— Porque a língua também tem memória.
— Memória?
— Sim. As línguas são como cidades antigas. Algumas ruas foram abertas por quem veio antes.
— E o senhor abriu algumas dessas ruas?
Ele sorriu.
— Digamos que tentei pavimentá-las com versos.
Um poema do passado?
Antes de nos despedirmos, fiz-lhe uma última pergunta.
— O senhor acredita que Os Lusíadas pertence ao passado?
Camões olhou novamente o horizonte.
— Todos os livros pertencem ao passado.
Depois acrescentou:
— Mas alguns continuam a conversar com o futuro.
Epílogo
Despedi-me do poeta com a discreta impressão de que ele não parecia particularmente preocupado com a posteridade.
Talvez porque compreendesse algo que os séculos confirmaram:
há livros que pertencem a uma época.
E há outros que pertencem à própria língua que os escreveu.


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