E se o Bruxo do Cosme Velho decifrasse o sículo?
- gleniosabbad
- 15 de ago.
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Uma inscrição de 2.500 anos, um vaso de vinho e a eterna ciência de não se comprometer
Por Glênio S Guedes (advogado)
Exercício de imaginação literária. A leitura e a tradução da Inscrição de Centuripe seguem sendo matéria de discussão entre especialistas; aqui, a arqueologia entra pela porta da frente e a ironia, como de hábito, pela janela.
Dizem que a Sicília guarda ruínas. Engano respeitável, desses que merecem uma poltrona na Academia. A Sicília guarda também homens — mortos, naturalmente, que são os mais discretos — e, por conseguinte, suas desculpas.
Num vaso de cerâmica encontrado em Centuripe, datado do século V a.C., apareceu uma inscrição em caracteres gregos, atribuída por alguns estudiosos ao sículo, língua antiga da ilha. Entre leituras possíveis e debates que fariam um filólogo perder o sono e um leigo perder a vontade de viver, uma sequência ganhou notoriedade:
nunzu de miitom esti
A tradução proposta costuma rondar esta ideia:
“Não é da minha conta.” “Não é meu.” “Não é do meu feitio.”
Não nos apressemos. Há frases que parecem pequenas porque foram escritas em vasos; se viessem gravadas em mármore, talvez já tivessem fundado uma religião.
O achado chega ao Cosme Velho
Imaginemos que o objeto, em vez de ir logo para a mesa de um arqueólogo alemão, francês ou italiano — povos laboriosos, munidos de pecúnia, léxicos e paciência —, chegasse à biblioteca de Machado de Assis.
O escritor recebe o desenho do askos - palavra grega antiga para ¨vaso¨-, limpa os óculos, examina os sinais e pergunta, com a serenidade de quem já conhecia o gênero humano sem ter necessidade de escavá-lo:
— É uma inscrição funerária?
— Não, mestre. Num recipiente usado, provavelmente, para líquidos.
Machado pousaria o papel.
— Então é mais grave.
Porque um túmulo encerra um homem; uma mesa, especialmente uma mesa com vinho, revela-o.
O arqueólogo explicaria que a frase parecia dizer: “não é da minha conta”. Machado talvez sorrisse — não o sorriso aberto, que é uma forma de descontrole, mas aquele sorriso curto que deixa o interlocutor na dúvida entre ter sido compreendido e ter sido condenado.
— Dois mil e quinhentos anos — diria ele — e já sabiam sair de uma encrenca sem sair da sala.
A primeira língua universal não foi o latim
A humanidade inventou muitas línguas: sículo, grego, latim, árabe, português, francês. Inventou também gramáticas, dicionários e professores capazes de transformar uma preposição em caso clínico.
Mas talvez tenha havido uma língua anterior a todas: a língua da conveniência.
Nela, “não é da minha conta” pode querer dizer:
“Respeito a privacidade alheia”;
“Não tenho elementos para opinar”;
“Não desejo me envolver”;
“Sei perfeitamente o que aconteceu, mas pretendo sobreviver à sobremesa.”
A última acepção é, como tantas coisas humanas, a mais frequente e a menos confessada.
O homem sículo, sentado num banquete há vinte e cinco séculos, talvez tenha ouvido uma pergunta embaraçosa: quem tomou o vinho, quem devia dinheiro, quem foi visto com a mulher de alguém, quem prometeu uma ânfora e entregou uma cabaça. Então respondeu com a prudência dos que desejam conservar amigos, reputação e dentes:
nunzu de miitom esti.
Não era da conta dele.
E, por uma dessas ironias que dispensam a colaboração do romancista, provavelmente era.
Brás Cubas teria entendido imediatamente
Brás Cubas não precisaria de glossário sículo-português. Nem de escavação. Nem de exame de carbono. Bastaria ouvir a frase.
Ele reconheceria nela a grande invenção moral dos homens que não fizeram o mal diretamente, mas também não tiveram a indelicadeza de impedi-lo.
Há os que roubam a carteira; há os que, vendo o ladrão, concluem que não lhes cabe intervir; e há ainda os que escrevem um artigo brilhante sobre a fragilidade das instituições. Estes últimos costumam receber homenagens.
“Não é da minha conta” é o lenço perfumado da omissão. Não apaga a mancha; apenas permite que a pessoa aponte para ela com elegância.
Quincas Borba, se estivesse presente, talvez achasse a frase uma versão embrionária de sua filosofia. Não se mete, não sofre, não perde: logo, vence. Ao vencedor, as batatas; ao espectador, a tranquilidade de dizer que a panela não lhe pertencia.
Bento Santiago suspeitaria da inscrição
Bento Santiago, ao contrário, não aceitaria a frase tão facilmente.
“Não é da minha conta” — repetiria ele. — “E por que foi escrita? Quem precisava lê-la? E por que precisamente num vaso? E por que num vaso de três bicos, se um bico bastava para servir vinho e dois bastavam para suscitar suspeitas?”
Em cinco minutos, o pobre objeto já estaria implicado numa conspiração conjugal, política e vinícola.
Machado talvez interviesse, não para defender o vaso, mas para notar que toda arqueologia depende de um pouco de imaginação e toda imaginação, abandonada a si mesma, acaba querendo condenar alguém.
O askos de Centuripe teria, então, o destino de muitos documentos humanos: sobreviver ao dono e ser acusado de ter escondido intenções.
A frase que cabe numa festa — e numa repartição
A ideia de uma inscrição descontraída num recipiente de banquete possui uma beleza especial. Não porque os antigos fossem mais leves do que nós; eram homens, o que já explica bastante. Mas porque uma festa é o laboratório perfeito da alma humana.
Ponha-se vinho, comida, algum ressentimento antigo e três pessoas que se conhecem mal. Logo surgirá uma questão que ninguém deseja responder, mas todos desejam ouvir respondida.
É aí que entra o gênio de nunzu de miitom esti.
Ela serve ao convidado que não quer tomar partido, ao devedor que não quer ser localizado, ao anfitrião que não quer saber quem quebrou o vaso — ironia das ironias — e ao amigo que deseja conservar ambos os amigos até o fim da noite, ou ao menos até o fim do vinho.
A frase ainda funciona em gabinetes, famílias, tribunais, assembleias e mensagens visualizadas sem resposta. O progresso transportou a covardia para meios mais rápidos; não a tornou menos clássica.
O que o Bruxo deduziria da alma humana?
Talvez Machado não visse na inscrição apenas uma proximidade entre línguas antigas e modernas. Isso é assunto para linguistas, homens admiráveis que conseguem olhar para uma sílaba e enxergar nela três mil anos, duas migrações e uma exceção irregular.
Ele enxergaria outra continuidade: a da criatura humana perante a responsabilidade.
A alma humana, deduziria o Bruxo do Cosme Velho, não é inteiramente má. Fosse, seria mais simples e talvez menos divertida. Ela quer ajudar, desde que a ajuda não custe muito; deseja justiça, desde que a injustiça não seja praticada por alguém importante; ama a verdade, desde que a verdade não a obrigue a explicar-se.
E, quando todas essas condições falham, ela encontra a fórmula salvadora:
“Não é da minha conta.”
A frase pode ser sabedoria. Há assuntos alheios que devem permanecer alheios; há intimidades que merecem proteção; há curiosidades que não passam de fome mal-educada.
Mas também pode ser uma pequena fuga moral, dessas que não fazem ruído, não deixam recibo e ainda permitem ao fugitivo dormir cedo.
O vaso como espelho
É possível que jamais recuperemos inteiramente a voz que escreveu a inscrição de Centuripe. As línguas pouco documentadas são assim: deixam migalhas e obrigam os vivos a discutir o formato do pão.
Mas talvez baste isso.
Um fragmento de cerâmica, alguns sinais gravados, uma tradução provável e uma velha atitude humana: eis o suficiente para que o passado nos olhe de volta.
O sículo desapareceu. O vaso rachou. O banquete terminou. Os convivas viraram poeira, como é costume entre convidados que permanecem tempo demais.
A frase, porém, ficou.
E Machado, devolvendo o papel ao arqueólogo, talvez concluísse:
“Meu amigo, não deciframos uma língua morta. Apenas encontramos um homem antigo tentando não se comprometer. Em matéria de humanidade, é quase o mesmo que encontrá-lo vivo.”


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