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Dê-me a mão: vamos aprender semiótica na Quinta da Regaleira

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 18 de ago.
  • 8 min de leitura

Ícones, índices, símbolos e outros mistérios de um jardim que pensa

“As coisas mostram-se aos olhos; os signos, porém, acontecem no pensamento.”

Por Glênio S Guedes (advogado)


Há jardins que pedem sapatos confortáveis. A Quinta da Regaleira exige também alguma teoria dos signos. Convém não assustar ninguém: Charles Sanders Peirce cabe no bolso, desde que não tentemos levá-lo inteiro.

A dificuldade talvez comece antes mesmo de Peirce: começa na palavra. Lucia Santaella, ao apresentar o assunto, recorda algumas das desventuras a que semiótica costuma ser submetida: “Semi-ótica — ótica pela metade? ou Simiótica — estudo dos símios?”. Há disciplinas que intimidam por seus problemas; a semiótica, mais econômica, consegue fazê-lo já pelo nome.

Não trata, entretanto, nem de uma visão administrada em cinquenta por cento nem, para provável alívio dos macacos, de uma ciência especialmente dedicada a eles. A palavra remonta ao grego sēmeîon, “sinal”, “marca”, “signo”. Estamos entrando, portanto, no estudo dos signos e dos processos pelos quais alguma coisa passa a significar alguma coisa para alguém.

E repare que Santaella já nos fez praticar semiótica antes de explicá-la. O som de uma palavra evocou outras palavras; estas produziram imagens e conceitos; deles nasceram novos sentidos. Não chegamos ao macaco porque a semiótica tenha qualquer obrigação zoológica, mas porque um signo pôs outros signos em movimento. Peirce talvez sorrisse: começamos a estudar a semiose e ela, pouco cerimoniosa, começou antes de nós.

Dito assim, parece menos assustador.

Estamos em Sintra.

Dê-me a mão.

Vamos entrar na Quinta da Regaleira.


1. Antes de interpretar, olhe


O primeiro erro do visitante da Regaleira é querer saber imediatamente o que tudo significa.

Vê uma cruz: “Templários!”

Vê um triângulo: “Maçonaria!”

Encontra um subterrâneo: “Iniciação!”

Surge um pentagrama e já se convocaram meia dúzia de sociedades secretas, três alquimistas e, dependendo da imaginação do guia, o próprio Santo Graal.

Peirce recomenda indiretamente uma disciplina mais severa: antes de interpretar, perceber.

É aqui que encontramos suas três categorias fenomenológicas fundamentais: primeiridade, secundidade e terceiridade.

Comecemos pela primeiridade.

Você entra no jardim. Ainda não explicou nada. Há o verde, a umidade, a penumbra, o som da água, a aspereza da pedra, a surpresa diante de uma torre que emerge entre árvores. A experiência apresenta-se em sua qualidade imediata.

Isso é primeiridade: o domínio do possível, da qualidade, da sensação antes de sua determinação conceitual.

O vermelho antes de ser “o vermelho da rosa”.

A escuridão antes de ser “o simbolismo das trevas”.

O som da água antes de se transformar em “purificação”.

A Regaleira é extraordinariamente rica em primeiridades porque Carvalho Monteiro e Luigi Manini não construíram apenas objetos: construíram atmosferas.

Mas você continua andando.

A pedra está molhada. O chão resiste ao pé. A escada termina diante de você. O túnel obriga seu corpo a curvar-se. O frio subterrâneo deixa de ser uma ideia e passa a incomodar a pele.

Entramos na secundidade.

É o domínio do encontro com aquilo que existe e resiste. Eu e o outro. Ação e reação. Fato, choque, acontecimento.

A primeiridade é a qualidade da escuridão.

A secundidade é você tropeçar nela.

E então surge a terceiridade.

Você percebe que aquela descida, aquela escuridão, aquela água, aquelas escadas e aquela posterior subida podem constituir uma sequência dotada de sentido. Passa a relacionar elementos, reconhecer regularidades, recorrer a códigos culturais.

“Talvez isto represente morte e renascimento.”

Nasceu a terceiridade: mediação, hábito, regra, interpretação.

E nasceu também o perigo.

Porque a terceiridade é indispensável para compreender a Regaleira, mas é igualmente o lugar onde nossa imaginação pode vestir smoking, apresentar credenciais falsas e passar a noite inteira fingindo ser documentação histórica.


2. O signo não é uma coisa


Chegamos agora a uma das ideias mais importantes de Peirce.

Um signo não é simplesmente um objeto que “tem significado”.

O signo participa de uma relação triádica.

Há algo que funciona como signo; há aquilo a que ele se refere, seu objeto; e há o efeito de sentido que produz, o interpretante.

Imagine uma cruz na Capela da Regaleira.

A cruz material que vemos funciona como signo. Ela remete a determinados objetos possíveis — Cristo, cristianismo, sacrifício, redenção, tradições cavaleirescas, conforme o contexto. E produz em nós um efeito interpretativo.

Esse efeito é o interpretante.

Mas atenção: interpretante não é simplesmente a pessoa que interpreta. É o sentido produzido pela relação sígnica.

E esse sentido pode tornar-se novo signo, produzindo outro interpretante, que poderá produzir outro.

É a semiose.

Por isso a Regaleira parece inesgotável.

Não necessariamente porque Carvalho Monteiro tenha escondido um segredo atrás de cada pedra, mas porque cada pedra, quando inserida numa rede cultural, pode lançar-nos em novas cadeias interpretativas.

O problema deixa então de ser:

“O que esta cruz significa?”

e passa a ser:

“Em que relação sígnica esta cruz está funcionando aqui?”

A diferença parece pequena.

É um abismo.


3. Eis um ícone


Continuemos caminhando.

Peirce oferece-nos uma das classificações mais conhecidas dos signos: ícone, índice e símbolo.

O ícone significa por semelhança.

Um retrato pode ser ícone de uma pessoa. Um mapa pode funcionar iconicamente porque preserva determinadas relações espaciais de seu objeto. Uma maquete representa por similaridade estrutural.

Na Regaleira, encontramos abundante iconicidade nas esculturas e representações figurativas.

Um animal esculpido é capaz de remeter ao animal representado porque se parece com ele.

Mas cuidado: nada impede que o mesmo signo participe simultaneamente de outras relações.

É justamente aqui que a Regaleira começa a divertir Peirce.


4. Veja aquele caminho: pode haver um índice


O índice não significa primordialmente pela semelhança, mas por uma conexão efetiva com aquilo que indica.

Fumaça indica fogo.

Pegadas indicam que alguém passou.

Uma cicatriz indica uma ferida anterior.

Na Regaleira, o índice aparece constantemente na experiência espacial.

Uma escada indica que há — ou houve intenção de haver — outro nível acessível.

Uma abertura subterrânea aponta para uma continuidade espacial.

O desgaste de determinados degraus pode indicar circulação.

A umidade de uma parede indica determinadas condições físicas.

Perceba a mudança metodológica: aqui não precisamos imaginar nenhuma sociedade secreta. Estamos inferindo a partir de relações materiais.

Por isso o índice é particularmente precioso para a arqueologia e para a história da arquitetura.

Uma pedra pode mentir menos que um folheto turístico.

Embora também exija interrogatório.


5. Agora encontramos o símbolo


O símbolo significa fundamentalmente por convenção, hábito ou regra.

As palavras que você está lendo são símbolos. Não há semelhança natural entre as letras água e a substância que bebemos.

Na Regaleira, cruzes, pentagramas, letras, números, brasões e determinadas figuras mitológicas podem funcionar simbolicamente porque pertencem a tradições interpretativas anteriores à Quinta.

Uma cruz não precisa parecer-se com Cristo nem ter sido fisicamente causada por ele. Sua relação depende de uma tradição cultural.

É precisamente por isso que o símbolo exige cautela.

Encontrar uma cruz templária não prova, por si só, a presença histórica dos templários.

Encontrar elementos utilizados pela maçonaria não demonstra automaticamente que cada centímetro da propriedade tenha sido concebido segundo um ritual maçônico determinado.

Semelhança simbólica não é prova histórica de filiação.

Essa distinção deveria ser impressa no ingresso de muitos monumentos esotéricos.


6. Desçamos ao Poço Iniciático


Agora nossa pequena caixa de ferramentas começa a funcionar.

Estamos diante do célebre Poço Iniciático.

Primeiro: primeiridade.

Penumbra. Pedra. Umidade. Vertigem. Curvatura. Eco.

Ainda não interpretamos.

Depois: secundidade.

Há uma estrutura real. Degraus. Profundidade. Paredes. Percurso. Nosso corpo desce.

Finalmente: terceiridade.

Começamos a organizar a experiência.

Descida.

Profundidade.

Trevas.

Percurso.

Retorno.

Luz.

Nesse momento aparecem tradições religiosas, alquímicas, maçônicas, rosacrucianas e iniciáticas capazes de fornecer códigos interpretativos.

O poço pode então funcionar iconicamente, na medida em que sua estrutura espacial se assemelha a uma descida ao interior da terra.

Pode funcionar indicialmente, porque seus degraus, passagens e conexões indicam usos e percursos efetivamente previstos pela arquitetura.

E pode funcionar simbolicamente, quando interpretamos a descida como morte ritual, interiorização, provação ou preparação para um renascimento.

Eis uma lição decisiva:

o objeto não é ícone, índice ou símbolo por natureza absoluta.

Ele funciona como ícone, índice ou símbolo conforme a relação semiótica considerada.

Uma mesma escada pode ser as três coisas.

Peirce não construiu três gavetas.

Construiu instrumentos para observar relações.


7. E o cisne? E a rosa? E o labirinto?


Aqui a Regaleira começa a parecer uma enciclopédia que resolveu plantar árvores.

Tomemos um cisne.

Enquanto representação figurativa de um cisne, pode funcionar iconicamente.

Se estiver integrado a uma narrativa específica e remeter a uma tradição mitológica — Leda, por exemplo —, ingressamos numa rede simbólica.

Se sua posição espacial aponta para determinada passagem ou composição arquitetônica, pode ainda assumir função indicial.

O mesmo ocorre com rosas, aves, estrelas, cruzes, grutas, torres, serpentes e outros motivos.

É por isso que perguntar simplesmente “o que significa o cisne?” é insuficiente.

Precisamos perguntar:

Onde está?

Com que outros signos aparece?

Que tradições poderiam ser pertinentes?

Há documentação histórica sustentando essa leitura?

Existem interpretações concorrentes?

Estamos diante de intenção autoral demonstrável ou de possibilidade interpretativa posterior?

A semiótica não elimina a imaginação.

Ensina-a a apresentar documentos.


8. O jardim também argumenta


Há algo ainda mais fascinante.

A Regaleira não é apenas um conjunto de signos isolados. É uma sintaxe espacial.

Você anda.

Desce.

Escolhe.

Perde-se.

Encontra água.

Entra numa gruta.

Sai à luz.

Sobe.

O corpo participa da produção de sentido.

A arquitetura não diz simplesmente:

“transformação”.

Ela pode obrigá-lo a percorrer uma transformação.

Aqui se encontra uma das razões pelas quais a Quinta é semioticamente tão poderosa. Seus signos não são somente contemplados. Muitos são experimentados sequencialmente.

O visitante transforma-se em elemento da própria semiose.

A Regaleira não se limita a representar um percurso.

Faz-nos percorrê-lo.


9. O maior mistério talvez seja o excesso de certeza


Chegamos finalmente ao ponto em que a semiótica presta um serviço que vai muito além da Quinta da Regaleira.

Ela nos ensina a desconfiar da interpretação fácil.

Encontramos um pentagrama.

Hipótese A: referência maçônica.

Hipótese B: referência esotérica mais ampla.

Hipótese C: elemento decorativo apropriado de repertórios historicistas.

Hipótese D: sobreposição dessas possibilidades.

Qual escolher?

Precisamos de contexto, documentação, comparação e história.

A interpretação é uma hipótese.

Não uma revelação concedida ao primeiro turista suficientemente entusiasmado.

Isso não empobrece a Regaleira.

Faz exatamente o contrário.

Uma Quinta cujo significado estivesse completamente resolvido seria apenas um enorme verbete arquitetônico.

A verdadeira riqueza está em sua capacidade de gerar interpretações sem permitir que todas tenham o mesmo valor.

Peirce nos oferece, assim, uma posição admiravelmente equilibrada entre dois vícios.

De um lado:

“Tudo significa exatamente isto.”

Do outro:

“Tudo pode significar qualquer coisa.”

Nenhuma das duas proposições serve.

Os signos permitem interpretações.

Mas as interpretações possuem graus diferentes de plausibilidade.


10. Voltemos à superfície


Saímos do Poço.

Talvez agora vejamos a Quinta de maneira ligeiramente diferente.

Aprendemos que a primeiridade é o domínio da qualidade e da possibilidade; a secundidade, o encontro com o fato e a resistência; a terceiridade, a mediação que estabelece relações e produz sentido.

Vimos também que o ícone opera pela semelhança; o índice, por conexão; o símbolo, por convenção ou hábito.

E descobrimos algo mais importante: essas categorias não servem para etiquetar pedras.

Servem para pensar relações.

A Quinta da Regaleira é particularmente fértil para esse exercício porque nela arquitetura, paisagem, mitologia, religião, literatura, alquimia, heráldica e tradições iniciáticas parecem conversar continuamente.

Algumas conversas foram certamente pretendidas.

Outras são historicamente plausíveis.

Outras talvez tenham começado depois que seus criadores morreram.

E algumas, convenhamos, devem-se à antiga inclinação humana de encontrar um segredo precisamente onde alguém teve a imprudência de deixar uma escada subterrânea.

Mas isso também pertence à semiose.

Antes de irmos embora, olhe novamente para o jardim.

A pedra continua sendo pedra.

A água continua sendo água.

A cruz continua materialmente diante de nós.

Nada mudou.

E, contudo, depois de Peirce, tudo mudou.

Porque agora percebemos que entre aquilo que vemos e aquilo que compreendemos existe uma extraordinária maquinaria de relações, hábitos, inferências, memórias e possibilidades.

Chamamos essa maquinaria de semiose.

Talvez seja esse, afinal, o segredo mais interessante da Quinta da Regaleira.

Não o de que haja uma mensagem escondida em cada pedra.

Mas o de que uma pedra pode começar a pensar quando encontra uma mente disposta a interpretá-la.

E, se Peirce estiver certo, esse pensamento produzirá outro signo, que produzirá outro, que produzirá outro.

Nesse caso, nosso passeio terminou.

A semiose, não.


Nota bibliográfica essencial


PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. São Paulo: Perspectiva.

SANTAELLA, Lucia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense.

ANES, José Manuel. Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira. Revisão de Filipa Pedroso. 2. ed. Lisboa: Ésquilo — Edições e Multimédia, 2007.


 
 
 

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