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DO CRIVO QUÁDRUPLO: QUANDO REALMENTE TEMOS RAZÃO?

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 26 de fev.
  • 3 min de leitura

"A verdade não é um troféu estático que se guarda na algibeira; é um exercício dinâmico de depuração constante."


Por Glênio S Guedes ( advogado )


Em tempos de vertigem informativa, onde a opinião mais gritante tantas vezes sufoca o argumento mais sóbrio, impõe-se ao homem de pensamento uma pergunta fundamental: como posso ter a certeza de que não estou enganado? Como saber se a minha "verdade" é ouro de lei ou mero pechisbeque intelectual?

A resposta não reside na arrogância da certeza, mas na humildade do método. Através da análise de diversas correntes do pensamento contemporâneo, podemos estabelecer o que chamaremos de "O Crivo Quádruplo". Trata-se de uma espécie de peneira lógica e moral, composta por quatro malhas distintas, pelas quais devemos passar as nossas convicções antes de as declararmos verdadeiras.


I. A Malha da Adequação (Onde estou?)


O primeiro erro do juízo é o erro de categoria. Não se mede a temperatura com uma fita métrica, nem se afere o amor com uma equação. Para saber se temos razão, devemos primeiro perguntar: a que ordem pertence o problema que tenho diante de mim?

Os textos ensinam-nos que a justificação varia conforme o terreno:


  • Se estamos no domínio da natureza física, só a demonstração irrefutável nos dá razão (a água ferve a 100 graus, independentemente da nossa vontade).

  • Se estamos na ágora política ou jurídica, impera a deliberação. Aqui, ter razão não é impor uma fórmula, mas submeter o argumento ao contraditório e resistir às objeções.

  • Se estamos na vida prática, vale o pragmatismo: se funciona e resolve o problema vital, há aí uma verdade instrumental.


Quem tenta usar a lógica matemática para resolver conflitos conjugais, ou a mera opinião para resolver problemas de engenharia, falha na primeira malha do crivo.


II. A Malha da Independência (Quem pensa comigo?)


O homem é, por natureza, gregário. Em situações de perigo e incerteza, é racional imitar a multidão — se todos correm de um incêndio, não convém ficar a filosofar.

Contudo, para a formação de um juízo sólido, a unanimidade é suspeita. A "sabedoria das multidões" só existe quando as opiniões são independentes. Se a minha certeza é apenas o eco da certeza do meu vizinho, que por sua vez copiou o outro, não temos uma verdade coletiva, mas uma cascata de ilusões. Para passar nesta malha, é preciso garantir que a nossa convicção não é fruto de uma "bolha" onde todos pensam igual por mero mimetismo.


III. A Malha da Autocrítica (Estarei a enganar-me?)


Eis a malha mais fina e dolorosa. O ser humano possui uma capacidade notável para o autoengano (self-deception). Acreditamos no que nos convém, no que conforta o nosso ego ou valida os nossos desejos ocultos.

Ter razão implica, muitas vezes, a coragem de admitir que se estava errado. O erro não deve ser escondido, mas sim tratado como um "tesouro precioso", pois é ele que nos indica a correção de rota necessária. Quem nunca muda de opinião, quem nunca admite a falha na sua biografia, não detém a verdade; é prisioneiro da sua própria obstinação. A verdadeira razão é aquela que sobreviveu ao escrutínio da própria consciência.


IV. A Malha da Fecundidade (Para que serve esta verdade?)


Por fim, a verdade conhece-se pelos seus frutos. Há "certezas" que são estéreis e paralisantes, como as teorias da conspiração que veem tramas diabólicas em tudo, retirando-nos a capacidade de agir. Se a sua "razão" lhe diz que "eles controlam tudo" e que nada vale a pena fazer, é uma falsa razão, um "ópio" que justifica a inércia.

A razão autêntica é criadora. Ela conecta fatos, repara injustiças e propõe soluções. Como nos ensina a filosofia da criação, "criar é também uma forma de agir". Se a sua convicção lhe impulsiona a construir, a melhorar o entorno, a tecer laços de sentido, então, e só então, ela passou pelo último crivo.


Conclusão


Passar uma ideia por este Crivo Quádruplo — Adequação, Independência, Autocrítica e Fecundidade — não é tarefa fácil. Exige disciplina intelectual e retidão moral. Mas é o único caminho para que possamos dizer, com a consciência tranquila: "Sim, tenho razão". Não porque gritei mais alto, mas porque o meu pensamento resistiu à prova do fogo.

 
 
 

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