De que Galeno, afinal, estamos falando?
- gleniosabbad
- há 7 dias
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Ecdótica, traduções e a reconstrução de um médico depois de dezoito séculos
“A hermenêutica pergunta o que o texto significa; a ecdótica pergunta, antes, qual é o texto.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Em El médico de Pérgamo, romance do médico e escritor colombiano Orlando Mejía Rivera, uma breve “Nota del editor” prepara uma artimanha literária de excelente compostura. Durante as comemorações, em 2010, dos quinhentos anos do nascimento do anatomista siciliano Giovanni Filippo Ingrassia, teria sido descoberto, entre as páginas de um comentário renascentista à Microtechne de Galeno, certo Galeni Memorialis: tradução latina de uma autobiografia grega até então desconhecida.
Não há registro filológico independente da existência do Galeni Memorialis nem da alegada descoberta de 2010. Tudo indica, portanto, que o manuscrito integra o dispositivo ficcional construído por Mejía — embora a história de sua transmissão tenha sido concebida com materiais e procedimentos historicamente verossímeis. Ingrassia existiu; o comentário no qual se teria encontrado o documento também; Galeno, convém esclarecer, tampouco foi invenção do romancista. Tudo indica que Mejía tenha inventado o coelho; a cartola, entretanto, é historicamente autêntica.
A ficção convence porque reproduz um problema verdadeiro: não possuímos “Galeno” como quem possui um volume recém-saído da gráfica, revisto pelo autor e acompanhado de errata. Possuímos o que de sua obra atravessou quase dezoito séculos de cópias, perdas, traduções, interpolações, incêndios, equívocos e resgates. Entre o homem que escreveu em grego no século II e aquele que hoje encontramos numa biblioteca há uma multidão de colaboradores involuntários. Alguns salvaram suas palavras; outros as modificaram; muitos provavelmente fizeram ambas as coisas na mesma tarde.
É nesse intervalo que trabalha a ecdótica.
A palavra remonta ao grego ékdosis — ἔκδοσις —, publicação ou edição, relacionado ao verbo ekdídōmi, “dar para fora”, “publicar”. Segismundo Spina, em sua Introdução à edótica: crítica textual, prefere a forma “edótica”, entendendo-a como disciplina mais ampla que a crítica textual. Esta corresponderia à etapa filológica de estabelecimento do texto; aquela compreenderia também sua preparação técnica para publicação. Permanece consagrada, entretanto, a forma “ecdótica”, que adotamos aqui, até porque certas palavras eruditas, depois de conseguirem assento à mesa, dificilmente aceitam retirar-se sem uma controvérsia.
A distinção conceitual importa. Produzir uma edição crítica não consiste em escolher o manuscrito mais antigo, limpar-lhe a poeira e imprimi-lo com aparência solene. O editor precisa reunir os testemunhos disponíveis — a recensio —, compará-los — a collatio —, identificar variantes, omissões, acréscimos e erros comuns, estabelecer possíveis relações genealógicas entre os códices e, quando necessário, propor emendas. Desse trabalho pode resultar um stemma codicum: árvore que procura representar a descendência dos manuscritos a partir de arquétipos ou subarquétipos, quase sempre perdidos. Os livros também têm famílias; como sucede às demais, nem todos os parentes conservaram a mesma versão dos acontecimentos.
Spina distingue ainda a tradição direta, constituída pelos manuscritos e pelas edições da obra, da tradição indireta, formada por traduções, comentários, citações, glosas, paráfrases e alusões. No caso de Galeno, essa distinção adquire importância excepcional. Alguns textos gregos desapareceram na língua em que foram escritos, mas sobreviveram total ou parcialmente em versões siríacas, árabes, hebraicas ou latinas. A tradução deixa então de ser simples hóspede do original: herda-lhe a casa.
Foi decisivo nesse processo o trabalho de tradutores e estudiosos do Oriente, especialmente no mundo siríaco e árabe. Galeno não caminhou em linha reta de Pérgamo até as universidades europeias. Viajou por diferentes centros, comunidades, escolas médicas e tradições religiosas; atravessou línguas e sistemas conceituais. Algumas versões árabes derivaram diretamente do grego; outras passaram antes pelo siríaco. Ao regressar ao latim europeu, o médico grego já trazia respeitável bagagem multicultural, embora muitos séculos tenham preferido apresentá-lo como se houvesse feito a viagem sem escalas.
Cada tradução preservava e transformava. O tradutor precisava decidir como verter termos anatômicos, fisiológicos, farmacológicos e filosóficos para línguas que não dividiam necessariamente o mundo segundo as mesmas categorias gregas. Às vezes conservava uma passagem perdida; outras vezes introduzia uma ambiguidade; frequentemente fazia ambas as coisas sem deixar recibo. A tradição indireta exige, por isso, gratidão e cautela — sentimentos que não raro convivem mal, mas que a filologia obriga a sentarem-se juntos.
A edição greco-latina de Karl Gottlob Kühn, publicada em vinte e dois volumes entre 1821 e 1833, reuniu enorme parte do conjunto galênico então disponível e continua sendo referência para localização e citação de passagens. Monumental, porém não definitiva. Baseada em recursos manuscritos e critérios editoriais hoje insuficientes, ela recorda uma regra salutar da ciência: monumentos também envelhecem. Servem de marco; não necessariamente de moradia.
Da necessidade de edições mais rigorosas nasceu o Corpus Medicorum Graecorum, associado ao Corpus Medicorum Latinorum. Iniciado no começo do século XX e hoje continuado pela Academia de Ciências de Berlim-Brandenburgo, o empreendimento publica edições críticas de textos médicos gregos e latinos da Antiguidade, acompanhadas de traduções, índices e comentários. Seu Supplementum Orientale acolhe escritos de origem grega preservados em traduções medievais árabes, siríacas ou latinas.
O projeto especificamente dedicado a Galeno trabalha com edição, tradução, comentário e contextualização histórica de seus tratados. Ainda no século XXI aparecem primeiras edições críticas de partes importantes de sua obra. Em 2025, por exemplo, foram publicados os livros V e VI da Methodus medendi em sua primeira edição crítica, acompanhada de tradução alemã, notas e índices. Galeno morreu há aproximadamente dezoito séculos; seu texto, com admirável descortesia para com os calendários, ainda não terminou de chegar.
Outra iniciativa complementa essa tarefa: o projeto Towards a Galen in English, do qual se desenvolveu a série Cambridge Galen Translations. Seu objetivo não é substituir a edição crítica, mas tornar obras galênicas acessíveis em traduções inglesas coordenadas e academicamente confiáveis, providas de introduções, notas, glossários e índices. A diferença é essencial: o Corpus procura estabelecer criticamente o texto e documentar sua transmissão; a série de Cambridge procura traduzi-lo e apresentá-lo a estudiosos e leitores que não dominam o grego, o árabe, o siríaco ou o latim — deficiência perdoável em sociedades que ainda exigem das pessoas outras ocupações.
“Atualizar” Galeno, portanto, não significa corrigir seus tratados à luz da microbiologia, reescrevendo-os como se o autor tivesse recebido, com algum atraso, as notícias de Harvey, Pasteur e Virchow. Significa atualizar as condições de acesso à sua obra: incorporar testemunhos antes negligenciados, rever leituras, corrigir atribuições, esclarecer conceitos, reconstruir terminologias e produzir traduções que não escondam, sob palavras modernas, as diferenças da medicina antiga. Uma tradução excessivamente familiar pode cometer delicada violência: faz o passado falar como se tivesse cursado nossas universidades.
Chegamos, assim, à pergunta do título. Há, primeiro, o Galeno histórico, médico, filósofo e polemista grego que trabalhou no Império Romano. Há o Galeno transmitido, repartido entre manuscritos, fragmentos, comentários e traduções. Há o Galeno reconstruído, resultante das decisões argumentadas dos editores críticos. E há, finalmente, o Galeno traduzido, apresentado em línguas modernas por escolhas que inevitavelmente interpretam seu vocabulário, seus conceitos e sua maneira de organizar o corpo humano.
Nenhum desses Galenos é simplesmente falso. Nenhum, porém, nos autoriza a imaginar que ouvimos sem mediações a voz do autor. Mesmo a melhor edição crítica não ressuscita o manuscrito autógrafo: oferece a hipótese filologicamente mais responsável acerca do texto que ele provavelmente escreveu. O aparato crítico, com suas variantes e hesitações, não diminui a autoridade da edição; revela honestamente os caminhos pelos quais ela foi construída.
Por isso a ecdótica antecede a hermenêutica. Antes de indagarmos se Galeno tinha razão sobre anatomia, temperamentos, causalidade, diagnóstico ou terapêutica, precisamos saber que palavras podem, com suficiente prudência, ser atribuídas a ele. Durante muitos séculos, discutiu-se solenemente se Galeno estava certo. Talvez conviesse resolver antes uma questão um pouco mais modesta: o que, afinal, Galeno disse?
A ecdótica não se interpõe entre nós e o médico de Pérgamo. É justamente o que ainda torna possível aproximarmo-nos dele. Galeno sobreviveu porque foi copiado e traduzido; também foi transformado porque foi copiado e traduzido. A tarefa contemporânea não consiste em eliminar essa história, como se fosse possível regressar a um original imaculado, mas em torná-la visível.
De que Galeno, afinal, estamos falando?
Daquele que escreveu, certamente. Mas também daquele que os manuscritos conservaram, as línguas acolheram, os séculos alteraram e os filólogos, com paciência quase clínica, continuam tentando reconstruir.
Referências essenciais
MEJÍA RIVERA, Orlando. El médico de Pérgamo. 2. ed. Manizales: Editorial Universidad de Caldas, 2020.
SPINA, Segismundo. Introdução à edótica: crítica textual. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Ars Poética/Editora da Universidade de São Paulo, 1994.


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