Bíbulo: o homem que César eclipsou e a língua embriagou
Um cônsul derrotado, uma República em ruínas e a pequena vingança dos dicionários
“César conquistou a Gália; Bíbulo conquistou uma palavra. A história, como se vê, distribui os prêmios com alguma liberdade.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Certos destinos parecem escritos por um historiador; outros, por um dramaturgo sem grande apreço pela justiça. Marco Calpúrnio Bíbulo pertence à segunda categoria. Nascido por volta de 102 a.C., no seio da aristocracia romana, percorreu com dignidade os degraus da carreira pública e chegou ao consulado. Tinha, portanto, o que muitos homens desejariam: nome, posição, antepassados e o direito de falar em nome da República. Faltou-lhe apenas uma sorte, pequena na aparência e decisiva na memória dos povos: a de não ter como colega Júlio César.
Bíbulo e César foram edis em 65 a.C., ocasião em que organizaram jogos, obras públicas e espetáculos destinados a conquistar a aprovação popular. As despesas foram conjuntas; a glória, não. César possuía o talento de transformar gasto em generosidade, ambição em serviço público e cálculo em espontaneidade. Bíbulo, mais econômico nos encantos, descobriu que a política romana já não se fazia apenas com magistraturas e precedentes, mas também com plateia. Reclamou que ambos haviam financiado os mesmos empreendimentos, embora apenas César recebesse os aplausos — situação semelhante, dizia ele, à do templo dos Dióscuros, chamado pelo povo simplesmente de templo de Castor, como se Pólux tivesse contribuído apenas para a decoração.
A anedota é menor que a República, mas ilumina-a. Roma ainda conservava as formas de uma ordem aristocrática; dentro dessas formas, porém, crescia uma política de popularidade, espetáculo e clientela. O Senado continuava a deliberar, os magistrados continuavam a vestir a toga e os sacerdotes continuavam a observar o céu. Sob as cerimônias, contudo, já se moviam fortunas pessoais, exércitos leais aos generais e multidões sensíveis à generosidade que chegasse acompanhada de trombetas.
Em 59 a.C., César e Bíbulo foram eleitos cônsules. A candidatura de Bíbulo recebeu apoio financeiro de setores aristocráticos que pretendiam equilibrar a capacidade de César de obter votos por meio de alianças e dinheiro. Catão, o Jovem, segundo a tradição, chegou a considerar aceitável o recurso ao suborno quando empregado para impedir um mal maior — princípio de grande elasticidade, como costumam ser os princípios convocados em situações urgentes.
O plano dos conservadores era simples: Bíbulo usaria os poderes de seu cargo para conter César. Esqueceram-se, entretanto, de que uma instituição pode ser formalmente colegiada e, na prática, governada por quem domina a rua, a tribuna e os aliados. César contava com Pompeu e Crasso, numa aliança política que a historiografia moderna chamaria de Primeiro Triunvirato. Não era uma magistratura, nem uma lei, nem um órgão oficial; era algo talvez mais eficaz: um acordo entre homens suficientemente poderosos para tratar as instituições como obstáculos negociáveis.
César propôs medidas agrárias favoráveis a cidadãos pobres e a veteranos de Pompeu. Bíbulo opôs-se obstinadamente. Invocou o veto, a dignidade consular e a observação de presságios desfavoráveis. A resposta dos adversários não veio pelo debate, mas pela força bruta das ruas. Quando Bíbulo subiu as escadarias do templo de Castor no Fórum para tentar barrar a votação da lei agrária, foi cercado por uma multidão enfurecida e por veteranos de Pompeu armados com adagas ocultas. Seus lictores foram espancados e tiveram as varas cerimoniais despedaçadas.
No auge do tumulto, como relatam com crueza cronistas como Plutarco, Dião Cássio e Suetônio, despejou-se sobre a cabeça do cônsul um cesto cheio de esterco e dejetos. Coberto de imundície, ferido e empurrado escadaria abaixo, Bíbulo sobreviveu por pouco ao linchamento. A agressão física converteu-se no mais escrachado ultraje cívico: em pleno coração sagrado de Roma, a autoridade consular era literalmente soterrada pelo lixo da cidade.
Bíbulo retirou-se para casa durante o restante do ano. Não abandonou, porém, a luta. De sua residência, publicou proclamações e declarou observar sinais celestes desfavoráveis, tentando impedir a reunião das assembleias por meio da obnuntiatio, procedimento religioso cuja validade e alcance eram objeto de disputa. César simplesmente continuou. A religião, em Roma, era uma linguagem de poder; quando dois magistrados discordavam sobre quem tinha o direito de falar em nome dos deuses, o resultado dependia menos da meteorologia que da força política de cada um.
O consulado, que oficialmente deveria ser designado pelos nomes de ambos, passou a ser ridicularizado como o “consulado de Júlio e César”. A piada dizia tudo: Bíbulo ainda ocupava o cargo, mas já não ocupava o acontecimento. Era cônsul por lei e espectador por experiência. A República, por sua vez, descobria que a aparência de equilíbrio podia sobreviver algum tempo à perda do equilíbrio real — exatamente como certas casas aristocráticas, que mantêm a fachada enquanto vendem os móveis.
Bíbulo não foi apenas uma caricatura. Governou a Síria entre 51 e 50 a.C. e, mais tarde, alinhou-se a Pompeu na guerra civil. Em 49 a.C., recebeu o comando da frota pompeiana no Adriático e no mar Jônico, encarregada de impedir a travessia das forças de César para a Grécia. César atravessou o mar no inverno, numa operação arriscada que surpreendeu o bloqueio. Bíbulo reagiu com energia: perseguiu embarcações, atacou linhas de abastecimento e tentou privar os soldados cesarianos de água, madeira e mantimentos.
A campanha consumiu-o. Doente e exausto, ainda empenhado em manter o bloqueio, morreu em 48 a.C., às vésperas da decisiva batalha de Farsalos. Morreu, portanto, sem assistir ao desfecho fatal do confronto; a história, nesse ponto, concedeu-lhe ao menos a delicadeza de poupar-lhe o espetáculo da vitória definitiva do rival.
E então entra a língua, essa posteridade sem tribunal e sem escrúpulos. O adjetivo português bíbulo remonta ao latim bibulus, “bebedor”, “dado a beber” ou “que absorve líquidos”, relacionado ao verbo bibere, “beber”. Não há evidência de que o sentido da palavra tenha surgido da biografia de Marco Calpúrnio Bíbulo. O antropônimo e o adjetivo pertencem à mesma família lexical latina; a semelhança é linguística, não biográfica. Ainda assim, o destino parece ter trabalhado com ironia suficiente para fazer coincidir o nome de um político eclipsado com uma palavra de ressonância etílica.
Bíbulo tentou deter César no Fórum, no Senado e sob a proteção dos auspícios. Não conseguiu. César ficou com a glória, os triunfos e a posteridade monumental. Bíbulo ficou com uma lembrança mais modesta, porém resistente: um nome que, em nossa língua, sugere aquilo que a política romana frequentemente fazia em privado enquanto fingia governar em público. A República perdeu a sobriedade; Bíbulo perdeu a disputa; o dicionário, magnânimo, conservou-lhe o nome — embora por motivos que ele provavelmente teria considerado ofensivos.


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