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A natureza ainda ama esconder-se?

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    gleniosabbad
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Uma visita de Gaston Bachelard ao Museu do Amanhã

φύσις κρύπτεσθαι φιλεῖ Phýsis krýptesthai phileî “A natureza ama esconder-se.”— Heráclito, fr. B123

Por Glênio S Guedes (advogado)


Gaston Bachelard sobe as escadas do Museu do Amanhã e, antes mesmo de encontrar uma máquina, depara com um homem que o esperava havia mais de dois milênios. É Heráclito de Éfeso. Ou, para sermos menos fantasiosos, uma frase sua: “A Natureza ama o mistério.”

Bachelard provavelmente pararia. Filósofos têm esse inconveniente: diante de uma bela frase, em vez de simplesmente admirá-la, começam a criar problemas.

E o primeiro não seria pequeno. O fragmento heraclítico tradicionalmente relacionado à inscrição diz phýsis krýptesthai phileî: “a natureza ama esconder-se”. “Natureza”, contudo, traduz imperfeitamente phýsis, termo ligado também ao surgir, brotar, vir à presença. Há, portanto, um paradoxo já na entrada: aquilo que se manifesta também se oculta.

Excelente maneira de entrar num museu dedicado ao amanhã.

Bachelard prossegue e encontra a exposição temporária Síntese — Arte e Tecnologia na Coleção Itaú, concebida pelo Itaú Cultural e curada por Leno Veras. A mostra aproxima Tecnologias, Naturezas e Humanidades e investiga relações entre seres humanos, ambiente, ciência, arte e sistemas tecnológicos. As próprias instalações solicitam presença, interação e até troca de dados para que suas poéticas se revelem.

Nosso visitante começa a desconfiar de que Heráclito não estava apenas decorando a entrada.


Convém apresentar o visitante


Gaston Bachelard (1884–1962) foi um filósofo francês cuja obra percorreu duas grandes vertentes que, à primeira vista, parecem quase inconciliáveis.

Numa delas, investigou como a ciência conhece. Para Bachelard, o saber científico não progride simplesmente empilhando certezas; progride também corrigindo erros, rompendo evidências primeiras e vencendo hábitos intelectuais que podem converter-se em obstáculos epistemológicos.

Noutra vertente, voltou-se para a imaginação poética: o fogo, a água, o ar, a terra, a casa, o espaço, o devaneio. Para quem dedicou livros inteiros às imagens dos elementos, a matéria jamais interessou apenas como substância física; podia ser também matéria para a imaginação.

De um lado, portanto, Bachelard ensinou a desconfiar das imagens quando pretendem explicar cientificamente o mundo; de outro, ensinou a levá-las muito a sério quando exprimem nossa experiência poética dele.

É justamente esse homem duplamente atento que faremos entrar em Síntese.


O perigo de acreditar nos próprios olhos


Diante de Alba, de Eduardo Kac, encontramos a imagem célebre de uma coelha relacionada a procedimentos de biologia molecular e à proteína fluorescente.

O Bachelard de A formação do espírito científico talvez perguntasse:

— Você compreendeu ou apenas ficou impressionado?

Pergunta desagradável. Logo, excelente.

Uma imagem espetacular pode despertar curiosidade científica, mas também produzir a ilusão de que ver equivale a conhecer. Não equivale. Entre o verde que fascina os olhos e a compreensão dos processos biológicos existe aquilo que a ciência, com menor vocação para efeitos especiais, chama de trabalho.

A experiência primeira seduz. O pensamento científico, porém, precisa interrogá-la, construí-la conceitualmente e, quando necessário, contradizê-la.

Bachelard estaria confortável.

Por pouco tempo.

Porque a exposição começaria a examiná-lo também.


Soprar sobre o problema


Diante de Les Pissenlits, de Edmond Couchot e Michel Bret, o visitante sopra e dispersa dentes-de-leão digitais.

Parece brincadeira.

É filosofia disfarçada.

O percurso é extraordinário:

corpo → sopro → sensor → dado → algoritmo → imagem → movimento.

O ar é real; a flor, digital. O gesto pertence ao corpo; o vento que vemos, à simulação.

Perguntemos ao filósofo que tanto pensou a imaginação do ar:

um vento digital pode ser bachelardiano?

Talvez surgisse o primeiro sorriso.

Bachelard encontraria algo que seu século apenas começava a tornar possível: matéria convertida em informação e informação devolvida aos sentidos como experiência.

A tecnologia não eliminou o devaneio.

Programou-lhe uma flor.


Quando a criatura surpreende o criador


Em Eden, de Jon McCormack, a exposição apresenta um ecossistema virtual no qual criaturas desenvolvem comportamentos mediante processos evolutivos computacionais.

A questão se complica.

A máquina já não aparece apenas como martelo, alavanca ou extensão obediente da mão. Criamos condições iniciais; sistemas complexos podem produzir comportamentos não antecipados em todos os seus detalhes.

O que faria Bachelard?

Talvez exatamente aquilo que tantas vezes exigiu da ciência: retificaria.

Seria pouco bachelardiano exigir que Bachelard permanecesse intacto diante de fenômenos que não conheceu.

Uma filosofia da ruptura epistemológica que se recusasse a sofrer rupturas cometeria a delicada imprudência de transformar-se em seu próprio obstáculo epistemológico.


A máquina aprendeu nossas metáforas


Em Robotarium, de Leonel Moura, encontramos aquilo que é descrito como uma espécie de zoológico de espécimes robóticos.

Paremos nas palavras:

zoológico; espécimes; robóticos.

Nossa linguagem biológica atravessou a fronteira e instalou-se entre as máquinas.

Fazemos isso continuamente: vírus de computador, memória eletrônica, redes neurais, aprendizado de máquina, ecossistemas digitais.

Bachelard desconfiaria.

A metáfora pode abrir uma avenida para o pensamento e, alguns quilômetros depois, instalar nela um pedágio. Quando esquecemos que é metáfora, começa a pensar em nosso lugar.

Eis uma pergunta genuinamente bachelardiana para o presente: quando dizer que uma máquina “aprende” esclarece o fenômeno e quando apenas antropomorfiza o cálculo?


Duas casas de Bachelard


Já podemos compreender por que nosso visitante parece habitar duas casas intelectuais.

Numa, exige ruptura, conceito, racionalidade e vigilância contra a sedução das evidências primeiras.

Na outra, investiga imagens, elementos, espaços e devaneios.

Síntese talvez não derrube a parede entre ambas. Seria simplificação excessiva. Mas pode abrir uma porta.

Uma instalação artística não demonstra uma hipótese científica. Arte e ciência não precisam falsificar seus passaportes para atravessar a fronteira uma da outra. Podem conservar seus regimes próprios e, ainda assim, produzir perguntas em comum.

A arte pode tornar perceptível um problema, perturbar uma evidência, imaginar o inexistente. A ciência poderá então perguntar de outro modo.

Não por acaso, os materiais da exposição insistem na criatividade, na convivência e na relação humana com sistemas cada vez mais complexos, além de recusarem a tecnologia como fim em si mesma.

Talvez o Bachelard que ensinou a razão a corrigir imagens encontrasse aqui o Bachelard que ensinou a imaginação a não empobrecer o mundo.

Não seriam dois filósofos reconciliados.

Seria um mesmo filósofo obrigado a circular entre suas próprias casas.


Quem sairia do museu?


A visita termina.

Bachelard encontrou organismos tecnologicamente modificados, ecossistemas computacionais, robôs tratados como espécimes e flores digitais sensíveis ao sopro humano.

Voltamos à escada.

Heráclito continua lá.

Mas alguma coisa mudou.

Não precisamos inventar um Bachelard convertido ao entusiasmo tecnológico. Ele conservaria, provavelmente, sua exigência de distinguir ciência de poesia, demonstração de imaginação, conceito de metáfora.

Sairia, entretanto, diante de um problema que o século XXI tornou muito mais agudo: a tecnociência não apenas procura conhecer fenômenos naturais; intervém neles, simula-os, reorganiza-os e produz entidades que tornam menos confortável a fronteira entre natural e artificial.

Talvez seja por isso que o plural escolhido pela exposição — Naturezas — seja tão perturbadoramente apropriado.

Bachelard para uma última vez diante de Heráclito.

A natureza ainda ama esconder-se?

Provavelmente.

Mas, depois de Síntese, a pergunta já não é exatamente a mesma.

Talvez o grande problema do amanhã não seja apenas descobrir o que a natureza esconde de nós.

Talvez seja descobrir onde termina a natureza e começam as naturezas que nós mesmos estamos aprendendo a criar...


 
 
 

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