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A jurista que ensinava Direito com poesia

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 8 de mar.
  • 5 min de leitura

Uma reflexão sobre sensibilidade, linguagem e justiça a partir da obra poética da Professora Beatriz Dutra


“Fui acordada por um verso que rugia em mim e urgia nascer.”— Beatriz Dutra

Por Glênio S Guedes ( advogado )


À professora Beatriz Dutra, que ensinou Direito com a clareza da razão e poesia com a delicadeza da alma. Com gratidão de um antigo aluno da turma de 1985, em memória das aulas que nos ensinaram que compreender o Direito é, antes de tudo, compreender o humano.


1. A primeira aula que não estava no programa


Todo estudante de Direito imagina encontrar, ao ingressar na faculdade, três coisas bastante previsíveis: códigos, conceitos e alguma solenidade acadêmica.

O que raramente espera encontrar é poesia.

Entretanto, olhando hoje para trás — e já lá vão décadas — percebo que havia algo nas aulas de Introdução à Ciência do Direito da professora Beatriz Dutra que escapava discretamente ao programa oficial.

Ela ensinava conceitos, naturalmente. Falava de norma jurídica, de ordenamento, de sociedade, de justiça. Explicava os fundamentos do Direito com a clareza didática que todo estudante iniciante necessita.

Mas havia ali também algo que não estava no plano de ensino.

Algo que nenhum manual consegue transmitir.

A professora parecia nos ensinar, talvez sem dizer explicitamente, que o Direito começa onde começa a vida humana.

Naquele tempo — nossa turma atravessou os anos de 1985 a 1988, e em 1989 tivemos a alegria de homenageá-la na formatura — talvez não compreendêssemos plenamente o alcance dessa lição.

Hoje compreendo melhor.


2. O equívoco de imaginar o Direito sem humanidade


Há quem imagine o Direito como uma construção puramente técnica, composta de normas, conceitos e procedimentos.

Essa visão, embora confortável para alguns espíritos sistemáticos, é profundamente incompleta.

O Direito não regula abstrações.

Ele regula vidas humanas.

E onde há vida humana há conflito, esperança, sofrimento, desejo, frustração, expectativa de justiça.

Talvez por isso tenha surgido, na segunda metade do século XX, um campo interdisciplinar conhecido como Direito e Literatura, dedicado justamente a explorar as relações entre linguagem jurídica e linguagem literária.

Esse movimento parte de uma constatação simples: tanto os textos jurídicos quanto os textos literários dependem de interpretação, e a literatura pode oferecer ao jurista uma compreensão mais profunda da condição humana que o Direito procura regular.

Em outras palavras: a lei organiza a vida —mas a literatura revela essa vida.


3. A poesia como exercício de humanidade


Ao percorrer os poemas de nossa Professora Beatriz Dutra percebe-se imediatamente que sua poesia nasce de uma experiência intensa da vida.

Num de seus versos mais belos ela escreve:

“Quero beber a vida até o último gole…Quero sorver a vida até a última gota.”

Esse verso contém algo mais do que lirismo.

Contém uma atitude diante da existência.

A vida aparece ali como algo que deve ser experimentado com atenção, intensidade e consciência.

Ora, não deveria ser essa também a atitude do jurista diante da realidade social?

Aplicar a lei sem compreender a vida seria como julgar um romance lendo apenas o índice.


4. O jurista como intérprete da condição humana


Interpretar uma norma jurídica nunca foi uma operação puramente mecânica.

O texto da lei é apenas o ponto de partida.

O sentido emerge da relação entre texto, intérprete e realidade.

Não é por acaso que muitos teóricos do Direito aproximaram a interpretação jurídica da interpretação literária. A leitura de textos literários desenvolve justamente capacidades fundamentais para o jurista: percepção de nuances, imaginação moral e sensibilidade para compreender experiências humanas diversas.

Talvez por isso alguns poemas da professora revelem uma intuição ética profundamente jurídica.

Veja-se este pequeno poema:

“Almas não têm sexo. Ao se reencontrarem vencem as barreiras do tempo e da distância.”

Em poucas linhas aparece uma afirmação de igualdade essencial da pessoa humana — princípio que constituições inteiras procuram formular.

Outro poema revela uma percepção social aguda:

“Na mesma folha de jornal, duas notícias…”

E então surge a imagem de um aposentado que morre abandonado numa fila de hospital.

Aqui a poesia não apenas descreve.

Ela denuncia.

E essa denúncia é profundamente jurídica.


5. A virtude esquecida da lentidão


Entre os poemas da Professora Beatriz Dutra há um particularmente oportuno para o nosso tempo.

No poema Recuso-me, ela escreve:

“Recuso-me a viver com pressa.”

Vivemos numa civilização acelerada.

Tudo precisa ser rápido: mensagens, decisões, julgamentos, opiniões.

Mas a justiça — essa senhora antiga e paciente — não aprecia a pressa.

A prudência exige reflexão. A interpretação exige pausa. A decisão exige maturação.

Talvez a poesia ensine ao jurista justamente isso: o tempo necessário à justiça.


6. O fogo da vida


Num outro poema, encontramos versos que poderiam servir de metáfora para a própria condição humana:

“Há volúpia no fogo da vida que abrasa e queima e teima em não morrer.”

O Direito existe precisamente para lidar com esse fogo.

As paixões humanas — amor, ambição, medo, ressentimento — atravessam permanentemente o mundo jurídico.

O juiz que ignora essas forças corre o risco de produzir decisões tecnicamente impecáveis e humanamente cegas.

A poesia, ao contrário, ensina a olhar para esse fogo sem medo.


7. A professora que nos ensinou algo mais


Talvez muitos alunos tenham passado pelas aulas de Introdução ao Direito sem saber que aquela professora que explicava conceitos jurídicos escrevia também poesia.

Mas hoje parece evidente que havia ali algo mais do que uma simples exposição de categorias jurídicas.

Havia uma visão de mundo.

Porque ensinar Direito, no fundo, não é apenas transmitir normas.

É formar intérpretes da experiência humana.

E quem escreve poesia talvez esteja particularmente preparado para essa tarefa.


8. Conclusão: a memória que permanece


Com o passar dos anos esquecemos muitos detalhes da vida acadêmica.

Esquecemos classificações, esquemas conceituais, distinções doutrinárias que, na juventude, nos pareciam decisivas.

Mas certas presenças permanecem.

Alguns professores deixam conteúdos.

Outros deixam uma maneira de olhar o mundo.

Hoje, relendo os poemas de nossa Professora Beatriz Dutra, compreendo melhor aquilo que talvez não soubéssemos formular quando éramos estudantes nos anos 1980.

A professora que nos ensinava Direito ensinava, na verdade, algo anterior ao próprio Direito: a atenção ao humano.

Porque o Direito pode tornar-se técnica. Pode tornar-se sistema. Pode tornar-se engrenagem institucional.

Mas nunca deveria deixar de ser uma ciência da vida humana em sociedade.

Quando a Professora escreve:

“Quero, simplesmente, sentir-me um ser humano”,

ela formula em poucos versos uma verdade que deveria acompanhar todo jurista.

A poesia não substitui a lei.

Mas impede que a lei esqueça o humano.

E talvez seja por isso que alguns mestres permanecem de forma tão viva em nossa memória.

Não porque tenham ensinado mais conteúdos do que outros.

Mas porque nos ensinaram uma atitude diante da vida e do conhecimento.

A professora Beatriz Dutra pertence, sem dúvida, a essa rara categoria.

Se hoje percebemos com maior clareza o vínculo entre Direito e poesia, talvez seja porque tivemos a sorte — ou a graça — de encontrar, logo no início de nossa formação jurídica, uma professora que já havia descoberto esse elo.

Ela ensinava Direito.

Mas, no fundo, ensinava algo ainda mais precioso: que não há justiça sem humanidade — e não há humanidade sem sensibilidade.

E talvez a poesia seja exatamente isso: a linguagem pela qual a sensibilidade se torna palavra.


Bibliografia

DUTRA, Beatriz. Meus poemas mais amados. 1. ed. Rio de Janeiro: ZMF Editora, 2019.

OST, François. Contar a lei: as fontes do imaginário jurídico. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2006.

NUSSBAUM, Martha C. Poetic Justice: The Literary Imagination and Public Life. Boston: Beacon Press, 1995.


 
 
 

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2 comentários


Paulo Oliveira
09 de mar.

Conheci em minha vida apenas duas pessoas que possuíam oceanos não pacíficos no olhar (salve Bandeira), a professora Beatriz Dutra foi uma delas. Não era raiva, era e é paixão.

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Beatriz R.Dutra
09 de mar.

Tão bonito, Glenio.Tão bonito!

Viver poeticamente é questão de natureza,, não simplesmente de vontade. Obrigada pelo seu lindo texto.

Estou lisonjeada com suas palavras.

Obrigada, querido amigo!

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