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A GÊNESE DO PORTUGUÊS: PARA ALÉM DO MITO DA "LÍNGUA DE CAMÕES"

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    gleniosabbad
  • 26 de set. de 2025
  • 6 min de leitura

Autor: Glênio Sabbad Guedes


RESUMO


O presente artigo analisa o debate contemporâneo sobre a formação da língua portuguesa, contrastando a visão da filologia tradicional com a tese revisionista do linguista Fernando Venâncio. Parte-se da desconstrução do mito de Luís de Camões como "criador" do idioma para aprofundar a discussão sobre a verdadeira genealogia do português. Apresentam-se as teses da filologia clássica, que postulam uma "unidade galego-portuguesa" da qual as duas línguas teriam se emancipado, e a tese ontológica de Venâncio - assim a denomino -, que defende ser o português um continuador histórico do galego. Analisam-se as provas lexicais e estruturais apresentadas por Venâncio, bem como os argumentos contrários, oriundos tanto da tradição filológica quanto de abordagens sociopolíticas. Conclui-se que o debate, longe de estar encerrado, representa um avanço salutar na compreensão da história do idioma, para além dos mitos nacionais.


Palavras-chave: História da Língua Portuguesa; Fernando Venâncio; Galego-Português; Filologia; Camões.


1 INTRODUÇÃO: DESCONSTRUINDO O "MITO CAMONIANO"


No imaginário cultural lusófono, a figura de Luís de Camões (1524-1580) é frequentemente associada à própria fundação da língua portuguesa moderna. A ideia de uma "língua de Camões" sugere que o poeta de Os Lusíadas teria sido um grande inventor lexical, um arquiteto que deu forma e esplendor ao idioma. Contudo, pesquisas recentes do linguista Fernando Venâncio têm desafiado frontalmente essa percepção. A análise de sua obra poética revela que o investimento de Camões num léxico "castiço" e autóctone foi residual. De 735 adjetivos usados em Os Lusíadas , apenas um ("insofrido") representa uma estreia na língua, enquanto dezenas de outros são latinismos já correntes no castelhano da época. O projeto camoniano, segundo Venâncio, não era o de criar um português autônomo, mas o de modernizar o idioma segundo o modelo castelhano, visando a uma circulação internacional. A desconstrução deste mito, contudo, serve de porta de entrada para uma questão ainda mais profunda e estruturante: qual é a verdadeira origem da língua portuguesa? Se não foi uma invenção de Camões, tampouco teria sido uma criação simultânea à do Estado português, como defende outra corrente mítica. Este artigo visa, portanto, a explorar o debate central sobre a gênese do português, opondo a visão da filologia tradicional à tese ontológica de Fernando Venâncio.


2 A VISÃO DA FILOLOGIA TRADICIONAL: UNIDADE E BIFURCAÇÃO


A corrente dominante na linguística histórica luso-brasileira, consolidada por grandes filólogos como Adolfo Coelho, postula a existência de uma fase de "unidade galego-portuguesa". Segundo este modelo, entre os séculos XII e XIV, falava-se no noroeste da Península Ibérica um único idioma, ou um diassistema com grande coesão, que serviu de veículo para a notável produção lírica trovadoresca. A diferenciação entre o galego e o português teria sido consequência direta da separação política. Com a independência do Condado Portucalense e a consolidação do Reino de Portugal, a variedade falada ao sul do rio Minho passou a ter uma história própria. Influenciada por um novo centro de poder e pela expansão para o sul, esta variedade teria se "emancipado" da sua fase comum com o galego. Autores contemporâneos, como o historiador Fernando Cristóvão e a linguista Luísa Segura, continuam a operar dentro deste paradigma, referindo-se à "fase galego-portuguesa" como um período histórico superado pela afirmação de uma nova língua soberana.


3 A TESE ONTOLÓGICA DE FERNANDO VENÂNCIO: O PASSADO GALEGO DO PORTUGUÊS


Fernando Venâncio propõe uma ruptura radical com o modelo tradicional. Para ele, a questão não é de "emancipação" de uma fase comum, mas de descendência direta. A sua tese, aqui chamada de ontológica, redefine a natureza (o ser ) da língua medieval: não se tratava de um "galego-português", termo que considera um eufemismo político criado para não ferir o nacionalismo luso, mas simplesmente de "galego". O português, nesta visão, é um galego que se expandiu, se transformou e foi, séculos depois, batizado com outro nome. Para sustentar essa afirmação, Venâncio apresenta um conjunto de provas de ordem estrutural e lexical:


● Preexistência Estrutural: Antes mesmo da fundação de Portugal, a língua falada na Gallaecia Magna (que englobava o norte de Portugal) já possuía as suas estruturas fonológicas e morfológicas distintivas, como a queda do -L- e -N- intervocálicos (e.g., solu > só ; arena > area ) e a abundância de ditongos decrescentes ( mais, eu, dois, outro ).


● Léxico Exclusivo Compartilhado: Venâncio identificou 195 verbos de uso corrente que existem apenas em galego e português, e em nenhuma outra língua românica. Este léxico exclusivo, como o verbo mergulhar , seria uma prova irrefutável de uma origem única e de um desenvolvimento isolado.


● Assimetria dos Latinismos: O autor aponta que a predominância de latinismos populares exclusivos do galego (que não passaram para o português) é uma "excelente prova material" de que o centro de formação e inovação da língua se localizava na Galiza.


4 ARGUMENTOS CONTRÁRIOS E O DEBATE EM ABERTO


A tese de Venâncio, embora fundamentada, confronta mais de um século de produção filológica. A contestação à sua visão pode ser encontrada na persistência do modelo tradicional:


● A Tese da Evolução Paralela: A visão de José Leite de Vasconcelos, um dos pais da filologia portuguesa, já se opunha a uma relação de descendência. Ele afirmava que sobre galego e português "se não deve dizer nem que o galego provém do português, nem este daquele", pois ambos estariam em "idênticas relações com o latim¨. Essa visão de duas línguas-irmãs que evoluem em paralelo a partir do latim é a antítese da tese ontológica de Venâncio.


● O Paradigma Acadêmico Vigente: Como já mencionado, trabalhos recentes e de grande envergadura, como a Gramática do Português da Fundação Gulbenkian, continuam a utilizar o referencial da "fase do galego-português". A obra de historiadores como Fernando Cristóvão igualmente reforça a narrativa da "emancipação", descrevendo a língua prévia como "inculta e rude", da qual a língua portuguesa "rapidamente se emancipou".


5 CONCLUSÃO


O debate sobre a gênese da língua portuguesa é muito mais complexo e fascinante do que sugerem os mitos de origem, sejam eles centrados na figura de Camões ou na fundação do Estado português. A obra de Fernando Venâncio representa uma contribuição provocadora e de grande fôlego, que obriga a comunidade acadêmica a reexaminar as suas premissas e a questionar a terminologia consagrada. Sua tese ontológica, sustentada por evidências lexicais e estruturais, propõe uma revisão genealógica que abala as fundações da narrativa tradicional. Por outro lado, a persistência do modelo da "unidade galego-portuguesa" em trabalhos filológicos, históricos e gramaticais de peso demonstra a força de um paradigma construído ao longo de mais de um século. A discussão está, portanto, longe de um consenso. Este dissenso, no entanto, é extremamente produtivo. Ele evidencia que a história de uma língua não é uma linha reta e inequívoca, mas um campo de forças sociais, políticas e culturais em constante reinterpretação. O questionamento das narrativas estabelecidas é o caminho para uma compreensão mais rica e fidedigna do percurso histórico que resultou no idioma que hoje nos une.


REFERÊNCIAS


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