A fístula anal do Rei e a dignidade da cirurgia
- gleniosabbad
- 15 de ago.
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Atualizado: 17 de ago.
Como o traseiro de Luís XIV ajudou as mãos a vencerem o latim
“L'État, c'est moi.” A fístula, contudo, parecia discordar.
Ao Dr. Jair e ao Dr. Leopoldo, nossos amigos cirurgiões, e, em seu nome, aos cirurgiões — porque o corpo, ao contrário da vaidade, sabe distinguir uma mão que sabe de uma cabeça que presume.
Por Glênio S Guedes (advogado)
Luís XIV podia governar ministros, exércitos, cortesãos e províncias; podia mandar construir Versalhes, disciplinar a nobreza e fazer de sua própria pessoa uma instituição política. Havia, entretanto, no absolutismo francês uma pequena comarca insubmissa, situada em região que a etiqueta palaciana preferiria não mencionar. Em 1686, uma fístula anal recordou ao Rei Sol que o direito divino dos reis não incluía imunidade anatômica.
A enfermidade era dolorosa e persistente. Os tratamentos conservadores fracassaram. Pomadas, emplastros, águas minerais e demais recursos de uma medicina ainda tributária de antigas concepções terapêuticas não conseguiram convencer a fístula a respeitar a hierarquia social. Restava fazer aquilo que durante séculos fora considerado ocupação intelectualmente menor: operar.
Eis a primeira ironia da história. Quando a medicina erudita chegou ao limite de sua eloquência, foi necessário chamar um homem com instrumentos cortantes.
Chamava-se Charles-François Félix de Tassy, cirurgião do rei. Em 1686, depois de preparação cuidadosa, Félix realizou a operação que se tornaria um dos episódios mais célebres da história da cirurgia. O procedimento foi bem-sucedido e contribuiu poderosamente para aumentar o prestígio social da profissão. Não inventou a cirurgia, evidentemente, nem converteu de uma assentada um ofício manual em ciência moderna. Mas demonstrou, diante do corpo politicamente mais importante da França, que havia conhecimentos que não se provavam pela autoridade dos livros, e sim pela capacidade de intervir eficazmente sobre a realidade.
Para compreender a dimensão do episódio, é preciso recuar alguns séculos.
Durante grande parte da história europeia medieval e moderna, medicina e cirurgia ocuparam posições sociais e intelectuais bastante distintas. O médico formado no ambiente universitário pertencia ao mundo das letras, das autoridades clássicas, do latim e da elaboração teórica. O cirurgião pertencia muito mais ao universo das técnicas, dos instrumentos, da aprendizagem prática e das corporações de ofício.
Entre os últimos estavam os célebres barbeiros-cirurgiões.
A associação, que hoje parece pitoresca, possuía uma lógica bastante concreta. Barbeiros tinham navalhas, destreza manual e familiaridade com lâminas; realizavam sangrias e outros procedimentos e, em diferentes lugares e períodos, compartilhavam espaços corporativos com cirurgiões. Na Inglaterra, por exemplo, a Company of Barber-Surgeons, constituída em 1540, formava aprendizes e os submetia a exames; somente em 1745 barbeiros e cirurgiões se separariam institucionalmente.
Era uma estranha divisão do trabalho intelectual. De um lado, homens capazes de discorrer sobre o corpo; de outro, homens obrigados a abri-lo.
Não se deve caricaturar nenhum dos grupos. A medicina erudita não era mera tagarelice escolástica, assim como os cirurgiões não constituíam uma confraria de açougueiros especialmente bem vestidos. A oposição, contudo, revela uma hierarquia profunda da cultura ocidental: pensar gozava de maior nobreza do que fazer.
A própria etimologia denunciava a origem pouco aristocrática da cirurgia. Do grego kheirourgía, formado por kheír, mão, e érgon, trabalho, cirurgia significava, em essência, trabalho realizado pelas mãos.
E mãos, convém recordar, sempre tiveram posição ambígua nas sociedades muito satisfeitas com suas hierarquias. São indispensáveis para construir palácios, colher alimentos, tratar feridas e sepultar filósofos; precisamente por isso, costumam ser consideradas menos nobres por quem prefere utilizá-las apenas para escrever sobre o trabalho alheio.
A fístula de Luís XIV torna-se intelectualmente interessante exatamente nesse ponto.
O que estava em jogo não era apenas a ascensão profissional dos cirurgiões, mas o estatuto do próprio conhecimento. Em linguagem epistemológica contemporânea, poderíamos distinguir entre saber que e saber como. O médico erudito possuía, sobretudo, conhecimentos proposicionais: sabia que determinada doutrina afirmava isto, que determinado autor ensinava aquilo, que certos sintomas deveriam ser interpretados segundo determinado sistema. O cirurgião possuía também um conhecimento incorporado: sabia como manejar instrumentos, localizar estruturas, conter uma hemorragia, abrir, extrair, suturar.
Nenhuma dessas formas de conhecimento basta isoladamente. A medicina moderna floresceria justamente quando teoria, observação, anatomia, experimentação e habilidade técnica começassem a integrar-se de maneira cada vez mais rigorosa.
Mas em 1686 ocorreu algo epistemologicamente delicioso.
O corpo do rei foi convocado como árbitro.
A medicina letrada possuía o latim, a tradição e a autoridade dos doutores; Félix possuía experiência, habilidade e instrumentos. A fístula, criatura rudemente empirista, recusou-se a impressionar com credenciais acadêmicas.
Félix venceu.
Não devemos exagerar a causalidade histórica. A cirurgia vinha construindo havia muito sua própria tradição intelectual. Ambroise Paré, no século XVI, já personificara magnificamente a ascensão do conhecimento cirúrgico fundado na experiência; anatomistas e cirurgiões aproximavam progressivamente aquilo que a velha hierarquia separara. A própria história dos barbeiros-cirurgiões mostra uma longa institucionalização da aprendizagem, dos exames e da transmissão profissional do saber.
A operação real, portanto, não realizou uma revolução epistemológica por decreto — ainda que decretos fossem especialidade daquela corte. Fez algo talvez mais importante para uma transformação social: deu-lhe espetáculo.
Quando um artesão trata um desconhecido com sucesso, adquire um cliente satisfeito. Quando o cirurgião cura o Rei Sol diante da corte, adquire capital simbólico - ou, por outras palavras, o ¨traseiro¨ virou ¨tesouro¨...
Sim, o traseiro de Luís XIV tornou-se, involuntariamente, tribuna política da cirurgia.
A partir daí, a história continuaria seu curso. A cirurgia ganharia progressivamente autonomia profissional, instituições próprias, formação mais sistemática e crescente integração com anatomia e medicina científica. Na Inglaterra, a antiga corporação dos barbeiros-cirurgiões acabaria dividida em 1745; o desenvolvimento posterior levaria à institucionalização de uma profissão cirúrgica cada vez mais rigorosamente formada e examinada.
Ainda faltava muito. Sem anestesia moderna, antissepsia, microbiologia, técnicas de controle de hemorragia aperfeiçoadas, imagem médica e todos os recursos posteriores, operar continuaria durante longo tempo a ser uma aventura em que a coragem do paciente frequentemente precisava rivalizar com a habilidade do cirurgião. O episódio de Luís XIV não deve, portanto, ser confundido com o nascimento da cirurgia moderna. É antes um daqueles momentos em que uma transformação secular se deixa enxergar através de um acontecimento quase teatral.
E talvez aí resida sua lição mais atual.
A ciência não progride apenas acumulando proposições verdadeiras. Progride também quando revê suas hierarquias de conhecimento; quando percebe que teoria sem confronto com a experiência pode transformar erudição em ornamento; quando reconhece que existe inteligência nas mãos e pensamento nas técnicas; quando permite, enfim, que a realidade tenha a indelicadeza de contradizer a autoridade.
Luís XIV passou para a história como imagem quase perfeita do poder absoluto. Sua fístula legou uma advertência menos majestosa e talvez mais duradoura.
Pode-se governar um reino sem consultar os súditos. Pode-se domesticar a aristocracia, centralizar o Estado e transformar a etiqueta em instrumento de poder. Pode-se até ser chamado de Rei Sol.
Mas chega uma hora em que é preciso chamar o cirurgião.
E, nesse momento, o latim deve ter a cortesia de ceder lugar às mãos.


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