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Aprender a falar ‘pacientês’: a formação do médico como aprendizado de um genérico

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    gleniosabbad
  • 7 de fev.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 8 de fev.

“O tamanho do paradoxo, na medicina ocidental, está em que o meu corpo tem que ser ‘meu’ em que pese seu estatuto social de objeto eminentemente público, e, portanto, suscetível de inúmeras formas de intervenção e manipulação, das mais grotescas às mais sutis: inclusive e principalmente no âmbito discursivo da sua construção como singularidade ou, justamente, na retenção de qualquer traço que seja na afirmação dessa singularidade.”(Ylka, 2010)

Por Glênio S Guedes ( advogado )


1. Introdução: lições de língua para futuros clínicos


Quem entra numa faculdade de medicina imagina que aprenderá, antes de tudo, a examinar corpos. Engana-se: o primeiro aprendizado é o de uma língua. Não a língua portuguesa, que essa já vem razoavelmente estragada do ensino médio, mas um dialeto específico, de morfologia latina e sintaxe impessoal, que chamaremos aqui, com a licença da autora que nos inspira, de médiquês.

A leitura do livro de Ylka – cuja experiência de adoecimento e análise rigorosa do discurso médico atravessa estas páginas – nos sugere que a formação médica é, no fundo, um longo curso de imersão nessa língua estrangeira. O estudante, como qualquer viajante inseguro em país alheio, aprende fórmulas prontas, expressões de sobrevivência, conjugações mínimas para circular entre casos, laudos e protocolos. Com o tempo, torna-se fluente. Quando se dá conta, porém, descobre que a moeda dessa fluência tem duas faces: de um lado, a comunicabilidade rápida entre pares; de outro, o risco de não dizer mais nada a quem, paradoxalmente, é o centro da cena – o paciente.

É de linguagem, portanto, que trata este ensaio: da forma como a escola médica treina seus futuros profissionais a falar de corpos, doenças e pessoas; e de como, nesse processo, o singular corre o risco de desaparecer sob uma camada espessa de genéricos. Valer-nos-emos apenas da obra de Ylka, não por devoção exclusivista, mas porque ali se encontra, condensado, um laboratório vivo de observação das práticas discursivas da medicina, visto de dentro e de fora ao mesmo tempo. E porque é uma obra que deveria ser lida por médicos e advogados, ambos detentores de um jargão susbstancialmente hermético.

Nosso propósito não é acusar médicos de falta de humanidade – acusação fácil e pouco interessante –, mas seguir o fio indicado pela autora: há uma gramática, aprendida e reproduzida, que produz determinados efeitos de sentido. Se esses efeitos incluem o apagamento do indivíduo, a culpabilização sutil e a transformação do corpo em objeto público de circulação burocrática, então talvez seja o caso de perguntar o que, exatamente, a formação médica anda ensinando a seus alunos quando lhes ensina a falar.


2. O estágio no país do genérico


No primeiro capítulo de seu livro, Ylka nos apresenta o que poderíamos chamar de geografia do genérico. As grandes categorias – “doente crônico”, “usuário do serviço”, “paciente oncológico” – reinam soberanas em relatórios, políticas de saúde e falas corriqueiras. A autora nos lembra que esse regime não é exclusivo da medicina: o direito fala do “réu”, a escola fala do “aluno”, o jornal fala do “trabalhador”. Não é à toa, portanto, que o estudante de medicina chegue à faculdade já treinado em pensar sob a forma de “problemas sociais” e “temas gerais” – aquela prosa bem-comportada das redações, que menciona “as crianças” em abstrato sem jamais se comprometer com uma só em carne e osso.

O que a formação médica faz é elevar esse genérico a método. Ao longo dos anos, o estudante aprende a substituir nomes por rótulos: João vira “masculino, 54 anos, tabagista”; Maria, “G2P2, hipertensa controlada”; e assim sucessivamente. Ylka observa, com precisão clínica, que essa substituição não ocorre apenas no prontuário: ela infiltra-se na fala, no modo de narrar casos, na forma de pensar o outro. O caso ganha uma densidade discursiva superior à da pessoa que o sustenta.

Dir-se-á que sem generalização não há ciência, e terá razão quem o disser. A autora jamais propõe um retorno romântico a uma medicina de casos isolados, descolada de evidência e estatística. O que ela aponta é um deslizamento: da generalização necessária, operada com consciência de seus limites, para a generalização automática, que se torna hábito de percepção. O estudante, repetindo a fórmula, passa a ver primeiro o rótulo, depois o rosto – quando vê.

Em termos linguísticos, trata-se de um treinamento intensivo no uso do substantivo genérico e da terceira pessoa. Pacientes deixam de ser “você” para tornar-se “o paciente”; histórias de vida convertem-se em “história pregressa”; medos e expectativas são lidos como “negativas” ou “referidos”. Ylka mostra como esse processo, reiterado ao longo de anos, institui um ponto de vista: aquele em que o indivíduo é apenas instância de um tipo, caso dentro de série, linha numa tabela.


3. Vozerio acadêmico: falar com bocas emprestadas


Se o capítulo inicial do livro acende o refletor sobre o genérico, o segundo ilumina o coro de vozes que habita o discurso médico. A autora mobiliza a noção de vozes ideológicas para mostrar que, quando o médico fala, raramente fala sozinho: passam por sua boca a mídia, as campanhas de prevenção, as narrativas heroicas da “luta contra o câncer”, as estatísticas apresentadas como oráculos.

O estudante de medicina aprende, desde cedo, a repetir certas fórmulas que já chegam com cheiro de verdade estabelecida. Fala em “combate a doenças”, “arma terapêutica”, “prognóstico reservado” e outras expressões que, de tão reiteradas, já não se pensam. A formação, aqui, se parece com um curso de declamação: ensina-se a entoar o texto de uma tradição, não necessariamente a reescrevê-lo.

Ylka, ao narrar suas experiências com oncologistas, patologistas e psicólogos, faz emergir esse vozerio. Um gráfico de sobrevida, que para o pesquisador é instrumento de trabalho, pode ser entregue ao paciente como espécie de horóscopo matemático; um número – “mediana de oito meses” – ganha, no ouvido leigo, o estatuto de sentença. É significativo que, no livro, quem consegue desmontar esse feitiço seja um cientista, Stephen Jay Gould, que decide ler a estatística como estatística, e não como destino. Em outras palavras: alguém que, mesmo dentro da ciência, não abre mão de perguntar o que as palavras – e números – fazem.

Perguntemos, então, o que a escola médica faz. Aprende-se a explicar curvas, riscos, probabilidades? Ou apenas a pronunciá-los com voz segura, na esperança de que o paciente se conforme? Ylka sugere que a formação tende mais ao segundo caminho. O estudante aprende a dizer “a chance de sobrevida em cinco anos é de tanto por cento”, sem necessariamente ser treinado a traduzir esse enunciado em algo que não se confunda com “o senhor tem tanto tempo de vida”.

A ironia, aqui, é amarga: a medicina, ciência de incertezas e probabilidades, fala com frequência como se lidasse com certezas e destinos. O futuro clínico, que poderia aprender a manejar a dúvida com elegância e rigor, aprende antes a escondê-la sob o peso de fórmulas peremptórias. A língua acompanha: verbos no presente do indicativo, termos categóricos, pouca marca de modalidade. A hesitação, quando existe, é muitas vezes guardada para o corredor, não para a conversa com o doente.


4. O catecismo da causa: culpas elegantes e outras pedagogias


No terceiro capítulo, Ylka volta para casa depois do transplante e encontra, no espelho, um corpo que já não reconhece. É nesse cenário íntimo que a pergunta “por quê?” ganha toda a sua crueza. Por que eu? Por que agora? De onde veio esse linfoma que, até ontem, não constava nos meus planos?

A autora percorre então a longa história da causa na filosofia e na medicina, mas o que nos interessa aqui é outro percurso: o da aprendizagem da causalidade como forma de discurso. O estudante de medicina é treinado a pensar em causa e efeito; a etiologia é um dos pilares de sua formação. Nada mais justo: saber o que causa uma doença permite preveni-la, tratá-la, contê-la. O problema surge quando essa linguagem causal, útil no laboratório e na epidemiologia, é transplantada – sem ajuste – para o diálogo com indivíduos.

Ylka insiste na distinção entre fator de risco e causa individual, distinção essa que, na formação, nem sempre ganha o relevo devido. Fumar aumenta o risco de câncer de pulmão em populações; disso não resulta, todavia, que “seu” câncer tenha sido, em sentido forte, causado pelo cigarro. Há um salto semântico entre uma afirmação e outra, e é exatamente esse salto que muitas vezes a fala médica realiza, com a melhor das intenções e o pior dos efeitos.

O estudante aprende, assim, um pequeno catecismo causal: “sedentarismo causa doença cardiovascular”, “stress causa imunossupressão”, “determinados traços de personalidade predispõem ao adoecimento”. Aos poucos, essas fórmulas se inscrevem em sua maneira de falar com os pacientes. Quando alguém lhe pergunta “por que eu?”, é tentador oferecer uma resposta que feche o circuito: “por causa disso, por causa daquilo”. A dúvida, essa companheira pouco confortável, é rapidamente substituída pela segurança narrativa.

O resultado é o que a autora descreve com nitidez: uma culpabilização discreta, porém eficiente. O paciente, já fragilizado, sai da consulta não apenas doente, mas também, em algum nível, responsável por tê-lo ficado. A elegância da operação está em que a culpa vem travestida de dado científico: fala-se de estilo de vida, escolhas, manejo do stress, como se cada existência fosse um projeto cuidadosamente administrado, e não aquilo que sabemos bem que é – um amontoado de contingências, acidentes e, sim, alguns descuidos.

A escola médica, quando não problematiza essa passagem, acaba ensinando, junto com fisiologia e farmacologia, uma teologia laica em que cada um recebe, no corpo, o retorno de seus méritos ou falhas. Ylka, com a autoridade de quem foi paciente de uma doença sem causa clara, expõe a fragilidade dessa lógica e, por conseguinte, revela uma lacuna na formação: a falta de um letramento crítico em causalidade, que permita ao médico usar a linguagem da causa sem convertê-la em ferramenta moral.


5. Uma pedagogia da língua: o que a escola médica poderia ensinar e não ensina


Tomando a obra de Ylka como lente, podemos dizer que a formação médica é uma pedagogia da língua em pelo menos três níveis:


  1. Léxico – o aprendizado de um vocabulário técnico, indispensável para a circulação entre pares e a precisão diagnóstica;

  2. Sintaxe – a preferência por construções impessoais, substantivos abstratos, frases telegráficas;

  3. Pragmática – modos de usar essa língua em situações concretas, com pacientes, famílias, equipes.


No primeiro nível, a escola tem êxito: poucos cursos são tão eficazes em gerar um jargão compartilhado. No segundo, o êxito é mais ambíguo: a sintaxe impessoal que garante concisão também produz efeitos de distanciamento. No terceiro, finalmente, a eficácia é duvidosa: a prática mostra que muitos médicos saem da faculdade tecnicamente competentes, mas frequentemente desajeitados no uso da própria língua quando se trata de conversar com quem não a partilha.

O livro que nos orienta oferece, implicitamente, uma proposta pedagógica: não se trata de abandonar o médquês, mas de tornar-se bilingue. Ensinar o futuro médico a oscilar entre o registro técnico e uma fala capaz de re-individualizar o paciente; a reconhecer quando o genérico é necessário – em pesquisa, protocolos – e quando ele apaga, cruelmente, o que mais importa.

Isso exige, antes de tudo, que a formação inclua um momento de reflexão sobre a própria linguagem. Não basta repetir a palavra “humanização” em documentos institucionais; é preciso perguntar: que verbos usamos? A quem atribuímos agência em nossas frases? Como falamos de quem não obedece, não segue o tratamento, não se encaixa no modelo? Que metáforas mobilizamos quando explicamos o câncer, a depressão, a dor crônica?

Ylka oferece exemplos pungentes de como essa reflexão poderia alterar condutas. Um laudo que, em vez de dizer “paciente nega dor”, poderia registrar “o paciente afirma não sentir dor no momento”: leve deslocamento, grande diferença de atitude. Uma devolutiva que, no lugar de “foi indicado transplante”, assuma: “estamos indicando transplante e gostaríamos de discutir com você os riscos e benefícios”. A língua, aqui, não é ornamento: é a própria arquitetura da relação.


6. Considerações (não exatamente) finais: por uma clínica da palavra


Encerrando seu livro, Ylka afirma, em outras palavras, que não há medicina sem linguagem. O corpo doente é descrito, narrado, classificado; exames são interpretados, decisões são tomadas e justificadas em frases. O paciente, por sua vez, adoece também na língua: tenta dar nome ao que sente, empresta metáforas ao próprio sofrimento, recebe rótulos, prognósticos, explicações.

Se aceitamos essa premissa, a formação médica não pode continuar tratando a linguagem como um detalhe de estilo ou um talento individual – “alguns médicos se expressam bem, outros menos”. Trata-se de reconhecer que há, na própria estrutura do discurso aprendido na faculdade, mecanismos que tendem a apagar o singular, a impor vozes alheias e a produzir causalidades moralizantes. A crítica de Ylka, ao evidenciar esses mecanismos, presta um serviço que a escola médica ainda não se decidiu a prestar a si mesma.

Não se pede que o futuro médico se converta em linguista; pede-se, mais modestamente, que aprenda a desconfiar das palavras prontas. Que perceba, por exemplo, o peso de dizer “os pacientes em geral…” diante de alguém que, justamente, teme ser apenas mais um na estatística. Que se dê conta de que expressões como “falha terapêutica” podem mascarar um “não funcionou como esperávamos”, mais honesto e menos culpabilizante. Que hesite, ao menos um segundo, antes de responder com explicações causais a perguntas que são, na verdade, pedidos de sentido.

Do ponto de vista estritamente acadêmico, poder-se-ia concluir este ensaio com uma lista de competências comunicativas desejáveis, seguidas de propostas curriculares. Prefiro, inspirado na autora que nos guiou, terminar com uma imagem. Imagine-se o estudante de medicina, no primeiro dia de aula, recebendo, além do estetoscópio simbólico, um aviso: “Você está prestes a aprender uma língua poderosa. Com ela, poderá aliviar ou aumentar sofrimentos, incluir ou excluir, responsabilizar ou acolher. Cada verbo que escolher terá efeitos que não se medem em miligramas, mas em modos de existir. Use com parcimônia.”

Talvez não haja melhor síntese do que o livro de Ylka tenta nos ensinar: a clínica da palavra é inseparável da clínica do corpo. A formação do médico, se quiser honrar o paradoxo apontado na epígrafe – um corpo ao mesmo tempo meu e público –, precisa ensinar, junto com as manobras terapêuticas, a delicada arte de falar com alguém sem, no gesto de nomeá-lo, fazê-lo desaparecer.


P.S: Já estou indicando o livro para cursos de Letras e de Direito, e para amigos e alunos. Leitura indispensável!


Bibliografia


WACHOWICZ, Tereza. Uma análise da linguagem médica (por uma paciente linguista). Curitiba: Editora UFPR, 2023.


 
 
 

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