Antes do português, havia vozes: a lenta emergência de uma língua
- gleniosabbad
- 10 de fev.
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“As línguas não aparecem prontas; vão-se fazendo.”— Paul Teyssier
Em homenagem ao saudoso mestre Horácio Rolim de Freitas
Por Glênio S Guedes ( advogado )
Há algo de sedutor na ideia de que as línguas “nascem”. A imagem é confortável: um dia não havia português; no outro, ele surgiu, quase como um decreto régio ou um milagre filológico. Mas a história das línguas não é feita de datas inaugurais. É feita de continuidades, transformações e deslocamentos lentos. A língua portuguesa, como qualquer língua, não começou: ela emergiu.
Antes do português, havia vozes. Vozes de soldados, de camponeses, de comerciantes, de colonos romanos que trouxeram à Península Ibérica um latim já distante do latim literário de Cícero. Esse latim falado — plural, variável, regional — espalhou-se pela Hispânia ao longo de séculos, misturando-se a substratos locais, sofrendo influências diversas, adaptando-se às realidades sociais e políticas da região.
Quando o Império Romano se fragmenta, também o latim se fragmenta. O que antes era variação interna começa a tornar-se diferença estrutural. As chamadas “línguas românicas” não nascem de um ato inaugural; são o resultado de um processo de divergência gradual. O português é uma dessas ramificações, que se formam sobretudo no Noroeste da Península, numa área que corresponde à antiga Gallaecia romana.
Nesse espaço, o latim evolui de modo particular. Não é um latim puro, nem homogêneo. É um latim popular, já transformado, que se adapta às realidades locais. O que mais tarde se chamará galego-português surge dessa sedimentação histórica. Durante séculos, a língua falada e a língua escrita não coincidem plenamente. A escrita ainda se ancora no latim, enquanto o vernáculo vai ganhando autonomia nas práticas sociais.
Com a formação do Reino de Portugal, no século XII, a história política começa a dialogar diretamente com a história linguística. A consolidação do território, o desenvolvimento da administração, a produção documental e literária — tudo isso contribui para que aquela variedade românica do Noroeste se estabilize como língua de uso escrito. Não houve um “batismo oficial”, mas houve um processo de institucionalização.
É nesse momento que se pode falar em português antigo. Mas mesmo aqui, a língua está longe de ser estática. Fonética, morfologia e sintaxe passam por profundas transformações entre os séculos XIV e XV. O chamado português médio é um período de transição intensa, no qual traços antigos desaparecem e outros se consolidam. O que hoje nos parece natural — determinadas formas verbais, certas construções sintáticas — é fruto dessa lenta reorganização.
Nos séculos XVI a XVIII, com a expansão marítima e a imprensa, o português atravessa o Atlântico e os oceanos Índico e Pacífico. Surge então um novo capítulo da sua história: o das variedades que emergem fora da Europa. O português do Brasil, por exemplo, desenvolve-se em contato com línguas indígenas e africanas, incorporando léxico, ritmos e traços estruturais que o distinguem progressivamente do português europeu.
O mesmo ocorre em Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor-Leste. Em cada espaço, o português se enraíza de modo específico, interagindo com outras línguas e culturas. Não se trata de “desvios” de um modelo central, mas de processos legítimos de adaptação e recriação. A unidade da língua convive com a diversidade de suas realizações.
Mesmo dentro de Portugal, as variedades regionais revelam que a língua nunca foi monolítica. A norma culta, consolidada sobretudo a partir do período clássico, não elimina a variação. Ela a organiza, a hierarquiza, mas não a suprime. A língua real — falada, vivida — continua a mudar.
Falar em emergência, e não em nascimento, é reconhecer essa continuidade dinâmica. É abandonar a imagem da língua como estátua e assumir a metáfora do rio: um fluxo que mantém um nome, mas cuja água jamais é a mesma. O português de hoje não é o do século XVI; este não era o do século XIII; e nenhum deles foi simplesmente “criado”.
Antes do português, havia vozes. E essas vozes nunca cessaram. Elas transformaram o latim em romance, o romance em galego-português, o galego-português em português antigo, e assim sucessivamente. Hoje, continuam a transformar o português que falamos.
Divulgar essa história — clara, didática, inteligível — é também desfazer equívocos. A “fina flor do Lácio” não é uma peça de museu. É o resultado de séculos de uso, contato, conflito e invenção coletiva. Não nasceu pronta. Fez-se — e continua a fazer-se — na boca do povo, na pena dos escritores, nas ruas das cidades, nas escolas, nos tribunais, nas canções.
O português não começou. Ele emerge — ainda.


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