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Soft Power versus Hard Power: não é implausível que Washington tenha mencionado Avignon…

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 19 de abr.
  • 6 min de leitura

Por Glênio S Guedes (advogado)


Tenho claro, em minha mente, a força divina ou mágica das palavras, que podem ser usadas para o bem ou para o mal. Muitas delas há que, pela inocência aparente, fariam boa figura num compêndio escolar; mas, postas em certa mesa e em certo minuto, adquirem a natureza de uma lâmina fina: não precisam brilhar, basta que cortem. Avignon é dessas. Quem a pronuncia, em contexto diplomático, não convoca apenas uma cidade do sul da França; convoca um precedente, isto é, uma dessas recordações históricas que, quando mobilizadas por gente poderosa, deixam de ser lembrança e passam a ser recado.

Convém, portanto, começar pelo princípio — e o princípio, aqui, é menos teológico que narrativo.


1) De onde veio a “menção a Avignon” (e por que isso importa)


A referência a Avignon não surgiu em comunicado solene, nem em ata publicizada, nem em declaração assinada com tinta e responsabilidade. Ela emergiu do terreno onde a política internacional se sente mais à vontade: o dos bastidores.

O que se tem, em resumo, é a seguinte cadeia de transmissão:


  • 🧩 Houve uma reunião reservada no Pentágono, em janeiro, entre o então núncio apostólico nos Estados Unidos (o cardeal Christophe Pierre, isto é, o embaixador da Santa Sé) e o subsecretário de política do Pentágono, Elbridge Colby, acompanhado de equipe.

  • 🧩 A reunião ocorreu no rastro de declarações e gestos pontifícios que, segundo o noticiário, desagradaram Washington: críticas à escalada militar e, adiante, apelos públicos associados à tentativa de conter bombardeios no Oriente Médio.

  • 🧩 Um analista que acompanha de perto a diplomacia vaticana — Francesco Sisci, ligado a um think tank voltado à geopolítica e ao Vaticano — relatou que o encontro “desandou” quando o núncio sustentou que o papa seguiria seu próprio rumo, orientado pelos valores da Igreja.

  • 🧩 Nesse relato, não teria sido Colby, mas outro funcionário presente, quem evocou o “espectro” do chamado papado de Avignon.

  • 🧩 A leitura do analista é que tal evocação foi percebida como ameaça implícita: a ideia de que Washington poderia, em tese, fomentar ou apoiar uma forma de contestação ao papa reinante — um “rival”, em linguagem franca.

  • 🧩 O Pentágono, por sua vez, negou a versão, classificando-a como exagerada e insistindo que a conversa foi respeitosa e profissional; a Casa Branca também procurou enquadrar o vínculo com o Vaticano como positivo.


Eis o ponto: a força política de Avignon, nesse episódio, reside justamente em sua condição de fala atribuída, não oficial — aquela espécie de frase que, se foi dita, permite sempre o álibi do mal-entendido; e se não foi, permite sempre a suspeita de que “bem que poderia ter sido”. A diplomacia moderna é pródiga nesse gênero literário: a frase que existe o bastante para intimidar, e não existe o bastante para incriminar.


2) Hard power e soft power: duas gramáticas do mando


A cena inteira — realçada, contestada, recontada — só ganha sentido quando se reconhece o choque de duas naturezas de poder.


  • Hard power é a gramática do aço: sanções, dissuasão, superioridade aérea, ultimatos com hora marcada. Seu verbo preferido é “impor”.

  • Soft power é a gramática do prestígio: legitimidade, influência simbólica, autoridade moral, capacidade de constranger sem coagir. Seu verbo preferido é “persuadir” — e, quando persuadir falha, “envergonhar”.


Ora, se um Estado dispõe de meios para quebrar coisas, a Santa Sé dispõe — quando em forma — de meios para quebrar narrativas. E há governos que toleram com paciência a crítica moral; até o momento em que ela ameaça converter-se em custo político interno, isto é, em telefonema para congressista, em homilia incômoda, em editorial adverso, em eleitor inquieto. Aí o poder duro, que sempre se julgou senhor do tabuleiro, descobre que o poder brando sabe mexer nas peças sem tocá-las.

A tensão relatada é, pois, a tensão clássica: o império da urgência (o hard power) irrita-se com a lentidão vigilante do escrúpulo (o soft power).


3) Avignon: contexto histórico, com a devida gravidade e um grão de malícia


Que é, então, Avignon — e por que um simples nome pode provocar calafrio em Roma?

Entre 1309 e 1376, a cúria papal transferiu-se para Avignon, sob forte gravitação da monarquia francesa. O papado, destinado a pairar acima das coroas, pareceu a muitos contemporâneos — e a não poucos historiadores — tornar-se vulnerável à lógica do poder temporal. E, quando a cristandade se acostuma a suspeitar que a tiara pode ser puxada por fios políticos, a fé institucional perde algo de sua inocência pública.

Mais tarde, como se a história gostasse de rimas, o Ocidente cristão viveria o drama de pretensões rivais e de obediências partidas: o problema da legitimidade, quando se insinua, raramente se contenta em ser discreto.

Por isso Avignon funciona, ainda hoje, como metáfora de alto poder sugestivo: significa “houve tempo em que a sede do sagrado foi deslocada pela pressão do profano”. Não é preciso desenhar o resto para que o resto se desenhe sozinho na mente do destinatário.

Aqui cabe a ironia — não a gargalhada vulgar, mas a ironia educada, de bigode aparado: quem evoca Avignon numa conversa com o embaixador do papa não está, em regra, oferecendo um curso de história medieval; está lembrando que até instituições milenares têm nervos expostos. E é notável como certos espíritos, ao tratar de nervos alheios, sempre se julgam no exercício da mais elevada prudência.


4) O perigo maior: quando a guerra veste batina retórica


Mas seria frivolidade ficar apenas no mexerico de gabinete — e a frivolidade, embora charmosa, não costuma ser boa conselheira quando o assunto é guerra.

O ponto mais grave — e mais duradouro — está no uso de linguagem religiosa para justificar campanhas militares. Quando autoridades públicas descrevem conflitos em termos de missão divina, cruzada, guerra sagrada, ou algo que rime com isso, operam uma alquimia perigosa: convertem o que poderia ser disputa de interesses (negociável, reversível, com cláusulas) em disputa de absolutos (inegociável, irreversível, com anátemas).

As consequências são velhas como o mundo, mas sempre chegam com roupa nova:


  • 📌 Desumanização do adversário: se o outro é encarnação do mal, a prudência vira covardia e a compaixão, cumplicidade.

  • 📌 Escalada sem freios: objetivos militares tornam-se mandamentos; limites, tentações.

  • 📌 Coexistência corroída: quando se põe o sagrado para brigar, os fiéis herdam a briga — por gerações.

  • 📌 Diplomacia constrangida: negociar deixa de ser política e passa a ser teologia; e teologias, como se sabe, não costumam assinar cessar-fogo sem acrescentar notas de rodapé eternas.


A Santa Sé, que carrega na própria memória institucional capítulos luminosos e capítulos sombrios, tem motivos para estremecer diante dessa retórica: ela sabe que o “verniz religioso” aplicado ao canhão não santifica o canhão; apenas profana a religião e amplia o estrago do canhão. A Igreja pode ter mudado muito ao longo de dois milênios; mas aprendeu ao menos isto: guerras com perfume de altar tendem a durar mais que a pólvora.

Se Machado de Assis contemplasse a cena, talvez registrasse, com aquela fleuma que humilha sem levantar a mão, que há estadistas que não se contentam em administrar a República: pretendem administrar também o Céu — e ainda se ofendem quando o Céu, por falta de expediente, não confirma o recebimento.


5) A “ameaça” que não precisa ser literal para ser eficiente


Retornemos, por fim, ao fio de Avignon.

Mesmo que alguém sustente — com toda a compostura oficial — que não houve ameaça alguma, o episódio (ou o rumor dele) ilumina uma lógica recorrente do poder duro: quando encontra resistência moral, tenta reclassificá-la como inconveniência política; quando não consegue, tenta contorná-la; e, se perde a paciência, arrisca-se a “lembrar” ao resistente que a história já conheceu instituições dobradas por pressões externas.

É aqui que a hipótese do título — “não é implausível” — encontra seu lugar. Não se trata de afirmar uma prova documental; trata-se de reconhecer um padrão: grandes potências usam símbolos, e às vezes usam símbolos com a elegância duvidosa de quem chama isso de “conversa franca”. Avignon, dita no momento certo, é símbolo que dispensa complementos.


6) No fundo, é o império da força e o império do sentido se digladiando


Hard power pode ganhar guerras; soft power pode ganhar o julgamento posterior sobre a guerra. E, como a posteridade é um tribunal que não prescreve, convém ao poder duro medir bem o que diz — sobretudo quando diz com alusões.

Porque, no fim, a disputa não é apenas sobre bombas, alianças e estreitos marítimos: é sobre legitimidade. E legitimidade é esse bem estranho que não se compra, não se confisca e, quando se perde, não volta por decreto.

Avignon, portanto, não é apenas uma palavra medieval passeando entre gente moderna. É um lembrete — talvez impróprio, talvez mal colocado, talvez até negado — de que a história pode ser usada como instrumento de pressão. E que há pressões que, ao pretenderem calar uma consciência, apenas a tornam mais audível.


 
 
 

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