Periergia: quando o estilo começa a devorar o pensamento
- gleniosabbad
- 10 de mai.
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Notas sobre prolixidade, asianismo e os velhos excessos da eloquência
“A verdadeira eloquência consiste em dizer tudo quanto é necessário, e apenas isso.”
— François de La Rochefoucauld
Por Glênio S Guedes (advogado)
Existe certo tipo de homem que jamais diz “bom dia”. Ele inaugura atmosferas. Sua simples saudação já contém uma solenidade discretamente episcopal, como se o nascer do sol houvesse requerido comissão organizadora, parecer técnico e audiência pública. Não raro, esses indivíduos são estimados em ambientes burocráticos, acadêmicos ou políticos, onde a obscuridade costuma desfrutar da reputação que outrora pertenceu à sabedoria.
A Retórica clássica conhecia tais criaturas com admirável antecedência.
Ao contrário do que imagina a pedagogia moderna — excessivamente inclinada a transformar a linguagem numa delegacia gramatical de pequenas infrações escolares —, os antigos não tratavam os vícios da eloquência como simples “erros”. Havia, na tradição retórica, uma percepção muito mais refinada: os excessos da linguagem não pertencem todos à mesma espécie. Alguns derivam da vaidade; outros, da insegurança; outros, ainda, do desejo legítimo de elevação estética. Há excessos cômicos, excessos majestosos, excessos patológicos e excessos sublimes.
Nem toda exuberância é defeito. Nem toda concisão é virtude.
A própria eloquência, quando viva, habita uma região delicadíssima entre clareza e sedução. Um discurso inteiramente desnudo pode informar; raramente encanta. Já a ornamentação excessiva transforma a linguagem numa tapeçaria tão carregada que já não permite ver a parede.
O problema não é o ornamento. É o momento em que ele começa a substituir aquilo que deveria servir.
É aí que surge a periergia.
O termo, vindo do grego, designa algo mais sofisticado do que mero detalhismo. A periergia consiste na hipertrofia da elaboração formal. Não se trata simplesmente de escrever muito, mas de trabalhar excessivamente a linguagem, aplicando aparato estilístico desproporcional à relevância da ideia comunicada.
Ela nasce quando o estilo se emancipa do pensamento. Ou, pior: quando o pensamento passa a existir apenas para justificar o estilo.
Imagine-se um autor que, desejando informar que alguém tomou café, escreve:
“A colher argêntea repousava, em melancólica liturgia doméstica, sobre a porcelana alvo-marfínea, enquanto o aroma escuro da infusão ascendia como memória líquida das fadigas humanas.”
O leitor, após atravessar essa procissão metafísica de porcelanas e vapores existenciais, descobre apenas uma xícara de café.
A frase tornou-se maior do que a ideia.
Eis a periergia.
Seu traço distintivo não é quantitativo, mas proporcional. Um texto pode ser curto e profundamente periergético. O vício reside na discrepância entre:
esforço formal;
densidade intelectual;
e finalidade comunicativa.
Há nela certa voluptuosidade da linguagem. O texto parece admirar-se diante do espelho, enamorado da própria tessitura verbal. A frase já não deseja esclarecer; deseja ser contemplada.
A periergia floresce com frequência:
em academicismos intoxicados pela terminologia;
em barroquismos degenerados;
em juridiquês ornamental;
em textos que confundem obscuridade com profundidade;
e em autores para quem o adjetivo funciona como joalheria portátil.
Não raro, ela nasce do medo. A clareza expõe. A simplicidade coloca a ideia nua diante do leitor. Muitos preferem protegê-la sob rendas sintáticas, abstrações monumentais e névoas vocabulares. A obscuridade oferece uma vantagem psicológica notável: quando ninguém compreende o texto, poucos ousam admitir.
Mas a periergia não se confunde com prolixidade, embora frequentemente caminhem juntas como parentes excessivamente íntimos.
A prolixidade pertence a outra ordem de fenômenos. Não diz respeito prioritariamente ao rebuscamento, mas ao percurso discursivo. Um texto prolixo é aquele em que o pensamento termina antes da linguagem. O discurso continua avançando quando a ideia já chegou ao destino.
A prolixidade não depende do tamanho absoluto do texto. Marcel Proust escreveu milhares de páginas sem se tornar verdadeiramente prolixo, porque sua expansão verbal produz continuamente densidade sensorial, psicológica e estética. Em contrapartida, certos memorandos administrativos conseguem instaurar desespero ontológico em oito linhas.
A prolixidade surge quando:
o avanço semântico desacelera;
a informação nova rareia;
o discurso passa a circular ao redor de si mesmo;
a linguagem continua movendo-se sem necessidade funcional.
Ela constitui uma espécie de inflação verbal. O texto cresce sem aumento correspondente de substância.
A burocracia moderna tornou-se uma de suas grandes catedrais. Certos documentos administrativos conseguem converter a frase “houve atraso” em três páginas de “readequações operacionais de cronograma”. A linguagem corporativa contemporânea, por sua vez, desenvolveu verdadeira liturgia da prolixidade aromatizada por anglicismos. Já não se vende um produto; “otimiza-se a experiência integrada do usuário em ambientes de performance escalável”.
Tudo isso para anunciar uma caneca térmica.
Mas a prolixidade ainda preserva alguma relação com o conteúdo. A linguagem, embora excessiva, continua tentando comunicar algo.
A batologia representa estágio diferente.
A batologia é repetição improdutiva. Não se deve confundi-la com a repetição retórica legítima. A Retórica clássica sempre soube que repetir pode ser arte. As anáforas bíblicas, os refrães poéticos, as cadências de Padre António Vieira ou os grandes discursos políticos demonstram isso abundantemente. A repetição pode:
fixar memória;
produzir ritmo;
criar intensidade emocional;
estabelecer musicalidade;
reforçar persuasão.
A batologia, porém, repete sem finalidade estética ou argumentativa.
Ela não intensifica: desgasta.
É a linguagem girando sobre si própria como mecanismo cansado. O orador reformula indefinidamente a mesma ideia porque não possui outra. Muitos debates televisivos contemporâneos transformaram essa técnica numa forma de existência profissional.
Fala-se incessantemente. Pensa-se episodicamente.
Outro conceito frequentemente confundido é o de tumidez.
A tumidez não equivale à mera grandiloquência. Isso é fundamental. Existem formas legítimas de elevação verbal. Certos temas exigem expansão tonal, majestade sintática, energia oratória. O sublime dificilmente se exprime em linguagem burocraticamente econômica.
Victor Hugo frequentemente escreve de modo grandioso. Rui Barbosa também. Nem por isso são necessariamente tumidos.
A tumidez nasce quando a linguagem tenta parecer maior do que o pensamento comporta.
É o inchaço verbal.
O discurso assume dimensão épica sem possuir densidade correspondente. Pequenas ideias recebem tratamento monumental; trivialidades convertem-se em “rupturas civilizatórias”; banalidades administrativas passam a soar como reorganizações cósmicas da História Universal.
A tumidez ama:
superlativos;
abstrações grandiosas;
dramatização permanente;
intensidade contínua;
solenidade hipertrofiada.
Ela ignora gradações. Tudo precisa soar decisivo, histórico, transformador, paradigmático.
É linguagem com febre.
Já a ampulosidade aproxima-se da tumidez, mas possui natureza mais cenográfica. Se a tumidez infla o conteúdo aparente, a ampulosidade teatraliza a expressão. Trata-se da pompa verbal transformada em atmosfera.
Tudo nela parece:
reverberante;
cerimonial;
institucionalmente solene;
excessivamente protocolar.
A ampulosidade não deseja apenas comunicar; deseja impressionar pela arquitetura acústica da frase.
Imagine-se alguém dizendo:
“Procederemos à operacionalização logística da ingestão alimentar matinal.”
Quando bastaria:
“Vamos tomar café.”
Aqui o problema não é apenas o excesso. É a solenização artificial da banalidade. A linguagem veste toga para atravessar a cozinha.
A burocracia ama a ampulosidade porque ela produz aparência de importância. Muitas instituições acreditam que a autoridade aumenta proporcionalmente ao tamanho dos substantivos abstratos empregados.
Não aumenta.
Apenas dificulta a leitura.
Nem toda grandiloquência, porém, deve ser condenada. A pedagogia contemporânea frequentemente idolatra uma concisão tão obsessiva que transforma toda elevação estilística em suspeita moral. Isso empobrece a linguagem.
A grande eloquência política, religiosa e literária raramente é minimalista. Discursos épicos exigem energia verbal. A majestade possui função estética e psicológica legítima. O ser humano não vive apenas de clareza; vive também de brilho, ritmo, imagens e expansão imaginativa.
O problema começa quando a grandiloquência perde adequação.
Quando:
a intensidade excede o objeto;
a elevação não encontra sustentação intelectual;
a linguagem promete mais do que a ideia entrega.
Nesse instante, a grandiloquência degenera em tumidez ou ampulosidade.
Algo semelhante ocorre com o asianismo — talvez a categoria historicamente mais mal compreendida da Retórica clássica.
Os antigos opositores do estilo asiânico criticavam:
sua exuberância;
sua musicalidade;
sua emocionalidade;
sua ornamentação abundante.
Mas o asianismo não era simples defeito. Era uma estética da abundância verbal. Muitos grandes oradores da História possuem traços asiânicos. O asianismo compreendia algo essencial: o ser humano não é persuadido apenas pela lógica. Também deseja fascínio.
O estilo asiânico:
seduz;
teatraliza;
emociona;
encanta;
envolve o auditório numa experiência sonora e imagética.
Seu risco está no excesso narcísico. Mas sua potência estética é real.
Aliás, muitos críticos históricos do asianismo escreviam de modo tão adornado que acabavam produzindo asianismo enquanto condenavam o asianismo. A humanidade raramente perde oportunidade de praticar um vício com superioridade técnica.
No fundo, todos esses conceitos revelam algo muito mais profundo do que simples “erros de linguagem”. Eles expõem modos diversos de relação entre:
pensamento;
vaidade;
poder;
sedução;
insegurança;
prestígio;
e desejo de reconhecimento.
Porque estilo nunca é apenas forma.
Estilo é psicologia tornada sintaxe.
A prolixidade frequentemente denuncia insegurança intelectual. A obscuridade estratégica pode ocultar fragilidade argumentativa. A ampulosidade busca autoridade pela solenidade. A tumidez tenta compensar pobreza conceitual com gigantismo verbal. A periergia enamora-se da própria tessitura formal.
Mas também há excessos legítimos. A exuberância barroca, a musicalidade oratória, a expansão poética e certas formas de abundância estética podem produzir beleza autêntica.
A Retórica clássica jamais foi polícia da simplicidade.
Ela sempre foi ciência da adequação.
Tudo depende:
do gênero;
do auditório;
da finalidade;
do efeito;
da ocasião;
da proporção entre linguagem e matéria.
Há momentos que exigem concisão. Há momentos que exigem majestade. Há momentos que pedem silêncio. E há momentos em que apenas uma frase ampla, sonora e luminosa consegue suportar a gravidade da experiência humana.
O verdadeiro fracasso começa quando o estilo se autonomiza. Quando já não ilumina o pensamento. Quando deixa de servir à ideia e passa a existir para si mesmo.
Nesse instante, a linguagem converte-se em espetáculo narcísico.
E poucas tragédias intelectuais são tão elegantes —e tão perigosas —quanto uma frase apaixonada pela própria beleza.


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