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Perguntamos mal porque já chegamos cheios de respostas

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 8 de mar.
  • 3 min de leitura
“Uma pergunta verdadeira nasce da curiosidade, não da vontade de confirmar uma opinião.”— Elke Wiss, Café com Sócrates

Por Glênio S Guedes (advogado)


1. A curiosa abundância de respostas


Vivemos uma época curiosa. Nunca se falou tanto e nunca se perguntou tão pouco.

As respostas multiplicam-se com uma facilidade quase prodigiosa. Opiniões aparecem a todo instante, prontas, completas, dotadas de uma convicção admirável. Em poucos minutos alguém explica a política internacional, resolve os dilemas da economia, esclarece os mistérios da justiça e, se ainda restar algum tempo, opina também sobre o futuro da civilização.

As perguntas, por outro lado, tornaram-se raras.

Talvez porque perguntar seja mais difícil do que responder. Para responder basta convicção; para perguntar é preciso curiosidade. E a curiosidade exige uma pequena dose de humildade intelectual — virtude que, embora não esteja extinta, anda um tanto fora de moda.


2. Quando a pergunta não é pergunta


No livro Café com Sócrates, a filósofa Elke Wiss chama atenção para um detalhe curioso: nem toda frase interrogativa é uma pergunta.

Muitas vezes usamos a forma interrogativa apenas para disfarçar uma afirmação.

“Você não acha isso absurdo?”“Ele não está completamente equivocado?”

A pergunta, nesse caso, não pretende investigar. Pretende apenas confirmar uma opinião já formada. O interlocutor não foi convidado a pensar; foi convidado a concordar.

A pergunta genuína é diferente. Ela nasce da curiosidade, não da vontade de vencer uma discussão.

Mas esse tipo de pergunta exige uma disposição que nem sempre cultivamos: a disposição de escutar.


3. A pequena dificuldade de ouvir


Perguntar bem exige ouvir com atenção. Ouvir com atenção exige paciência. E a paciência, como se sabe, não é exatamente a virtude dominante do nosso tempo.

Preferimos responder antes mesmo que o outro termine de falar. Muitas conversas transformam-se numa curiosa alternância de monólogos breves: cada participante aguarda apenas o momento oportuno para apresentar sua própria opinião.

Nesse ambiente, a pergunta torna-se quase supérflua. Afinal, se já sabemos o que pensamos, por que correr o risco de descobrir algo novo?


4. A satisfação de opinar


Existe ainda uma razão mais simples — e talvez mais decisiva.

Falar de nossas próprias ideias é agradável. Pesquisas citadas por Elke Wiss mostram que o cérebro reage positivamente quando expressamos opiniões pessoais. Em termos simples, opinar produz uma pequena recompensa neurológica.

Perguntar, por outro lado, exige esforço. Implica reconhecer que ainda não sabemos tudo sobre o assunto — circunstância que o amor-próprio, às vezes, prefere evitar.

Talvez por isso as opiniões se multipliquem com tanta facilidade.


5. A pressa como inimiga da pergunta


Outro inimigo da boa pergunta é a pressa.

Perguntar bem exige tempo. É preciso compreender o problema, refletir sobre o contexto, formular a questão adequada. Opinar, ao contrário, pode ser feito imediatamente — e muitas vezes com notável entusiasmo.

Não surpreende, portanto, que a pergunta pareça um procedimento excessivamente lento para uma época que valoriza respostas instantâneas.


6. A pedagogia das respostas


Há também uma razão pedagógica.

Desde cedo somos treinados para responder perguntas, não para formulá-las. A escola mede nossa capacidade de reproduzir conteúdos, não a habilidade de investigar problemas.

Com o tempo, esse hábito produz um efeito curioso: adultos capazes de responder a muitas questões, mas pouco inclinados a fazer novas perguntas.

A curiosidade infantil — aquela que pergunta incessantemente — vai sendo substituída por uma prudência intelectual que prefere permanecer dentro do que já foi explicado.


7. A antiga lição de Sócrates


Sócrates, como se sabe, adotou o caminho oposto.

Em vez de oferecer respostas prontas, fazia perguntas. Perguntas que obrigavam seus interlocutores a examinar aquilo que julgavam saber.

Seu método — a maiêutica — consistia exatamente nisso: ajudar o pensamento a nascer por meio da investigação.

A pergunta socrática não servia para vencer debates. Servia para revelar a diferença entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas imaginamos saber.


8. A inteligência da pergunta


Perguntar bem exige uma virtude rara: humildade intelectual.

Quem pergunta reconhece que uma questão pode ser mais complexa do que parece. Reconhece que o pensamento precisa de investigação antes de produzir conclusões.

Pode parecer uma atitude modesta. Na realidade, é uma forma sofisticada de inteligência.


9. Conclusão


Talvez o problema de nossa época não seja a falta de respostas. Nesse aspecto, estamos amplamente abastecidos.

O problema é outro: chegamos às conversas já carregados de respostas prontas.

E quando as respostas chegam antes da curiosidade, a pergunta perde espaço.

Com ela perde-se também algo essencial: a possibilidade de compreender melhor aquilo que ainda não sabemos.

 
 
 

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