O líder é sintoma: o que a permanência de Trump revela sobre nós
- gleniosabbad
- 2 de mar.
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“A pergunta não é ‘como ele’. É ‘por que nós’.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Há um equívoco muito humano — e, por isso mesmo, muito perigoso — em tratar certos líderes como acidentes. A palavra “acidente” serve para consolar: sugere que a coisa aconteceu apesar de nós, que o episódio é externo, que basta esperar o tempo corrigir o desvio e a estrada volta ao seu traçado moral.
Mas a política não é meteorologia. Não “cai” um Trump como cai uma chuva. Ele se forma, se adensa, ganha nome, palanque e legenda — e, sobretudo, ganha público. O líder, nesses casos, não inaugura o mal-estar: ele o pronuncia. E, quando o pronuncia com sucesso, torna-se sintoma: a febre visível de uma infecção antiga.
Dizer “Trump” é, portanto, dizer um conjunto de coisas que já estavam no ambiente: o cansaço da complexidade, o vício das certezas instantâneas, a alergia a mediações (instituições, imprensa, ciência, tribunais — tudo o que obriga o desejo a passar por uma fila). Num tempo que transformou opinião em reflexo e reflexão em atraso, o homem que fala como quem atira prospera não apesar do barulho, mas por causa dele.
1) A permanência não é um mistério; é um acordo
A pergunta “por que ele permanece?” costuma vir carregada de espanto moral, como se a sociedade fosse um tribunal íntegro que, por distração, elegeu o réu para juiz. Só que a permanência, em democracia de massas, é menos um truque do indivíduo e mais uma coalizão de conveniências:
há quem o apoie por convicção;
há quem o tolere por cálculo;
há quem o defenda por identidade (“se atacam ele, atacam a mim”);
e há uma multidão silenciosa que não o ama nem o odeia — apenas se habituou.
O hábito, esse funcionário exemplar do espírito, tem um talento especial: ele consegue transformar o intolerável em cotidiano. E o cotidiano, uma vez instalado, passa a ser confundido com “normalidade”. O escândalo deixa de ser alarme e vira trilha sonora.
2) A política como espetáculo: quando a ética vira figurante
O espetáculo tem uma regra simples: ele precisa de clímax contínuo. O governante-espetáculo não administra; ele interrompe. Não governa por construção, mas por colisão. E, nessa economia da atenção, a verdade não perde por ser fraca; perde por ser lenta.
A mentira, ao contrário, é ágil e insinuante: não precisa provar; precisa circular. Se for repetida com a segurança de quem não pede desculpas, ela adquire a aparência de força — e, para muitos, aparência já é substância.
Assim, o debate público se rebaixa ao nível do impulso: escolhe-se lado como quem escolhe time. E o que deveria ser exame de realidade vira catecismo emocional. Quando isso acontece, a ética entra em cena apenas para cumprir papel decorativo — como planta de sala que todos elogiam e ninguém rega.
3) O “umbigo” como doutrina (e o mundo como balcão)
Há um traço recorrente nesse estilo de liderança: a política externa tratada como extensão da vaidade doméstica. O mundo vira balcão; alianças viram moeda; regras viram incômodo; e a guerra — ou a ameaça dela — vira recurso retórico para parecer forte quando se está frágil.
Não se trata aqui de diagnosticar pessoa (a psiquiatria não cabe em editorial), mas de nomear um método moral: um narcisismo político em que a realidade internacional vale menos do que o aplauso imediato. A consequência, como a história já ensinou sem delicadeza, é que decisões tomadas para resolver o drama do dia criam tragédias que duram décadas.
E então o cinismo aparece com roupas de “realismo”: desprezam-se instituições, minimizam-se normas, ironiza-se a prudência — como se prudência fosse covardia e barbárie fosse sinceridade.
4) O espelho: não é “ele contra nós”; é “ele por nós”
Chega o ponto em que a pergunta muda de endereço. Porque, se um líder insiste, não é apenas por sua capacidade de impor; é pela nossa capacidade de absorver.
A permanência de Trump revela:
que há um mercado robusto para a simplificação agressiva;
que parte do público prefere a sensação de força à disciplina da verdade;
que a indignação pode virar hobby — e hobby não muda governo;
que o ressentimento, quando bem manipulado, vira programa;
que muita gente não deseja um estadista: deseja um instrumento.
E instrumento não precisa ser bom; precisa ser útil. Útil para punir adversários, humilhar elites, quebrar regras que pareciam feitas “contra mim”. Nessa lógica, a democracia não é um pacto de convivência: é uma marreta disponível.
5) O sintoma mais grave: a fadiga moral
Há um momento em que a sociedade já não discute o certo e o errado; discute apenas o “funciona” e o “não funciona”. Aí nasce uma espécie de niilismo de terno: não se nega a moral por teoria, nega-se por exaustão. Como se, cansados de esperar o melhor, aceitássemos o pior com ar de maturidade.
E o pior, quando aceito sem escândalo, passa a pedir — com voz mansa — o direito de ser regra.
Um líder-sintoma nos oferece, com crueldade involuntária, uma chance rara: a de nos enxergarmos sem maquiagem. Se a figura persiste, não basta praguejar contra a figura. É preciso encarar o terreno que a alimenta: a cultura da distração, o vício da hostilidade, a normalização da mentira, a troca da cidadania por torcida.
Porque, no fim, o homem no topo é só a parte mais visível do enredo. A pergunta que constrange — e por isso mesmo é necessária — permanece de pé, como espelho em corredor estreito:
não é “como ele”. É “por que nós”...


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