Nem toda caverna abriga bárbaros Algumas servem vinho DOC e pecorino artesanal
- gleniosabbad
- 22 de mai.
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“Durante séculos fugiram das cavernas. Hoje pagam caro para dormir nelas.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Há cidades que parecem ter sido construídas para provar o triunfo da civilização sobre a natureza. Outras, mais raras, parecem existir para demonstrar precisamente o contrário: que a inteligência humana, quando menos arrogante, aprende a negociar com a pedra, com o relevo e com o tempo. Matera pertence a esta segunda categoria.
Vista de longe, Matera produz um estranhamento inicial. O observador desavisado poderia imaginar uma cidade fossilizada, arqueológica, quase imóvel sob o peso da própria antiguidade. Mas basta caminhar pelos Sassi para compreender que ali não existe ruína passiva. Existe continuidade. A cidade não repousa sobre a história: ela continua vivendo dentro dela.
Poucas cidades europeias possuem uma relação tão longa e contínua com a experiência humana quanto Matera. Vestígios arqueológicos encontrados na região demonstram ocupação desde o Paleolítico, quando comunidades pré-históricas já utilizavam as cavidades naturais da gravina como abrigo e ponto de sobrevivência. Antes mesmo que Roma concebesse estradas, antes que Florença descobrisse o Renascimento, antes que Veneza aprendesse a negociar com o Oriente, homens já observavam o mesmo horizonte calcário de Matera, acendendo fogo diante das mesmas paredes de pedra que ainda hoje refletem a luz do entardecer. Em certos pontos da cidade, a sensação não é a de visitar ruínas antigas, mas a de atravessar lentamente camadas sucessivas da própria experiência humana.
Os Sassi — bairros inteiros escavados na rocha calcária — não são meras cavernas improvisadas. Constituem um sofisticado sistema histórico de adaptação ambiental, urbanismo vertical e sobrevivência coletiva. Igrejas rupestres, cisternas, túneis hidráulicos, depósitos subterrâneos, escadarias e habitações foram sendo moldados ao longo dos séculos numa espécie de arquitetura sedimentar, onde cada geração acrescentava sua camada ao corpo mineral da cidade.
Talvez seja justamente isso que torne Matera tão perturbadora ao olhar moderno: ela desmonta certa ideia linear de progresso. O século XX, sempre muito seguro de sua superioridade urbanística, decidiu que os Sassi representavam atraso intolerável. Nos anos 1950, milhares de habitantes foram removidos das cavernas sob o argumento — parcialmente verdadeiro — de combater pobreza extrema, doenças e precariedade sanitária. Intelectuais italianos descreviam a cidade como “vergonha nacional”. O progresso decidiu então salvar os habitantes da própria paisagem.
Eis, porém, a ironia: décadas depois, o mesmo mundo urbano que condenara aquelas habitações passou a romantizá-las. A precariedade converteu-se em patrimônio; a pobreza transformou-se em estética; a necessidade virou experiência premium. Dormir numa antiga caverna — outrora símbolo de exclusão social — tornou-se privilégio caro reservado a turistas internacionais em busca de autenticidade mediterrânica. A modernidade, como se percebe, possui o curioso hábito de demolir aquilo que mais tarde decidirá admirar.
Hoje, hotéis escavados na pedra oferecem spas subterrâneos, iluminação cênica e adegas refinadas. Antigas moradias camponesas recebem hóspedes dispostos a pagar valores consideráveis pela experiência de “retornar às origens”, desde que as origens disponham de calefação, lençóis egípcios e internet sem fio discretamente instalada entre paredes paleolíticas.
Mas seria injusto reduzir Matera a uma caricatura de turismo sofisticado. A cidade conseguiu realizar algo raro: revitalizar-se sem destruir inteiramente sua memória mineral. Há, ali, uma tensão constante entre conservação e consumo, autenticidade e espetáculo, arqueologia e mercado. E talvez justamente por isso Matera permaneça intelectualmente fascinante.
A paisagem urbana possui ainda uma dimensão quase semiótica. Tudo comunica. A pedra não funciona apenas como matéria arquitetônica: converte-se em signo de permanência, resistência e continuidade histórica. As fachadas irregulares, as escadarias abruptas, os becos estreitos e as igrejas incrustadas na rocha criam uma gramática visual singular, na qual o espaço parece narrar silenciosamente sua própria biografia.
O visitante percebe rapidamente que Matera não foi desenhada para automóveis, pressa ou linhas retas. Ela exige lentidão. Obriga o corpo a reaprender o ato de caminhar. Cada subida parece introduzir uma nova camada histórica; cada mirante reorganiza a percepção do tempo.
Há ainda um elemento raramente descrito pelos guias turísticos, embora talvez seja um dos aspectos mais perturbadores de Matera: o silêncio. As antigas habitações escavadas na rocha possuem uma acústica peculiar, quase absorvente, como se a pedra decidisse domesticar o ruído do mundo exterior. À noite, sobretudo nos Sassi menos movimentados, o visitante percebe um silêncio espesso, mineral, interrompido apenas pelo eco distante de passos sobre as escadarias de pedra ou pelo som discreto dos sinos das igrejas. Não é um silêncio vazio, mas litúrgico. As cavernas parecem conservar uma memória acústica do recolhimento monástico, da oração e da sobrevivência silenciosa de gerações que aprenderam a viver com pouco espaço, pouca luz e muita resistência.
E então surge a culinária — talvez a mais eloquente tradução material da história de Matera.
A cozinha materana não nasceu da abundância exuberante das cortes italianas. Nasceu da necessidade rural, da economia rigorosa e da inteligência camponesa. Como quase toda grande culinária mediterrânica, transformou limitação em identidade.
O famoso Pane di Matera talvez seja seu maior símbolo. Produzido tradicionalmente com semolina de trigo duro e fermentação lenta, possui crosta espessa, dourada e quase escultórica. Ao primeiro corte, ouve-se o estalo seco da casca antes que escape o aroma quente do trigo fermentado lentamente. Não é pão delicado; é pão civilizacional. Durante séculos, precisava durar dias inteiros para famílias numerosas e trabalhadores rurais. Ainda hoje conserva algo dessa dignidade austera.
O azeite local, verde-dourado e discretamente picante, escorre sobre o pão ainda quente com uma intensidade herbácea que parece concentrar o próprio verão da Basilicata. Os peperoni cruschi, frágeis e crocantes, quebram-se entre os dedos como pequenas lâminas vermelhas de vidro caramelizado, enquanto o pecorino envelhecido deixa no paladar uma rusticidade elegante, marcada pelo leite ovino e pela cura lenta.
Nada ali parece concebido para impressionar imediatamente. A culinária materana opera por permanência. É uma cozinha que não explode; sedimenta-se. Como a própria cidade.
Os vinhos da região, especialmente o Aglianico del Vulture, completam essa experiência sensorial com notável coerência geográfica. Produzido em solos vulcânicos da Basilicata, o vinho possui estrutura robusta, acidez firme e notas minerais que parecem dialogar diretamente com a paisagem pedregosa da região. Há algo profundamente adequado em beber um vinho vulcânico dentro de uma cidade escavada em pedra.
Evidentemente, a Itália possui cidades mais monumentais, mais grandiosas e talvez mais imediatamente belas. Roma exibe impérios. Veneza encena poesia aquática. Florença transforma mármore em renascimento. Matera, porém, oferece algo diferente: uma arqueologia habitada.
Ela não impressiona apenas pela estética, mas pela estranha sensação de continuidade civilizacional que produz. Em Matera, o passado não foi inteiramente musealizado. Continua cozinhando, rezando, fermentando pão, tocando sinos e vendendo vinho.
Talvez por isso a cidade provoque fascínio tão contemporâneo. Num mundo obcecado por velocidade, transparência e superfícies impecáveis, Matera reapresenta o valor da espessura histórica. Suas paredes irregulares, suas sombras minerais e suas cicatrizes urbanas recordam algo que a arquitetura contemporânea frequentemente esqueceu: cidades também precisam envelhecer.
E talvez seja precisamente esse o segredo de Matera.
Durante séculos, homens sonharam escapar das cavernas para alcançar a modernidade. Agora, esgotados pela própria modernidade, atravessam oceanos para retornar às cavernas — desde que nelas haja vinho DOC, pão ancestral, silêncio litúrgico e pecorino artesanal servido sobre uma mesa de pedra diante do entardecer da Basilicata.


Bonsoir, cet article nous fait voyager en Italie et particulièrement à Matera.
Quel bel endroit !!!!!