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Entre o trono e o espelho: o Papa que não temeu Trump em tempos de embolia cognitiva

  • Foto do escritor: gleniosabbad
    gleniosabbad
  • 18 de abr.
  • 5 min de leitura

Há momentos em que o silêncio é prudência; outros, em que é cumplicidade...


Por Glênio S Guedes (advogado)


Há figuras históricas que não se explicam por seus gestos isolados, mas pelo contraste que produzem. É nesse contraste — quase dramático — que se insere o recente embate entre o Papa Leão XIV e Donald Trump.

De um lado, o poder que fala alto. De outro, a autoridade que sabe quando falar.

Durante meses, Leão XIV preservou a tradição diplomática da Igreja: prudência, reserva, quase uma recusa em descer ao terreno ruidoso da política imediata. Não era omissão — era consciência histórica. O papado, afinal, não se mede por ciclos eleitorais, mas por séculos.

Mas há momentos em que até a prudência encontra seu limite.

Esse limite surgiu quando a linguagem da ameaça passou a flertar com a destruição civilizacional — como se povos, culturas e histórias milenares fossem peças descartáveis num tabuleiro de poder. Foi então que o Papa rompeu o silêncio. E o fez com a clareza de quem não reage, mas delimita: há fronteiras que não podem ser atravessadas sem que o próprio sentido do humano se dissolva.

Sua fala não foi política no sentido vulgar do termo. Foi, antes, teológica — e, justamente por isso, mais radical.

Ao afirmar que Deus rejeita as orações de líderes cujas mãos estão “cheias de sangue”, Leão XIV não nomeou indivíduos; expôs uma estrutura. Denunciou, com sobriedade, a tentativa antiga — e sempre renovada — de capturar o sagrado para justificar a violência.

E é aqui que sua lucidez se torna incontornável.


I. A doença do nosso tempo: da embolia narcísica à embolia cognitiva


Se quisermos compreender o pano de fundo desse embate, talvez seja necessário recorrer menos à retórica política e mais à psicanálise.

Como observa o psicanalista Christian Dunker, vivemos sob o risco daquilo que ele denomina “embolia narcísica” — um entupimento do sujeito em si mesmo, incapaz de reconhecer o outro, de suportar o contraditório ou de sair da lógica de confirmação permanente.

Hoje, padecemos também de uma embolia cognitiva.

Não se trata de ignorância no sentido clássico, mas de algo mais insidioso: a incapacidade de ver o óbvio em meio ao excesso de informação. Cercados por discursos que apenas confirmam crenças, habituamo-nos a confundir repetição com verdade.

Nesse ambiente, o narcisismo deixa de ser apenas traço psicológico e se torna forma de poder.

Trump encarna essa lógica com precisão quase pedagógica: um poder que não busca convencer, mas ocupar o espaço; que não dialoga, mas se projeta; que não reconhece o outro, mas o incorpora como plateia.

E, como todo narcisismo hipertrofiado, precisa constantemente de espelhos.


II. O poder como negócio: quando governar e lucrar se confundem


Os dados econômicos não são meros acessórios — são sintomas estruturais.

Nunca, na história recente dos Estados Unidos, um presidente acumulou tanta riqueza durante o exercício do cargo. Em poucos meses, centenas de milhões foram agregados ao patrimônio pessoal, enquanto novas engrenagens financeiras — especialmente no universo das criptomoedas — passaram a orbitar o poder político.

Não se trata apenas de enriquecimento.

Trata-se da dissolução progressiva de uma distinção que, até então, sustentava a ideia mesma de república: a separação entre o interesse público e o interesse privado(patologia, aliás, da qual padecemos também aqui, em terra brasilis) .

O que se observa é uma nova forma de poder, em que governar deixa de ser função para tornar-se plataforma de valorização pessoal. A política não limita o interesse — ela o potencializa.

E, nesse contexto, o narcisismo encontra seu terreno ideal: um mundo onde tudo pode ser convertido em capital — inclusive a própria autoridade.


III. O Papa e o “não”: teologia como limite


É precisamente nesse cenário que a figura de Leão XIV adquire densidade rara.

Na tradição cristã, há um elemento frequentemente esquecido: o “não” como forma de cuidado. Não o não da recusa estéril, mas o não que protege, que delimita, que impede a degradação do humano.

Ao recusar o uso instrumental da religião, o Papa não faz política partidária — exerce uma função mais antiga: a de recordar que o poder não é absoluto.

Sua resposta aos ataques — sereno ao ponto de afirmar que “não tem medo” — não é apenas coragem. É liberdade.

Porque só é verdadeiramente livre quem não precisa reagir para existir.

Enquanto é chamado de “fraco”, ele demonstra uma força que não se exibe. Enquanto é provocado, ele recusa o jogo da provocação. Enquanto o outro encena, ele sustenta.

E, ao sustentar, desloca o eixo do confronto.


IV. Entre o grotesco e o sublime


O contraste entre ambos não é apenas político ou moral — é também estético.

De um lado, o espetáculo: imagens calculadas, encenações simbólicas, autofigurações que flertam com o grotesco — inclusive quando se insinuam como messiânicas, confundindo representação com identidade.

De outro, a sobriedade: a palavra medida, o gesto contido, a recusa em transformar o sagrado em instrumento de autopromoção.

É a diferença entre o poder que precisa ser visto e a autoridade que se impõe mesmo no silêncio.

Entre o ruído e o sentido.


V. Geopolítica da lucidez


No plano internacional, o embate revela mais do que divergências pontuais.

Trump opera na lógica da força — uma política que transforma o mundo em arena e a linguagem em instrumento de pressão.

Leão XIV, ao contrário, reinscreve a política no horizonte do humano: fala de paz, de diálogo, de multilateralismo — termos que, curiosamente, passaram a soar quase subversivos em um tempo fascinado pela brutalidade.

Não se trata de ingenuidade.

Trata-se de resistência.

Ao denunciar um mundo “assolado por um punhado de tiranos”, o Papa não ataca apenas indivíduos — expõe uma forma de racionalidade política, aquela que substitui o bem comum pela vontade individual.


VI. Conclusão: coragem em tempos de obviedade invisível


Talvez o dado mais inquietante de tudo isso não esteja nem nos protagonistas, mas no contexto que os torna possíveis.

Como chegamos a um ponto em que o óbvio precisa ser reaprendido? Em que a confusão entre poder e interesse privado não escandaliza, mas se naturaliza? Em que o espetáculo substitui o juízo?

Em tempos de embolia cognitiva, ver tornou-se difícil.

E é por isso que a lucidez se tornou uma forma rara de coragem.

Leão XIV não gritou — e, justamente por isso, foi ouvido.

Não reagiu — respondeu.

Não encenou — afirmou.

E, ao fazê-lo, revelou, sem precisar nomear, a fragilidade de todo poder que depende do espelho para existir.

Porque, no fim, há uma verdade simples — dessas que nossa época insiste em não ver:

o poder que precisa se representar como divino talvez já tenha perdido o contato com o humano.


 
 
 

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