A ciência sequestrada
- gleniosabbad
- 10 de mai.
- 5 min de leitura
Como a desinformação profissionalizou o charlatanismo digital
“Uma mentira repetida mil vezes não se torna verdade; torna-se apenas familiar.”
Por Glênio S Guedes (advogado)
Houve um tempo em que o charlatão precisava atravessar feiras empoeiradas carregando frascos coloridos, promessas milagrosas e uma eloquência suficientemente convincente para vender elixires contra calvície, melancolia, gota, tristeza amorosa e, em ocasiões mais ambiciosas, contra a própria morte. Era figura folclórica, quase pitoresca: um cruzamento entre o ator medíocre e o alquimista fracassado.
O século XXI, contudo, decidiu modernizar-lhe a infraestrutura.
Hoje, o charlatão possui iluminação profissional, câmera em alta definição, estratégias de engajamento, cortes rápidos, edição emocional, marketing de afiliados, inteligência artificial e milhões de visualizações. Já não percorre aldeias; percorre algoritmos. Já não vende apenas poções; vende “protocolos”. Não fala em milagres; fala em “evidências ocultadas”. Não se apresenta como impostor; apresenta-se como “especialista perseguido”.
A fraude contemporânea, convém reconhecer, sofisticou-se.
Eis o ponto verdadeiramente inquietante de nosso tempo: a desinformação deixou de ser simples deformação espontânea da ignorância para converter-se em indústria profissionalizada da credulidade. A mentira ganhou método, estética, monetização e escala. Em muitos casos, ganhou também jaleco.
Talvez resida aí a tragédia mais elegante da era digital: a ciência tornou-se vítima de seu próprio prestígio. Durante séculos, o conhecimento científico construiu autoridade social mediante rigor metodológico, observação sistemática, revisão crítica e disposição permanente à dúvida. Agora, seus símbolos foram sequestrados por uma economia da atenção que compreendeu algo decisivo: parecer científico rende mais do que ser científico.
O método, afinal, exige tempo; o algoritmo exige velocidade.
A ciência opera com cautela probabilística; a desinformação opera com convicções absolutas.
A primeira frequentemente responde “depende”; a segunda responde “eu tenho a verdade que esconderam de você”.
E, convenhamos, entre a prudência epistemológica e o espetáculo da revelação clandestina, o espírito humano — sobretudo quando cansado, assustado ou emocionalmente exausto — nem sempre escolhe o caminho mais racional.
As redes sociais agravaram esse cenário ao promover uma democratização peculiar da autoridade cognitiva. Todos podem falar — o que, em si mesmo, não constitui problema algum; o problema nasce quando toda fala passa a aparentar idêntico valor epistemológico. O resultado é uma espécie de planície intelectual em que décadas de pesquisa científica parecem equivaler à opinião inflamada de alguém gravando vídeos dentro de um automóvel estacionado.
A plataforma não distingue evidência de performance.
O algoritmo tampouco possui especial apreço pela verdade; possui apreço pelo engajamento.
E poucas coisas engajam tanto quanto medo, indignação, conspiração e promessa de salvação instantânea.
Assim prosperam os novos mercadores da ansiedade contemporânea. Há os profetas nutricionais que descobrem semanalmente um alimento “assassino”; os terapeutas quânticos que utilizam a física como quem usa tempero linguístico; os vendedores de detox metafísico; os gurus da prosperidade hormonal; os cruzados antivacina; os sacerdotes da “cura natural” para doenças complexas; e toda uma fauna digital que mistura meia dúzia de termos técnicos, dois gráficos mal compreendidos e um sorriso confiante diante da câmera.
O fenômeno é profundamente semiótico.
A desinformação moderna aprendeu a imitar os signos externos da ciência: linguagem técnica, aparência profissional, citações fragmentadas de artigos, imagens de laboratório, tom professoral, gráficos coloridos e uma teatralidade de autoridade cuidadosamente construída. O significante “científico” circula livremente, mesmo quando o significado desapareceu há muito.
Em outras palavras: muitos já não verificam se algo é verdadeiro; verificam apenas se parece verdadeiro.
E parecer tornou-se infinitamente mais barato que demonstrar.
Há, ademais, uma mutação especialmente preocupante nesse processo: a passagem do amadorismo para a profissionalização da desinformação. Antigamente, o boato era frequentemente artesanal, transmitido entre conhecidos ou perdido nos corredores obscuros da superstição cotidiana. Hoje há estratégia comercial, monetização sofisticada, funis de venda, consultorias, cursos, assinaturas, suplementos, mentorias e produtos derivados.
A mentira descobriu o capitalismo de plataforma.
E descobriu algo ainda mais rentável: o medo vende.
Vende muito.
O indivíduo assustado consome mais, compartilha mais, reage mais e compra mais. O terrorismo nutricional, por exemplo, tornou-se um dos negócios mais lucrativos da internet contemporânea. Há sempre um alimento mortal escondido em sua cozinha, uma toxina silenciosa infiltrada em sua rotina ou um inimigo invisível que apenas determinado influencer iluminado consegue identificar.
A serenidade, infelizmente, viraliza menos.
Mas seria intelectualmente desonesto atribuir toda a culpa apenas aos produtores de desinformação. Parte considerável da responsabilidade repousa também sobre a histórica incapacidade de muitos setores acadêmicos de comunicar conhecimento com clareza, acessibilidade e conexão humana.
Durante décadas, certa cultura universitária confundiu obscuridade com profundidade. Produzir textos incompreensíveis converteu-se, em alguns ambientes, numa espécie de demonstração involuntária de prestígio intelectual. O cidadão comum passou então a enxergar a ciência como território distante, hostil e hermeticamente fechado.
O vazio comunicacional jamais permanece vazio por muito tempo.
Onde o cientista não chega, chega o simplificador profissional.
Onde a linguagem acadêmica exclui, o influencer acolhe.
Onde o conhecimento fala excessivamente para si mesmo, o charlatão fala diretamente para a angústia cotidiana das pessoas.
E aqui reside um ponto delicado que muitos preferem ignorar: a maior parte das vítimas da desinformação não é composta de indivíduos irracionais ou moralmente inferiores. Frequentemente são pessoas assustadas, cansadas, desconfiadas das instituições, emocionalmente vulneráveis e submetidas a um ambiente informacional caótico.
O excesso de informação não produziu necessariamente mais esclarecimento.
Produziu, muitas vezes, fadiga cognitiva.
Depois de algum tempo, muitos já não tentam distinguir verdadeiro e falso; limitam-se a consumir aquilo que conforta suas crenças prévias ou organiza emocionalmente suas inseguranças. A verdade, afinal, exige trabalho intelectual. A mentira costuma oferecer conforto imediato.
Eis por que o combate à desinformação não pode reduzir-se à mera repetição arrogante de fatos corretos. Informação sem confiança raramente convence. O enfrentamento desse problema exige alfabetização midiática, formação crítica, educação científica acessível e, sobretudo, reconstrução de vínculos públicos de credibilidade.
É preciso ensinar as pessoas não apenas o que pensar sobre determinado tema, mas como avaliar evidências, identificar manipulações discursivas, rastrear interesses econômicos e reconhecer estratégias emocionais de persuasão.
Mais ainda: é necessário recuperar o valor civilizacional da dúvida inteligente.
Vivemos entre dois extremos igualmente perigosos: o crédulo absoluto e o cínico absoluto. O primeiro acredita em tudo; o segundo não acredita em nada. Ambos acabam vulneráveis à manipulação.
A maturidade intelectual talvez consista precisamente em aprender a calibrar confiança segundo a qualidade das evidências disponíveis.
Mas isso exige algo raro em tempos digitais: paciência cognitiva.
A verdade científica costuma ser lenta, provisória, revisável e metodicamente humilde. Já a desinformação chega vestida de revelação definitiva. Uma oferece complexidade; a outra oferece conforto narrativo.
E o conforto narrativo, sejamos francos, possui extraordinária capacidade eleitoral, mercadológica e algorítmica.
Talvez o maior desafio contemporâneo seja justamente este: formar cidadãos epistemologicamente resistentes numa civilização construída para premiar impulsividade, simplificação e reação emocional imediata.
O problema da desinformação não é apenas a existência da mentira. Mentiras acompanham a humanidade desde muito antes da internet. O problema é a velocidade industrial com que hoje elas circulam, a sofisticação estética com que se apresentam e a erosão progressiva da capacidade coletiva de discernimento.
A biblioteca inteira cabe agora num telefone.
Infelizmente, o charlatão também.


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